Investigado na Lava-Jato diz que Aécio Neves recebeu R$ 300 mil da UTC
Redação DM
Publicado em 30 de dezembro de 2015 às 05:55 | Atualizado há 11 anosBRASÍLIA — Depois de firmar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF), Carlos Alexandre de Souza Rocha, um dos entregadores de dinheiro do doleiro Alberto Youssef, disse que participou de uma entrega de R$ 300 mil da empreiteira UTC que tinha como destinatário final o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Carlos Alexandre, conhecido como Ceará, fez a acusação em depoimento prestado na sede da Procuradoria-Geral da República (PGR) no dia 1º de julho deste ano. O acordo de delação de Ceará foi homologado pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Caberá agora ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, decidir se pede ou não abertura de inquérito para aprofundar a apuração sobre o suposto repasse a Aécio. As declarações do entregador poderão colocar em xeque parte da delação premiada de Ricardo Pessoa, dono da UTC. Apontado como um dos chefes do cartel de empreiteiras envolvidas em fraudes na Petrobras, Pessoa reconheceu contribuições para campanhas e pagamentos via caixa dois para vários políticos, mas não fez qualquer referência ao caso descrito por Ceará.
Em depoimento prestado ao procurador Rodrigo Telles de Souza e ao delegado Milton Fornazari, Ceará disse que, a pedido de Youssef, fez quatro entregas de pacotes de dinheiro no escritório da UTC no Rio de Janeiro ao longo de 2013. As remessas eram entregues diretamente a Antônio Carlos D’Agosto Miranda, um dos diretores da UTC. Uma das entregas, no valor de R$ 300 mil, no segundo semestre de 2013, teria como destinatário o ex-candidato do PSDB à presidência Aécio Neves.
Depois de fazer a entrega, Ceará quis saber o porquê da ansiedade do diretor em relação a um fato que parecia fazer parte da rotina da empresa. “Por que essa agonia com esse dinheiro”, perguntou Ceará. “Ainda bem que esse dinheiro chegou, porque eu não aguentava mais a pessoa me cobrando tanto”, respondeu Miranda. “Quem é essa pessoa ?”, perguntou o entregador. “Aécio Neves”, respondeu o diretor da UTC.
Ceará achou estranho o repasse de dinheiro para um senador da oposição. Miranda respondeu : “Ceará, aqui a gente dá dinheiro para todo mundo: situação, oposição, pessoal de cima do muro, pessoal do meio campo, todo mundo”. A conversa se estendeu um pouco mais. O entregador quis saber por que o dinheiro seria entregue no Rio e não em Minas Gerais, onde Aécio tem domicílio eleitoral. “Aécio Neves tem um apartamento aqui. Ele vive muito no Rio de Janeiro”, respondeu Miranda.
AÉCIO: CITAÇÃO ‘ABSURDA’
O entregador disse ainda que Youssef tinha uma conta-corrente com a UTC. A conta seria operada por Walmir Pinheiro, braço direito de Ricardo Pessoa. Pinheiro também fez acordo de delação premiada para contar tudo o que sabe sobre casos de corrupção envolvendo a UTC. Em nota divulgada nesta terça-feira por sua assessoria de imprensa, Aécio classificou de “absurda e irresponsável” a citação ao nome dele.
“A falsidade da acusação pode ser constatada também pela total ausência de lógica: o senador não exerce influência nas empresas do governo federal com as quais a empresa atuava e não era sequer candidato à época mencionada. Além disso, a UTC não executou nenhuma obra vinculada ao governo de Minas Gerais no período em que o senador governou o estado. O senador não conhece a pessoa mencionada e, de todas as eleições que participou, a única campanha que recebeu doação da UTC foi a de 2014, através do comitê financeiro do PSDB”, diz o texto.
Para o senador, “trata-se de mais uma falsa denúncia com o claro objetivo de tentar constranger o PSDB, confundir a opinião pública e desviar o foco das investigações, como ocorreu no caso do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG)”. O senador e também ex-governador de Minas foi apontado como destinatário de uma das remessas de dinheiro de Youssef. Depois de investigação inicial, Rodrigo Janot sugeriu o arquivamento do inquérito, por falta de provas contra Anastasia.