Cotidiano

Cadê a merenda?

Redação DM

Publicado em 23 de março de 2017 às 02:35 | Atualizado há 1 ano

“Mãe, faz carninha pra mim? Não estou comendo na escola”, é o pedido de uma das alunas do Cmei 8 de Março, no Setor Central. A criança comentou sobre a falta de carne na unidade onde estuda.

Essa é a realidade de algumas escolas e Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis). Alunos, pais e profissionais da educação reclamam da falta de opções no cardápio escolar. Funcionários correm atrás de soluções para proporcionar qualidade na alimentação das crianças. Alguns tiram do próprio bolso e não têm garantido o ressarcimento da prefeitura.

Na segunda-feira, dia 20 de março, a Escola Municipal Alonso Dias Pinheiro, na Vila São Clemente, enviou um comunicado aos pais sobre a falta de alimentos e da indisponibilidade de atendimento no período integral. A escola informa ainda que é um problema momentâneo e, assim que for resolvido, voltará à normalidade. Enquanto isso, a instituição segue atendendo em período matutino.

A falta de abastecimento de alimentos pelos fornecedores credenciados pela prefeitura vem ocorrendo desde 2015, quando houve irregularidades na compra e distribuição da merenda escolar em Goiânia. Desde então faltam alimentos panificados, extratos e demais variedades de alimentos. “Arroz e feijão nunca faltam, minha filha me disse que comeu somente arroz e feijão a semana inteira”, disse a mãe de uma aluna que prefere não ser divulgada.

Na Escola Municipal Alice Coutinho, os alunos ficaram uma semana sem carne e verduras, as merendeiras buscavam alternativas mesmo com a falta de alguns alimentos. Elas conseguiram variar o cardápio: arroz com macarrão, arroz com caldo de feijão, arroz com feijão tropeiro.

O questionamento dos alunos, principalmente do turno matutino, é comer arroz todos os dias pela manhã, sentem falta de um pão, biscoito, roscas e demais alimentos comumente consumidos nesse turno. A escola tem iogurte, mas não tem o que acompanhar, e tem a polpa, mas falta açúcar. “Uma situação difícil e constrangedora que poderia estar melhor. o Poder Público tem recurso para oferecer alimentos de forma balanceada e de qualidade, e a prefeitura não estabelece um prazo, a única informação é de que está tudo se regularizando. Até quando vão ter que se alimentar desta forma?”, questiona a mãe de uma aluna da unidade.

NUTRIENTES

Durante a infância, as crianças precisam receber nutrientes diversos para alcançarem o crescimento e desenvolvimento adequados e assim evitar doenças e deficiências que podem ocasionar graves consequências. Walquiria A.C.N. de França, nutricionista do Materno Infantil e do Centro de Nutrição e Saúde (CnutriS), destaca que uma alimentação saudável precisa ser diversificada, colorida, saborosa e com uma boa qualidade nutricional. “É necessário o consumo diário de frutas e verduras, além de alimentos do grupo dos cereais, como arroz e macarrão, do grupo das leguminosas, como o feijão e a soja, do grupo das carnes e do leite e derivados. Cada grupo de alimento fornece ao nosso corpo, nutrientes diferentes, que juntos, promovem nossa saúde e bem estar”, afirma a nutricionista.

A nutricionista adverte que se a alimentação diária for monótona e restrita a alimentos apenas de alguns grupos, como anda ocorrendo em algumas escolas da capital, as crianças não irão receber a quantidade de nutrientes necessários para o adequado funcionamento do organismo e desenvolvimento saudável. O consumo com apenas arroz e feijão, dará a energia necessária para realizar as atividades normais, porém, podem apresentar deficiências importantes de vitaminas e minerais presentes nas frutas, verduras, carnes, leites e derivados, como por exemplo, a anemia por deficiência do ferro. “Além da monotinia na alimentação ainda houver baixa ingestão, ou seja, se estiverem consumindo abaixo do necessário, a atenção e o aprendizado podem ser prejudicados e as crianças não irão assimilar os conteúdos ministrados nas aulas. As consequências são sérias e podem causar prejuízos para essas crianças”, aclara.

Investigação

O vereador Elias Vaz (PSDB) vem realizando denúncias sobre as irregularidades na compra e distribuição da merenda escolar em Goiânia. Com a denúncia resultaram no pedido do Ministério Público de Goiás (MP–GO) e o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) a fiscalização dos procedimentos adotados e os contratos firmados pela Secretaria Municipal de Educação no período de 2013 a 2015.

Na época o vereador destacou que é uma medida importante, e que é preciso apurar detalhadamente por que a prefeitura informa gastos altos com a compra de alimentos que não chegam às escolas, além do desvio da verba. Segundo o inquérito do MP-GO, os alimentos destinados à merenda escolar não estaria sendo encaminhados às escolas e Cmeis por má gestão da Secretaria Municipal de Educação, Neyde Aparecida, e do responsável direto pela compra da merenda, o diretor de Alimentação Escolar, Wesley Batista da Silva. Foi confirmado então que alguns itens foram comprados sem nota fiscal e não havia controle dos produtos entregues às escolas.

Dentre as irregularidades, Elias Vaz identificou um rombo de 64 mil quilos de carne bovina e descobriu que, enquanto faltava merenda nas escolas, a prefeitura gastou mais de R$ 3 milhões com itens que não chegaram às unidades. Segundo notas fiscais encaminhadas pela Secretaria Municipal de Educação, de 1.532.212 unidades de bolo de baunilha que teriam sido adquiridas, só 53.639 (3,5%) foram entregues às unidades em um período de seis meses e apenas 30.898 pacotes de 50 gramas de biscoito de polvilho (2,6%) de um total de 1.186.182 supostamente comprados pelo Município foram repassados às escolas e CMEIs. Após dois anos, o problema continua, faltam pães, biscoitos, carnes. O vereador Eliaz Vaz, juntamente com os vereadores Jorge Kajuru (PRP), e Tatiana Lemos (PC do B) segue nas investigações, a fim de solucionar o problema. A esperança dos funcionários, pais e alunos, é a troca de gestão que está acontecendo aos poucos. Ainda vai ter uma reunião com os novos núcleos de educação que irão apresentar melhorias. “Esse período de transição é suportável, o que não pode é continuar acontecendo esses problemas, após a troca de representantes”, diz uma funcionária de uma escola do município que prefere não ser identificada.

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