Cotidiano

Golpe personalizado

Redação DM

Publicado em 19 de novembro de 2015 às 21:47 | Atualizado há 1 ano

No dia 8 de julho desse ano, o Diário da Manhã publicou uma matéria a respeito de golpes em compra e venda de veículos que teriam sido aplicados pela empresa Personalisé Motors. Na matéria, o diretor de assuntos institucionais da Assembleia Legislativa e primeiro suplente de deputado estadual, Frederico Fonseca Nascimento relatou o transtorno que sofreu depois de vender uma caminhonete para a garagem, que, após revender o veículo para um terceiro de boa fé, não repassou o dinheiro para ele, sendo que seu prejuízo chegou a 60 mil reais.

Na época, ele havia entrado na justiça contra a empresa. Um acordo judicial foi firmado, porém, não foi cumprido pela empresa. Além disso, mesmo após ter vendido o carro, os documentos ainda estavam em seu nome e o Documento Único de Transferência (Dut) só seria entregue após a quitação dos débitos por parte da empresa Personalisé, o que até então não havia acontecido.

De julho para cá a situação de Frederico Fonseca não mudou. Assim, novamente ele procurou o DM, de modo a efetivar nova denúncia contra a empresa e os responsáveis por ela: Leonardo Rios Monteiro e Ricardo Alexandre Teles da Cunha. Frederico agora tem em mãos uma decisão judicial que determina que a empresa efetue o pagamento de 73 mil reais. “Eles agora têm duas saídas: ou pagam o que estão me devendo, ou vão pra cadeia, porque não tem mais o que discutir, não se discute com uma decisão judicial”, declara.

Frederico diz ainda: “Não vou desistir. Asim como eu existem muitas outras vítimas. Se todos fossem atrás dos seus direitos, esses homens já estariam presos”.

Outras vítimas

Procuradas, outras pessoas confirmaram terem sido vítimas da mesma empresa e dos mesmos homens, em negócios muito semelhantes ao que Frederico firmou com a empresa.

Edson José Reis Júnior, consultor, conta que vendeu um carro para a Personalissé por 75 mil. Recebeu 35 mil a vista e os 40 mil restantes seriam financiados. “O comprador passou o dinheiro para o garageiro, mas o garageiro não repassou para mim. Agora eu estou com os documentos do veículo, mas sem  veículo e sem o dinheiro”, explica Edson.

Vitor Araújo Dias, empresário, relata quem também foi vítima da garagem. Segundo ele, sofreu dois golpes: “o primeiro foi um caminhão Ford Cargo 815 que eu comprei, parcelei junto a eles, paguei e não recebi os documentos do veículo até hoje. O outro foi a venda de uma Land Rover que eu fiz, eles me pagaram metade do valor e depois não me pagaram mais. Eles queriam me passar um outro carro para tentar quitar a dívida, mas ele não tinha documentos”, relata Vitor.

Vitor entrou com um processo civil e deu queixa na polícia, mas se mostra descrente em relação ao desenrolar do caso: “Eles alegam que vão pagar, vão pagar, e ficam ganhando tempo. E a justiça é morosa, e então eles acabam ficando soltos”.

Segundo Vitor, a somatória dos valores que a garagem deve a ele dá 38 mil reais, sem juros ou correção monetária. “Mas se for colocar tudo o que eles estão me devendo, devo acrescentar os 85 mil reais do caminhão que eu comprei e não posso usar, pois além de eu não estar com os documentos, eles estão atrasados. Dá um total de 123 mil reais, que está retido com eles. Eu tenho um bem, mas não posso vender, não posso pagar o documento, não posso fazer nada com ele. Nem andar com ele eu posso”, desabafa Vitor.

Uma outra vítima, que não quis ser identificada por motivos de segurança, relata uma história muito parecida com as anteriores. Túlio (nome fictício) deixou um carro para vender em consignação na loja da Personalisé. Dias depois recebeu uma ligação de Leonardo, fazendo uma proposta. Eles combinaram o valor e o parcelamento de 20, 40 e 60 dias. Acontece que ele não recebeu o valor completo. “Faltam 8600 reais desde maio, sendo que as anteriores também foram pagas fora do combinado. Hoje eu desconheço o paradeiro do veículo, mas ele continua no meu nome. Ele está com a documentação atrasada e tem multas contraídas pela pessoa que adquiriu o veículo”, explica Túlio.

Túlio relata que o Leonardo não atende o telefone e que a loja da Personalisé foi fechada há cerca de 15 dias.

Carlos (nome fictício), mais uma vítima que preferiu não se identificar, também afirma ter sofrido um golpe da garagem. Ele comprou um carro, deu o seu antigo de entrada no valor de 54 mil reais, e transferiu 36 mil para a conta de Ricardo. O documento do carro que ele comprou nunca chegou e o seu antigo carro foi passado para um terceiro.

Ameaça

Uma das vítimas procurada pela redação aceitou falar sobre o assunto, mas não quis ser identificada, por alegar ter sofrido ameaças. Paulo (nome fictício), também afirma ter sofrido um golpe da mesma garagem. Em 2014, ele comprou um carro e pagou a vista o valor de 60 mil reais. Ele afirma ter comprado o carro diretamente de Leonardo. Leonardo havia pedido um prazo para baixar o gravame para entregar o documento no nome de Paulo, o que nunca aconteceu.

