Cotidiano

Congo se reinventa com juventude

Redação DM

Publicado em 11 de maio de 2017 às 01:47 | Atualizado há 1 ano

O som começa por volta das 5h40. Cresce a cada passo. Intenso. Rítmico. Compacto. Quatro vezes forte. Mais quatro. Mais quatro. E uma vez fraco. Silêncio. Apito. Se o referencial está deitado, então, ele chega ainda mais lento, abafado pelo corpo jogado, pouco desperto. Quem chega é o congo, a manifestação cultural que os escravos trouxeram para o Brasil em tempos de estranhamento cultural.

A temporada dos festejos começou, diz Romilton Souza, que comanda um terno em Goianira (GO). Ele explica ao DM que nos últimos anos tem ocorrido uma mudança significativa na manifestação não-autóctone: uma nova geração assumiu a celebração.

O compromisso dos antigos passou. Muitos antepassados morreram. E os novos assumiram a caminhada, que segue firme naquela madrugada acompanhada por cachorros, vigilantes e trabalhadores que acordam cedo em busca do coletivo.

A puxada acompanhada pelo DM, que ocorre na Vila Isaura, atrai olhares dos madrugadores. Alguns preguiçosos ficam na cama tentando entender o que é.

O congo sintetiza uma dança, música e trajes folclóricos que flerta com o sincretismo cultural e religioso do Brasil. “É algo natural para mim. Meu pai sempre esteve envolvido, acreditava nisso. Infelizmente não está mais. Continuei. Meu filho vai seguir, o neto, bisneto”, diz João Ricardo, que empunha, em Catalão, no tambor disposto em suas mãos, o chamado dos deuses e santos.

No caso da festa da Santa Helena, em sua 72º edição, o louvor de maio é direcionado para Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. A festa começa com grande animação. Na última sexta-feira, 5, no fim da madrugada e início da manhã, o canto lamentoso e o ritmo intenso revelava a realidade da periferia nos arredores de Campinas.

A VOLTA

Romilton diz que as coisas estão difíceis. “Ficamos afastados um tempo e estamos voltando”, diz, enquanto seguia com os jovens do Terno Rosa e Branco, da Vila Santa Helena, região de Campinas.

Seguia sem nada nas mãos, observando os mais jovens como se fosse um mentor, um anjo da guarda das novas congadas. Convidado, como vários outros, ele celebra o espírito do tempo. A festa é de Cloves Morais e família.

Em Goiânia, a cerimônia começa pela Santa Helena e Vila Isaura, segue até a Vila João Vaz e faz a curva para Campinas – no dia 14, ocorre a missa na casa do rei Mariano, às 7h. Outros bairros também têm seus representantes. Catupé Dourado, Verde e Preto, Vinho e Branco, Santa Efigênia, Catupé Marinheiro, 13 de maio, Moçambique Verde e Amarelo, dentre outros, organizam as festas, com generais, rainhas, reis e juízas.

O grito guerreiro e de veneração cruza o amanhecer. Não dá para separar a cultura do econômico: a congada ecoa na alvorada as simbologias do passado e o resultado que se colhe no presente de injustiças. O neo-quilombo é a periferia.

Pesquisa de doutorado de Adriane Damascena, defendida na Universidade Federal de Goiás (UFG), no âmbito do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA), revela quem são os adeptos: motoboys, mecânicos, pintores, professores, trabalhadores em geral.

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A maioria anda de ônibus. São jovens e excluídos de vários direitos. Os tambores da África percutem para lembrar o que tem ocorrido por aqui, o que ocorre no Sudão do Sul e o que ocorreu no passado.

Como o som, e na velocidade do som, eles seguem. A batida vem rápida e vai rápida. A cada ano reinventam a tradição. Participam. Se efetivam em busca da cidadania perdida.

Se você escutou o batuque e titubeou em não se levantar, na hora que abrir o portão para vê-los, já era. Os gritos na multidão desaparecem no escuro.

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