Cotidiano

Estrangeiros que deixaram zonas de conflito reinventam suas vidas

Redação DM

Publicado em 27 de dezembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

RIO — Nelly Camacho, de 53 anos, trabalhava como agricultora na província de Meta, uma das mais afetadas pelos conflitos entre as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc) e o governo. Pitchou Luambo, advogado congolês de 34 anos, ainda era menor de idade quando a guerra civil no seu país começou. Diretor de arte, o sírio Mohamad tinha seu próprio estúdio de animação quando sua noiva, engajada politicamente, foi sequestrada. Wessam Aekourdi lembra até a hora em que a guerra chegou em Damasco, em 2012: às 2h da madrugada. Assim como outro sírio, Rami Shurbaji, que fugiu para o Líbano deixando para trás a faculdade de História após perder um irmão.

Além das histórias de guerra em suas terras de origem, essas pessoas têm algo mais em comum: todos tentam reconstruir a vida no Brasil, onde vivem sob a condição de refugiados, partilhando um pouco da sua própria cultura.

— Trabalhava em uma fábrica de móveis e estudava História, mas larguei tudo para fugir depois que minha casa foi atingida e perdi meu irmão na guerra — conta Shurbaji, que, aos 24 anos foi sozinho, primeiramente, para o Líbano. — Mas lá a vida também é muito difícil para os sírios. Um amigo estava morando no Rio Grande do Sul, e resolvi ir para lá dois anos depois.

A guerra deixa marcas por toda a vida dessas pessoas.

— Cresci dentro da guerra. Em meu primeiro dia no Brasil, ouvi fogos de artifício e tremi muito. Inconscientemente tinha medo de uma nova guerra estar começando. Quando uma pessoa sai do seu país, ela não tem escolha. Eu não sabia onde ia parar. A ideia era salvar a minha vida, e vim parar aqui — conta Luambo, que desde agosto é professor de francês no curso de idiomas Abraço Cultural, em São Paulo. — Só na África, são 19 países que falam francês. E o curso acrescenta um conhecimento a mais sobre a geografia. Estamos ensinando um pouco a história da África, de colonização e geopolítica.

VELHAS RECEITAS E NOVOS AMIGOS

Formado apenas por professores refugiados, o Abraço Cultural está com inscrições abertas para a 4ª edição, em janeiro, e se prepara para aportar no Rio depois do carnaval. Um dos professores é Wessam Aekourdi, que fugiu da guerra civil na Síria. Depois de ver um anúncio do governo brasileiro, decidiu com a mulher que reconstruiriam a vida no país, apesar de só terem economias guardadas para três meses. Um ano depois, as aulas de inglês que ele ministra garantem à família melhores noites de sono.

Nos últimos quatro anos, o Brasil se tornou o principal destino de refugiados sírios na América Latina: são cerca de 2 mil atualmente — o maior grupo entre os aproximadamente 7.800 refugiados que vivem no país, de 81 nacionalidades diferentes.

— Estava num curso de português quando conheci pessoas que trabalhavam neste projeto. Elas me apresentaram a proposta, e pensei: “por que não?” — conta Aekourdi, que ainda não consegue falar nossa língua. — Meu filho já fala inglês, árabe e português.

O dia em que a guerra síria chegou à sua casa, em Damasco, era um como outro qualquer, relembra ele, que até então ganhava a vida trabalhando com tecnologia. A mulher estava grávida de seis meses do primeiro filho quando o casal ouviu o barulho de tiros e bombas. Pularam da cama, pegaram o que estavam ao alcance dos dois e partiram para a Jordânia, onde o pequeno Ryan, hoje com 3 anos, nasceu. Até agora Aekourdi não sabe o que aconteceu com seu antigo lar:

— Metade de nós não tem mais esperanças de que a guerra acabará. E a outra metade acha que levará pelo menos cinco anos. Vivemos como num pesadelo. Até queria que fosse, mas é real.

Inaugurado em setembro, com o apoio do Instituto de Reintegração do Refugiado, o curso conta com 150 alunos e seis professores, que ministram aulas de inglês, árabe, francês e espanhol, num pequeno prédio do bairro de Perdizes, em São Paulo. Os 25 voluntários que tocam a iniciativa já se preparam para abrir aulas de português para refugiados e levar os cursos a empresas e outros estados. Em 2016, o projeto deve chegar ao Rio.

— Dia desses um professor árabe estava ensinando a cozinhar tabule em inglês. Então, o projeto é isso: a troca — explica a coordenadora pedagógica do curso de Inglês, Blandiny Ferrari.

No Rio, a feira comunitária Junta Local, que acontece semanalmente, abriu espaço para barraquinhas de refugiados em outubro. A ideia é similar: reforçar o papel de valores tradicionais, como a comida, como forma de aproximar culturas e dar uma nova chance a pessoas que perderam tudo.

— Abriremos os braços para que refugiados participem das nossas feiras como produtores. A ideia é que pelo menos uma vez por mês tenhamos duas ou três barracas onde eles possam vender comida autêntica e trazer de volta seu passado. Além disso, eles têm a possibilidade de se inserir e interagir — explica Luciara Franco, uma das idealizadoras do projeto. — Percebemos na primeira experiência um ambiente em que eles se sentiram acolhidos, houve essa troca. Já temos muitos interessados. Daqui a alguns meses queremos realizar uma feira só para eles.

PRECONCEITO AINDA ASSOMBRA

A colombiana Nelly, uma das primeiras a participar da Junta, tem vendido na feira todas suas arepas (prato típico colombiano, feito de milho). Os sírios Rami, Ahman e Mohamed levam pão sírio e muitas outras iguarias.

Rami Shurbaji, que, depois do Rio Grande do Sul, hoje mora em acomodações para estrangeiros na Igreja da Matriz, em Botafogo, sobrevive vendendo esfirras, quibes e pão sírio. Ele foi um dos primeiros a participar da Junta Local.

— A comida árabe é muito conhecida no Brasil, vendemos tudo — conta o refugiado. — Sinto falta da família, que continua na Síria, da minha cidade, dos meus amigos. Mas não penso em voltar. Acho que a guerra não vai acabar.

Nelly conta que a receptividade foi muito positiva. No Brasil há quatro anos, ela trouxe o marido, quatro filhos, a nora e dois netos da Colômbia.

— Preparamos tudo de maneira muito artesanal, cozinhamos em casa. E as pessoas foram bem acolhedoras, estavam muito curiosas para conhecer nossa comida — explica ela, que trabalhou no Brasil como recepcionista bilíngue assim que chegou. — Apesar das dificuldades iniciais de adaptação, recebi muita ajuda, com assessoramento jurídico e psicológico.

Nem todos, no entanto, tiveram a sorte de Nelly. O advogado congolês Pitchou Luambo, por exemplo, sofreu preconceito por falar pouco o idioma.

— É difícil se adaptar, o preconceito e discriminação ainda são bem fortes. Uma vez, no banco, me pediram meu passaporte. Como eu vou ter um passaporte se sou refugiado? O desconhecimento das pessoas me afeta constantemente. É uma luta diária. Como se falam aqui: todo dia é preciso matar um leão — afirma Luambo. — Fazemos isso pela sobrevivência, mas sinto falta de ser advogado. Quero vivenciar minha profissão aqui no Brasil.

Tocando uma empresa de turismo há pouco mais de um ano e aluno do Abraço Cultural, o brasileiro Aran Vitalo, de 28 anos, reconhece a importância da troca de experiências.

— O que mais acho legal é ele me contar sua história e querer saber a minha — destaca Vitalo, que já pensa em aprender árabe.

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