Acontece que Paulo comprou o carro como quitado, sendo que na realidade, ele estava financiado. “O Leonardo escondeu de mim que o carro era financiado”, explica. O antigo dono havia combinado com a empresa que após a venda do veículo, ele seria quitado junto ao banco, o que nunca aconteceu, mesmo Paulo tendo pago a vista o valor total do carro. Agora o antigo dono do veículo está com o nome sujo por dever 20 mil reais para o banco. “Eu vou ter que acabar pagando esses 20 mil para o banco pra não perder 60 mil que paguei no carro”, desabafa Paulo. E continua: “Todos fizeram negócio com o Leonardo, inclusive ele mente que passou o dinheiro pra conta do Ricardo, mas quando pedimos comprovantes ele nunca entrega. Foi ele quem roubou o nosso dinheiro”.

Paulo foi vezes seguidas na loja da Personalisé, localizada na 1º Radial, para tentar resolver o seu problema, mas, segundo ele, na maioria das vezes Leonardo se escondia e mandava dizer que não estava. “Todos os parentes dele operaram e ficaram doentes, impressionante”, desabafa Paulo.

Quando finalmente o encontrou, os dois acabaram discutindo e, mais tarde, Leonardo teria feito ameaças via whatsapp para Paulo, dizendo que sabia onde ele e seus familiares moravam. Isso gerou transtornos além de materiais, psicológicos e emocionais também.

“É revoltante saber que ele está solto por aí, e viajando para a praia. É só ver a foto do perfil dele nas redes sociais. Na praia. Com vários processos nas costas, mas não está nem aí”, declara Paulo.

O delegado Anderson Pimentel, da DECON, procurado pela redação, confirmou a existência de três inquéritos contra a empresa, o primeiro com 1 vítima, o segundo com 6, o terceiro com mais 2 vítimas. Relata também que outras 5 vítimas apareceram recentemente. O total de vítimas que procuraram a delegacia é de 14, sendo que ainda existe a possibilidade de existirem mais vítimas.

Anderson explica que os inquéritos foram encaminhados para o judiciário com o pedido de prisão preventiva, que ainda não foi decretada.

O inquérito com 5 vítimas está em andamento. Três foram ouvidas, duas anexadas. “Vamos ouvi-las, juntar a documentação dos responsáveis pela garagem, sendo que Ricardo já moveu ação saindo da sociedade”, explica o delegado.

Anderson explica ainda que um crime de estelionato tem pena de até 5 anos de reclusão, mas se houver caracterização de continuidade, a pena pode aumentar. Além disso, um dos acuados, Ricardo, possui uma imobiliária em Anápolis, com o mesmo nome da garagem, e que  as vítimas podem pedir ao juiz que se estenda a penhora ao patrimônio individual dos estelionatários.

Defesa

Procurado,o advogado de Leonardo, Fábio Fayad, afirmou que o “inquérito policial foi instaurado somente em desfavor ao Sr. Ricardo Alexandre Teles Cunha, tendo em vista que todos os elementos de autoria e materialidade dos fatos aduzidos na Denúncia evidenciam exclusivo envolvimento daquele e nenhum envolvimento do Sr. Leonardo”.

O advogado afirma que Ricardo é o único proprietário do empreendimento, sendo que Leonardo funcionava como “mero gerente” da empresa, sendo a atuação dele no quadro societário apenas virtual.

“Leonardo detinha funções definidas como gerente comercial , avaliando carros, atendendo clientes e organizando o ponto comercial para melhor consecução das atividades”, explica Fábio, e continua: “Evidencia- se o teor do contrato de compra e venda celebrado entre a Personnalisé Motors e o Sr. Frederico, juntado aos autos, assinado única e exclusivamente pelo Sr. Ricardo , bem como o cheque pessoal do mesmo dado para pagamento de parte do referido negócio”.

Fábio afirma ainda que todos os cheques e transações bancárias sempre se davam em nome de Ricardo, e que ele “abandonou a empresa à deriva mesmo sendo o administrador exclusivo da pessoa jurídica”.

Assim, de acordo com a defesa, “a participação de Leonardo no conchavo em tela se deu em razão de sua subordinação em relação a Ricardo, a mando e sob orientação deste”.  Fábio afirma que não há materialidade delitiva em relação ao Leonardo, “tampouco autoria, patente, destarte, a ausência de justa causa para oferecimento de denúncia, logo, esta deverá ser rejeitada em relação ao Leonardo”.

Sobre as ameaças de morte que teriam sido feitas por Leonardo, o advogado afirma que diferente do que foi afirmado, Leonardo é quem vem sendo perseguido e ameaçado por algumas pessoas que se sentiram lesionadas por negociações que,  na realidade, foram feitas por Ricardo.

Ricardo Alexandre também foi procurado pela redação. Ele afirma que desde fevereiro não frequenta a garagem pois entrou com uma ação judicial para desfazer a sociedade com Leonardo, que, segundo ele, era sócio e proprietário também.

Ricardo esclarece que apesar de estar oficialmente fora do negócio, está resolvendo os problemas adquiridos em sua gerência. “Falta o senhor Frederico apresentar os boletos para quitação de seu veículo, pois sem os boletos eu não posso quitar. Após quitar esse carro, os documentos dos veículos de outros três clientes que se sentiram lesionados irão ser liberados. Se eu quitar esse veículo acaba toda a confusão”, explica.

Ricardo  afirma que como não frequenta a empresa desde fevereiro, não pode responder por negócios feitos diretamente com Leonardo após esse mês, visto que desfez a sociedade e deixou a garagem sob a gerência única e exclusiva de Leonardo.

 

 

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