Marco Zero da aviação em Goiânia
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 22:19 | Atualizado há 1 anoSituado a noroeste da Praça Cívica, marco zero da capital, o Setor Aeroporto tem sua urbanização iniciada ainda na década de 1930, com as primeiras pistas de pouso de aeronaves de Goiânia. O local ainda guarda memórias de um Córrego Capim Puba despoluído, que servia como área de lazer para crianças e como fonte de sustento para lavadeiras. Hoje, o local é completamente urbanizado e um polo de comércio e serviços, praticamente incorporado ao centro da cidade.
Através do artigo científico ‘Tessitura das cidades: história e memória de bairros’, de Adriana Mara Vaz de Oliveira, publicado em 2010, podemos ter uma ideia mais ampla de como formou-se o Setor Aeroporto. Ao redor das pistas de pouso criadas em 1937 por Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno no local onde hoje se encontra a Praça do Avião, formou-se a Vila Cristo Redentor, incorporada ao Setor Aeroporto na década de 1950 com a mudança do aeroporto para o Setor Santa Genoveva.
A ocupação habitacional dos arredores do primeiro aeroporto tem o mérito da Primeira Dama matriz da capital, Gercina Borges, segundo o artigo de Adriana Mara Vaz. “No processo de ocupação das proximidades do aeroporto por habitações, destaca-se a ação do próprio estado por meio de Gercina Borges, esposa de Pedro Ludovico Teixeira que, para abrigar migrantes vindos para a nova capital de Goiás em busca de uma vida melhor, ofereceu-lhes moradia com a construção da vila acima mencionada”.
Capim Puba
No artigo citado acima, narrativas de um morador identificado apenas como ‘G’ recriam o cenário dos primórdios da urbanização no local que abriga hoje o Setor Aeroporto. Uma das diferenças mais gritantes é a morte da vida no Córrego Capim Puba, antes próprio para banhos. “Os banhos nos pequenos cursos d’água eram frequentes e incluíam as delícias de uma cachoeira do Córrego Capim Puba”.
Assim como vários pontos da história da cidade, o bizarro também prevaleceu no início da urbanização do setor Aeroporto. Dejetos hospitalares eram jogados no rio, iniciando seu processo de asfixia que o levou à morte pouco tempo depois. “G. recorda as muitas minas d’água que existiam no local e como a criançada corria para ver os dejetos lançados no córrego pela Santa Casa de Misericórdia”. A cena descrita lembra filmes de terror. “Eram de dar calafrios. Às vezes, flutuavam nas águas partes de dedos amputados”.
Além das crianças, lavadeiras também se beneficiavam das águas do córrego. Era muito comum vê-las lavando as roupas de todo o resto de Goiânia naquelas margens, pois a Vila Cristo Redentor era um bairro popular de migrantes. Relatos de onças também estão registrados. “As lavadeiras ocupavam as margens dos córregos onde essas mesmas crianças encontravam achados sinistros e onças vinham em busca de água”.
A cachoeira descrita acima hoje faz falta para quem vive o tédio caloroso da cidade, que exige taxas caríssimas de passagem para quem deseja sair dela. Como lazer interno, Goiânia oferece apenas a refrescância artificial do ar condicionado de shoppings. “Quem hoje olha o estado do córrego Capim Puba, o principal veio d’água do bairro, completamente poluído, parte transformado em esgoto a céu aberto e outra canalizado, não imagina que tenha sido, em tão pouco tempo, lugar de jogos infantis e da labuta de mulheres alvejando roupas pelo sustento da casa.”
Aeroporto
No início da edificação de Goiânia existia certo receio do governo em investir em transporte aéreo. Uma campanha nacional de aviação cujo o lema era “dêem asas ao Brasil” acabou impulsionando a construção das duas pistas que ocupavam as atuais avenidas Tocantins e Paranaíba. A primeira linha comercial tratava-se de uma extensão de Uberaba. “A primeira linha de voos comerciais a fazer pousos em Goiânia decorreu do prolongamento da rota São Paulo–Uberaba, realizada pela VASP”.
Menos de duas décadas depois do início da construção de Goiânia, foi observada a necessidade de um replanejamento urbano devido ao aumento da faixa de concreto que alastrava a cidade além do esperado. “A cidade crescia ameaçando transpor os limites estabelecidos pelos planos de Attílio Corrêa Lima e Armando Augusto de Godói. O local onde se encontrava o aeroporto era próximo ao centro e em 1950 o governo do estado decidiu pelo seu loteamento”.
Um desastre aéreo devido à capacidade diminuta do primeiro aeroporto da cidade também foi crucial para que um novo fosse construído. O artigo utilizado como base para esta matéria traz alguns detalhes do episódio. “A decisão de mudar o aeroporto de local foi acelerada por um acidente ocorrido em 1952, em que um avião Bonanza caiu no quintal de uma casa, sendo que passageiros e tripulantes morreram carbonizados.”
O projetista alemão Ewald Jansen foi responsável por adequar o que já existia de moradias na antiga Vila Cristo Redentor ao novo Setor Aeroporto. “Jansen projetou o Setor Aeroporto incorporando as ocupações pré-existentes, possivelmente tentando evitar embates políticos. O desenho proposto recorda o Setor Sul, o bairro com inspiração nas cidades-jardim e fruto das intervenções de Armando de Godói sobre o plano de Corrêa Lima”.
Com a estabilização do Setor Aeroporto na década de 1960 surge a Praça do Avião como cenário principal da vida dos habitantes do espaço. “A Praça do Avião, primeiramente, foi um espaço empoeirado, onde se realizavam as feiras. Aos poucos, adquiriu outra condição, vindo a configurar-se no foco do bairro, por reunir os principais comércios, a Igreja e o colégio e seus valores simbólicos.”
Nos anos seguintes, disputas entre vendedores de carros usados e moradores promoveram cenas de violência para o setor, que teve suas casas adaptadas para a mais nova função de sua existência. Clinicas e farmácias também foram tomando aos poucos o espaço do setor, que hoje já se encontra em boa parte verticalizado. As “pequenas praças em vias de fluxo menos acelerado”, projetadas por Jansen e hoje cercadas por grandes prédios continuam sendo um dos principais charmes do setor.







