Infância em risco pela obesidade
Redação DM
Publicado em 14 de agosto de 2015 às 01:17 | Atualizado há 1 ano- OMS alerta sobre o crescimento da obesidade infantil e prevê que, em dez anos, Brasil pode abrigar 75 milhões de crianças obesas
- Má alimentação infantil e inúmeras doenças podem ser provocadas pela obesidade. Iniciativas individuais e de comunidades podem contribuir para que o quadro seja revertido
As crianças, seduzidas pelas cores, sabores de fruta e pelos seus personagens favoritos estampados nos rótulos dos produtos, consomem a cada dia mais os alimentos industrializados e os fast foods.
Balas, gomas, sucos de caixinha, salgadinhos de milho, biscoitos recheados, dentre muitos outros itens que se multiplicam nas prateleiras dos supermercados (quase sempre na altura dos olhos dos pequenos,) fazem parte da realidade das crianças brasileiras contemporâneas.
Esse consumo crescente de alimentos industrializados pode trazer consequências nada positivas em um futuro próximo. É o que prevê a OMS (Organização Mundial de Saúde), que em uma pesquisa recente previu que em dez anos cerca de 75 milhões de crianças brasileiras serão obesas.
O alerta da OMS, entretanto, não é novidade, pois está sendo feito já há tempos. No Brasil, as autoridades têm dado o mesmo alerta. Em maio desse ano, por exemplo, na Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, defendeu a intensificação dos esforços no combate à obesidade infantil por meio da agenda global.
Tantos esforços salientam a importância de se dar atenção ao tema, pois estudos científicos comprovam que a obesidade infantil pode acarretar um grande número de doenças, como a hipertensão arterial, doença cardíaca, diabetes tipo 2, além de alguns tipos de câncer.
Maria Ivone Oliveira Pinto Vilela, pediatra atuante em Goiânia, em entrevista para o DM afirma que “a obesidade infantil está aumentando em função da mudança do hábito alimentar e do estilo de vida das crianças. O sedentarismo influencia, pois hoje em dia as crianças têm muito acesso à internet, computador, celulares e videogames, o que acaba desestimulando a prática de atividades físicas”.
Para a pediatra, além das mudanças de estilo de vida, os hábitos alimentares estão se tornando maléficos para a saúde das crianças. “A alimentação de produtos industrializados tem crescido muito, o que também contribui para que a obesidade aumente nas crianças e jovens. O Brasil está seguindo os passos da América do Norte, onde a obesidade é considerada uma epidemia”.
É importante que a sociedade se empenhe em encontrar meios de combater o crescente número de crianças com sobrepeso, de modo a evitar a previsão feita pela OMS. Ações individuais, das escolas e da comunidade de introdução à alimentação natural e menos industrializada podem ser adotadas e colocadas em prática.
Sobre isso Maria Ivone elucida: “Acredito que o combate à obesidade infantil se dá por meio de um conjunto de ações preventivas. É muito importante o apoio de profissionais (médicos, nutricionistas, agentes de saúde) que orientem desde o aleitamento materno, até a época do desmame e com a introdução dos alimentos complementares”.
Os lugares nos quais as crianças passam a maior parte do dia, como a escola, são, para Maria Ivone, propícios para uma mudança de atitude em relação à alimentação. “As escolas têm um papel fundamental. As cantinas normalmente oferecem muitos alimentos industrializados e que fazem mal à saúde das crianças. Isso deve ser mudado. Além disso, a mídia também tem um papel importante no combate à obesidade infantil, pois pode incentivar a adoção de hábitos alimentares saudáveis”, defende.
Muitos pais reclamam que seus filhos se recusam a comer determinados alimentos, como verduras e legumes, o que acaba se tornando um problema na introdução de hábitos alimentares saudáveis. Para esses pais Maria Ivone dá a dica: “Acredito que o mais importante é o exemplo da família, pois os filhos imitam hábitos dos pais. Se os pais têm uma alimentação saudável no cotidiano, as crianças vão percebendo o que aqueles alimentos são saudáveis. Além disso, é importante evitar alimentos não saudáveis dentro de casa e incentivar desde pequenos as crianças a se alimentarem bem”.
Palavra de mãe: vale a pena comer bem!

