Cotidiano

Funcionários denunciam falhas no vale-transporte e problemas estruturais no Assaí

Aline Drumond - Estágio DM

Publicado em 26 de março de 2026 às 16:32 | Atualizado há 4 meses

Funcionários relatam dificuldades com vale transporte e apontam problemas estruturais em unidade de Goiânia | Foto: Divulgação
Funcionários relatam dificuldades com vale transporte e apontam problemas estruturais em unidade de Goiânia | Foto: Divulgação

Funcionários da unidade do Assaí Atacadista localizada na Avenida Portugal, no Setor Marista, em Goiânia, procuraram o Diário da Manhã para denunciar supostos problemas no pagamento do vale-transporte. Segundo os relatos, mesmo com o desconto mensal de 6% previsto em lei sendo aplicado nos contracheques, os créditos não estariam sendo depositados de forma regular e suficiente para garantir o deslocamento ao trabalho.

Por medo de retaliações e até demissão, os trabalhadores pediram para não ter os nomes divulgados.

“Descontam certinho no salário, mas o dinheiro não cai completo no cartão. A gente acaba tendo que tirar do próprio bolso para não faltar serviço”, relatou um funcionário.

Outro trabalhador afirmou que a situação tem causado dificuldades financeiras e insegurança sobre como chegar ao trabalho.

“Esse mês mesmo tive que colocar cerca de R$ 70 do meu dinheiro para conseguir trabalhar. Mês passado depositaram R$ 225, mas descontaram R$ 115 do meu pagamento. Não fecha a conta”, disse.

Conversa entre funcionários expõe atraso na recarga do vale-transporte e gastos do próprio bolso para garantir o deslocamento ao trabalho | Foto: Divulgação

Segundo os relatos, o problema se intensifica em períodos de chuva, feriados e finais de semana, quando trabalhadores recorrem a carros por aplicativo devido à demora do transporte público. Nesses casos, deixam de utilizar parte das passagens, gerando saldo no cartão. Esse valor, porém, é considerado pela empresa no mês seguinte, reduzindo a recarga, mesmo após gastos extras feitos pelos próprios funcionários para conseguir trabalhar.

“A gente fica sem saber o que fazer. Como trabalha sem transporte? Tem dia que a preocupação começa antes mesmo do expediente”, afirmou outro funcionário.

Questionamentos sobre cálculo do benefício

Além da questão do transporte, trabalhadores também relataram problemas estruturais internos, como interdições frequentes de banheiros para manutenção e falhas em bebedouros.

Bebedouro sujo, alvo de reclamações, é usado por trabalhadores do hipermercado para beber água | Foto: Divulgação

Um dos denunciantes afirmou que chegou a procurar orientação junto a órgãos trabalhistas, mas encontrou dificuldades.

“Até para denunciar fica difícil porque pedem atendimento presencial e sem o vale-transporte fica complicado até ir atrás dos nossos direitos”, disse.

De acordo com os relatos recebidos pela reportagem, a situação não seria isolada e também afetaria funcionários de outras unidades da rede.

Trabalhadores também questionam a forma como a empresa estaria calculando os créditos mensais do vale-transporte. Segundo eles, quando sobra saldo no cartão de um mês para outro, a empresa não deposita o valor integral do benefício no mês seguinte, apenas a diferença necessária para completar o total estimado de passagens.

“A empresa só deposita a quantidade de passes que faltam para inteirar o valor do mês. Quando sobra recarga, eles somam o valor que já está na carteira e colocam só a diferença”, relatou um funcionário.

A reportagem também teve acesso a registros do aplicativo de transporte que indicam recargas abaixo da necessidade mensal e ausência de previsão de novos créditos, conforme os relatos apresentados.

Imagem detalha o cálculo de “Gestão de Saldo Parcial”. No exemplo, embora o pedido de compra total seja de R$ 223,60, o valor efetivamente creditado foi de apenas R$ 47,30, devido ao saldo remanescente no cartão | Foto: Divulgação

Os trabalhadores também questionam o fato de o desconto de 6% continuar sendo aplicado integralmente todos os meses.

“Devido ao saldo na carteira, a empresa só repõe o que falta para fechar o mês, mas cobra os 6% todos os meses”, afirmou outro trabalhador.

Captura de tela mostra que, em fevereiro, funcionários receberam apenas R$ 47,30 de vale-transporte, contra R$ 206,40 em janeiro, confirmando denúncia de recarga parcial mesmo com desconto de 6% no salário | Foto: Divulgação

Prática incomum de empresas

Para esclarecer a legalidade dessa prática, a reportagem ouviu o advogado trabalhista Lucas Aguiar. Segundo ele, a legislação permite a compensação de saldo, desde que o trabalhador tenha crédito suficiente para se deslocar ao trabalho e que o desconto não ultrapasse o limite legal.

“A principal finalidade do vale-transporte é custear o deslocamento do trabalhador entre a residência e o trabalho. Se ele não utilizou o valor integral em um mês, a empresa pode apenas complementar no mês seguinte”, explicou.

O especialista destacou que o desconto máximo permitido é de 6% do salário, independentemente do valor recarregado.

“O desconto de 6% é sobre o salário do trabalhador e esse é o limite legal. O que a empresa não pode é descontar além disso nem deixar o trabalhador sem condições de deslocamento”, afirmou.

Segundo ele, esse tipo de controle não é comum, mas pode ser adotado por empresas de grande porte, desde que não prejudique o trabalhador.

Relatos de constrangimento no ambiente de trabalho

Segundo os relatos, a situação já teria sido levada ao conhecimento da empresa internamente. “Sim, a gente já conversou com a empresa”, confirmou um dos denunciantes.

Outro relato descreve uma situação envolvendo acesso a sanitários. Um funcionário afirmou que, em um dia específico, não conseguiu utilizar o banheiro durante o expediente devido à manutenção e à restrição de uso do sanitário destinado aos clientes. “Ontem tive que fazer xixi na roupa porque o banheiro dos funcionários estava em manutenção e a gente não podia usar o banheiro dos clientes”, relatou.

O trabalhador, que é pessoa com deficiência, afirmou ainda que sofreu constrangimento após o episódio. Os denunciantes afirmam que os problemas com transporte e estrutura impactam diretamente as condições de trabalho.

A reportagem do Diário da Manhã procurou o Assaí Atacadista para comentar as denúncias. A empresa encaminhou a seguinte nota de posicionamento.

Nota de posicionamento

Em relação às informações encaminhadas, esclarecemos que:

Sobre o vale-transporte, seguimos as diretrizes previstas na Lei nº 7.418/85, que dispõe sobre o pagamento deste recurso aos(às) colaboradores(as), e regulamenta que os valores transferidos devem observar a necessidade de deslocamentos no percurso residência-trabalho e vice-versa.

Os bebedouros da unidade passam por verificação periódica quanto às suas condições de higienização. Adicionalmente, a equipe responsável pela manutenção foi reorientada para reforçar esse acompanhamento.

Esclarecemos ainda que existem banheiros destinados exclusivamente para os colaboradores(as) e que a Cia orienta para que os banheiros de clientes sejam reservados aos clientes da unidade.

Reforçamos também que mantemos um Canal de Ética para o registro de quaisquer ocorrências em um espaço seguro de escuta, com confidencialidade, sigilo e atendimento 24h.


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