Cotidiano

Crime em Itumbiara expõe posse e uso distorcido da “honra”, analisa psicoterapeuta

Léo Carvalho

Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 17:19 | Atualizado há 5 meses

Calazans leu a carta e afirma que o conteúdo não demonstra descontrole momentâneo, mas uma construção estratégica | Foto: Rede social
Calazans leu a carta e afirma que o conteúdo não demonstra descontrole momentâneo, mas uma construção estratégica | Foto: Rede social

A tragédia que abalou Itumbiara, em Goiás, envolvendo o secretário de governo Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, que matou os dois filhos e depois tirou a própria vida, não pode ser reduzida a um ato impulsivo ou a um caso isolado de descontrole emocional. Para o psicoterapeuta Rodolfo Calazans, especialista em vínculos e autonomia emocional, o conteúdo da carta deixada por Thales mostra algo mais profundo: uma lógica de posse disfarçada de amor.

Imagem: Reprodução Rede Social

Calazans afirma que, ao analisar o texto da carta, não encontrou apenas dor ou desespero. O que aparece, segundo ele, é estratégia. “Não foi alguém que simplesmente perdeu a cabeça. O que se percebe é a necessidade de ter a última palavra, de controlar a narrativa até o fim”, avalia.

Ponto chave do crime

Na leitura do psicoterapeuta, o uso da suposta traição como justificativa moral para o crime é um dos pontos centrais. “Quando um homem utiliza a traição da parceira para justificar o extermínio dos próprios filhos, ele não está defendendo sua dignidade. Está tratando pessoas como patrimônio. Se a família deixa de servir à sua imagem, ele a destrói”, afirma.

Para Calazans, essa dinâmica revela o que ele chama de posse disfarçada de amor. O sentimento não é de cuidado ou proteção, mas de controle. “O amor saudável protege, liberta e, no limite, deixa ir. O que vemos aqui é o ego ferido de alguém que não suporta perder o controle da narrativa e da própria imagem.”

“Anjos que vieram comigo

Outro aspecto destacado pelo especialista é o que ele define como sanitização do mal. Ao utilizar expressões que romantizam o ato, o autor da carta teria tentado suavizar a brutalidade da violência. “Chamar as vítimas de ‘anjos que vieram comigo’ é uma tentativa de higienizar a crueldade. Não há elevação espiritual em tirar vidas para punir quem ficou. Há cálculo emocional”, pontua.

Calazans também critica o que considera um falso equilíbrio moral presente em discursos que tentam colocar traição e violência no mesmo patamar. “Traição é uma falha relacional. Violência é crime. Quando se tenta equilibrar essas duas coisas na mesma balança, se valida a lógica de quem mata”, explica.

Calazans, que atua com terapia de casal e reconstrução emocional, reforça a importância de intervenção precoce | Foto: Reprodução/Rede social

Segundo ele, a tragédia familiar é fruto de sinais prévios de relacionamentos disfuncionais. Controle excessivo, uso do ‘respeito’ como forma de ameaça, tentativas de isolamento e dificuldade em aceitar limites são indícios de que o vínculo pode estar baseado em dominação, não em afeto.

“Relacionamentos fundamentados em controle não melhoram com o tempo. Eles se agravam. A autonomia emocional não é apenas um desejo individual, em muitos casos é uma estratégia de sobrevivência”, destaca.

Ao analisar a tragédia sob a ótica psicológica, Rodolfo Calazans frisa que a prevenção passa por consciência, limites claros e busca por ajuda antes que conflitos se transformem em violência irreversível, como esse em Itumbiara.


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