É verdade que a alimentação da grande maioria das crianças brasileiras é considerada inadequada por médicos e nutricionistas, pois são baseadas na alta ingestão de açúcar, refinados e gorduras. Esses alimentos, de sabor viciante, muitas vezes, fazem com que a criança rejeite alimentos considerados saudáveis.
Entretanto, alguns pais e mães vêm sentindo a necessidade de oferecer alimentação saudável para seus filhos, não só para livrá-los da obesidade, mas também para incentivar que a criança adquira um estilo de vida mais saudável. É o caso de Juliana Abud, de Sobradinho (DF), que passou a melhorar a própria alimentação e a estudar gastronomia em decorrência do nascimento de sua filha, Maia.
Juliana, em entrevista ao DM, conta: “Na gestação decidi fazer acompanhamento com uma nutricionista que me alertou sobre como é importante a educação alimentar e que isso não significava deixar de comer tudo que é gostoso, mas que existem muitos alimento gostosos e saudáveis, e pode acreditar, existe! Como já havia mudado meu hábitos alimentares, decidi que os da minha filha seriam saudáveis”.
A partir da consciência adquirida na gravidez, Juliana decidiu estudar gastronomia para poder trabalhar em casa e para estudar de modo mais aprofundado a respeito da alimentação. “A introdução alimentar da Maia foi vegetariana, com todas as substituições de proteínas necessárias, e leite materno”. E continua: “para ser saudável não precisa ser vegetariano, apenas adequar e fornecer os alimentos corretos. Maia come muita fruta, alimentos integrais e livre de transgênicos (quando possível). Resolvi cuidar da saúde da minha filha com alimentos e não com remédios”.
Juliana conta quais alimentos são proibidos na casa dela: “O que é proibido são os refinados como farinha de trigo, açúcar, isso nem entra em nossa casa! Minha filha nunca comeu chocolate, faço a substituição por alfarroba, que assemelha o gosto e não tem lactose, açúcar e glúten. Priorizo alimentos sem açúcar, mas o glúten e a lactose não tirei 100% , até porque posso gerar uma intolerância nela”.
Apesar dos inúmeros motivos para se adquirir uma alimentação mais natural e saudável, muitas vezes o termo “alimentação saudável” se torna sinônimo de “comida sem graça”. Sobre isso Juliana discorre: “Canso de ouvir a frase: ‘Coitada da sua filha, não vai saber o que é bom na vida!’, e sempre que ouço penso: é sério isso? o bom da vida e dar pra minha filha tudo que prejudica seu corpo e sua saúde só porque é doce, ou gorduroso?”. E garante: “Maia não sente falta de nada disso, nunca nem comeu, nem sabe o gosto”.
Observa-se, em geral, grande dificuldade dos pais em introduzir alimentos saudáveis em crianças já acostumadas com alimentação desregrada. Juliana dá uma dica de como melhorar a alimentação dessas crianças: “a melhor forma de combater a obesidade infantil pra mim é mudança de habito, é querer participar da alimentação do filho, é lutar para que as escolas ofereçam alimentos saudáveis, é optar pelo orgânico e pelo integral”.
Cmeis de Goiânia adotam cardápio saudável

A preocupação com a alimentação das crianças no ambiente escolar tem sido alvo de interesse de governantes e cidadãos, o que resulta em diversos projetos para melhorar a comida oferecida nas escolas e creches.
Ano passado, em Goiânia, conforme dados retirados do site da prefeitura, foi aderida a estratégia do governo federal para fortificação da alimentação de crianças, com idade entre zero e 3 anos de idade, pelo Programa Saúde na Escola (PSE). O NutriSUS, como foi batizada a ação, foi aplicado nos Centros Municipais de Educação Infantil da Capital (Cmeis).
Ações do governo, entretanto, não impedem intervenções individuais e da comunidade no cardápio das escolas e Cmeis.
Silmara Dalago, professora e coordenadora pedagógica de dois Cmeis da região norte de Goiânia, conta sua experiência em um projeto de melhoria alimentar no qual se empenhou em um dos Cmeis que trabalha: “Recentemente trabalhei em um projeto para incentivar crianças com faixa etária de dois anos a comerem salada. A maioria das crianças no final do semestre estavam aceitando com mais facilidade a saladinha”.
Em casos como o de Silmara, toda a escola precisa se mobilizar para que o projeto funcione. Diferentes áreas devem se juntar em prol da alimentação saudável, que foi o que aconteceu no Cmei no qual ela trabalha: “as profissionais da cozinha ajudaram neste projeto, trabalhávamos um tipo de verdura, legume ou fruta por semana, e elas sempre procuravam incluir no cardápio o que estávamos explorando”, conta.
O saldo do projeto, para Silmara, foi muito positivo, comprovando que basta a iniciativa de introduzir alimentos saudáveis na dieta das crianças, juntamente com as explicações necessárias sobre o porquê de comer tais alimentos.
A professora discorre a respeito de uma atividade lúdica desenvolvida em um dos Cmeis em que trabalha envolvendo a alimentação: “Em uma das atividades do projeto, nós, professores, interpretamos chefs de cozinha para incentivar o consumo de salada no sanduíche. As crianças montaram o seu próprio ‘sandubão’ e todos incluíram alface e tomate”.
O resultado de uma ação como essa, quando bem planejada, dificilmente será negativo, conforme conta a professora: “o incentivo foi fundamental para a aceitação dos alimentos. Sentamos com as crianças, orientamos na mastigação e degustação dos alimentos. A influência do grupo também foi positiva, é comum ver as crianças se espelhando nas outras, e é comum também vê-las cuidando uma das outras, muitas vezes escutamos conversando entre si explicando por que comer a salada, o que é mais que gratificante”.
Documentário brasileiro aborda obesidade infantil

O documentário “Muito além do peso” (2013), idealizado e produzido pela diretora e roteirista brasileira Estela Renner e sua equipe, aborda muitas das questões que envolvem o cenário alimentar das crianças brasileiras, como o fato de que 56% dos bebês com menos de um ano de idade consomem refrigerante regularmente no Brasil.
O documentário aborda as consequências do sobrepeso infantil, como a diabetes e a hipertensão, mostrando a realidade nada fácil de crianças que possuem essas doenças, além de alertar para a alta ingestão de açúcar pelas crianças, os maus hábitos alimentares, a desinformação dos pais, a influência negativa das propagandas, dentre outros aspectos.