Cotidiano

Assistindo ‘Narcos’ em uma Medellín diferente

Redação DM

Publicado em 21 de outubro de 2015 às 07:05 | Atualizado há 11 anos

MEDELLÍN — Considerando toda a ostentação com que vivia, Pablo Escobar tem um local de descanso que é curiosamente modesto. O senhor das drogas mais notório do mundo está enterrado junto a alguns parentes, ao lado de uma fileira de pinheiros esguios, embaixo de uma placa verde esmeralda que cita apenas o seu nome e as datas entre as quais viveu.

Depois que ele foi morto a tiros, em dezembro de 1993, seu túmulo se tornou um destino de peregrinações para colombianos desamparados que o reverenciavam como uma figura magnânima que serviu os sem-teto do país, construindo-lhes casas e dando-lhes dinheiro. Com o passar dos anos, a gratidão pelo pelo abrigo aos pobres passou e Medellín se esforçou muito para superar seu passado sangrento. Agora, os visitantes locais que chegam ao seu túmulo são raros.

Mas com o recente sucesso das séries de televisão e filmes sobre a personalidade e a era violenta que ele protagonizou, as pessoas voltam a se direcionar para os Jardins de Monte Sacro, um cemitério nas colinas nos arredores de Medellín.

— Recebemos entre 40 e 50 pessoas por dia — disse Federico Arroyave, que faz a manutenção do túmulo de Escobar, em uma tarde ensolarada. — Só turistas.

A série do Netflix “Narcos”, um drama policial bilíngue, atingiu picos de audiência nos EUA e em boa parte da América Latina desde seu lançamento, em agosto, sendo também exibida no Brasil. Ela veio logo depois de uma outra série, produzida na Colômbia em 2012, sob o título de “Escobar, o patrão do mal”.

Mês passado, Tom Cruise passou duas semanas na Colômbia, gravando as cenas de “Mena”, um filme sobre o piloto americano Barry Seal, um traficante de drogas que se tornou informante da DEA (Departamento Antidrogas dos EUA). Enquanto isso, Penélope Cruz e Javier Bardem se preparam para estrelar o romance entre o chefão e a jornalista que também se tornou informante da DEA, anos depois de sua morte.

O cenário bilionário da vida de Escobar é impressionante, de fato. Mas, para muitos colombianos, esse repentino interesse naquele período dá uma sensação de ressaca ruim, em uma época em que o governo federal e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) negociam a paz, depois de cinco décadas de guerra.

A série do Netflix vem sendo um incômodo particular para os colombianos. Para começar, o ator que faz Escobar é o brasileiro Wagner Moura e fala com sotaque. A história é contada a partir do ponto de vista de Steve Murphy, um herói agente da DEA, cuja construção e interpretação são vazias e cheias de clichês.

— Isso é parte da nossa história, quer gostemos ou não — disse Francisco Pulgarín, diretor da Comissão de Filmes de Medellín, que mantém uma política de não prestar assistência a produções de temática sobre tráfico de drogas. — Não costumamos ter interesse em apoiar projetos que abordem esse capítulo, que é fechado para nós.

As autoridades locais ainda não superaram o passado brutal. Em 2012, a cidade inaugurou a Casa da Memória, um museu que convida os visitantes a refletir sobre a complexa história de brutalidade da Colômbia. O fundo do poço para a cidade veio em 1991, quando a maior parte da cidade era controlada por cartéis de droga. Naquele ano, foram 6.809 velórios de vítimas de assassinatos.

— O Estado estava de joelhos na guerra com os traficantes de drogas — disse Luis Fernando Suárez Vélez, vice-prefeito que supervisiona as iniciativas de segurança. — A lição aprendida é que o combate ao tráfico deve ser feito de cabeça erguida.

Autoridades locais estavam eufóricas em anunciar, neste ano, que, pela primeira vez em décadas, Medellín não está mais entre as 50 cidades com as mais altas taxas de homicídio do mundo. O nível da pobreza também caiu, com investimentos em educação, moradia e infraestrutura.

A segunda maior cidade da Colômbia agora tem uma indústria de moda crescente; uma cena gastronômica considerável; hotéis modernos e uma vida noturna agitada. O clima primaveril presente o ano todo e a cultura hospitalar foram impulsos naturais para o turismo da cidade, tornando-a destino muito procurado para conferências internacionais.

Não cabe dizer que Medellín seja plenamente segura, próspera ou livre de drogas. Crimes de rua violentos continuam sendo uma constante. Os salários para muito residentes continua baixo. E a rede de drogas permanece em ação, ainda que menos visível, na política e na economia local. Mesmo assim, os moradores dizem ter muito do que se orgulhar.

A chegada de Tom Cruise foi muito bem acolhida pelas autoridades, que decidiram anular a regra da Comissão de Filmes para projetos sobre tráfico. Eles ajudaram os produtores a obter as permissões para as gravações; solucionaram questões logísticas para a equipe e convidaram o ator para conhecer o prefeito.

— Ter um ator desse nível na cidade por 15 dias, andando pelas ruas, indo aos restaurantes, nos permitiu mostrar como Medellín mudou — disse Pulgarín.

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia