Meus quadrinhos
Redação DM
Publicado em 31 de janeiro de 2022 às 14:23 | Atualizado há 1 ano

Não é de hoje, no entanto, que a realidade encontra nos pincéis de cartunistas um meio para registrar aspectos da vida política, social ou cultural. Como dois irmãos inseparáveis, tretados ou não, jornalismo e ilustração estão entrelaçados desde o século 19, quando desenhos gráficos eram usados para ilustrar notícias no jornal inglês “The Illustrad London News”. Em 19 páginas, com rabiscos gravados em madeira, a publicação trazia a cobertura do primeiro baile mascarado da Rainha Vitória, eleição presidencial dos Estados Unidos, reportagens sobre crimes e até resenhas de livros.
Nesta época, na segunda metade do século, foi lançado no Brasil a primeira história em quadrinho, publicada na revista A Vida Fluminense. “As Aventuras de Nhô Quim” ou “Impressões de Uma Viagem à Corte”, do desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, consistia em inteligentes críticas bem-humoradas que serviam para relatar aspectos da “Vida Fluminense”, satirizando de forma caricata a corte do Segundo Reinado e fazendo de Agostini o maior cartunista do período. Nhô Quim, seu personagem, era um caipira que se muda para o Rio, num contraste entre o rural e o urbano.
De lá pra cá, com o empurrão do jornal O Pasquim e seus desenhos que geraram barulhentos estardalhaços que viraram pop em plena ditadura militar, as tirinhas ganharam espaço nos jornais. Não à toa, foram do semanário nomes importantes dos traços brasileiros, como Ziraldo, criador do Menino Maluquinho, e Jaguar, cujo deboche aos poderosos se tornou uma marca registrada. Também das páginas gutemberguianas saiu Maurício de Souza, autor de uma das HQs mais famosas do Brasil, “A Turma da Mônica” – por meio da qual gerações de leitores foram formadas.
É a história em quadrinhos brasileira de mais sucesso que chegou nas telonas recentemente no filme “A Turma da Mônica: Lições”, do diretor Daniel Rezende. Criada por Mauricio de Sousa em 1959, a produção fica com 86% do mercado nacional. Fora do país, a turma também é um sucesso e tem sua participação em 40 países. Ziraldo, responsável pela revista Pererê, a primeira brasileira dedicada às HQs, ajudou a consolidar os quadrinhos como a 9ª arte, com dezenas de personagens clássicos.
Segundo uma pesquisa divulgada pelo Jornal da USP com alunos de escolas públicas, as histórias em quadrinho são o tipo de leitura preferido dos pequenos. E, ainda, ajudam os leitores a se aproximarem de outros tipos de literatura, como literatura de não-ficção. Nesse nicho, inclusive, as editoras apostam suas fichas: a Globo, uma das mais importantes do país, lançou “A Ascensão e a Queda de Stan Lee”, escrita pelo jornalista André Gordirro. Mestre dos quadrinhos de super-heróis, Lee – morto em 2018 – deixou como legado criações como Homem-Aranha, entre outras.
Com orelha assinada pela filósofa Djamila Ribeiro, autora do best-seller “Manual Antirracista”, o romance-gráfico “Miss Davis: A Vida e as Lutas de Angela Davis”, lançado em 2020 pela Editora Agir, destrincha a vida da militante anticapitalista e antirracista desde sua infância, vivida em parte no estado norte-americano do Alabama, até a participação de Davis no partido dos Panteras Negras. Foi quando esteve engajada nos protestos pelo direito civil que ela ingressou na lista dos mais procurados pelo FBI. Os quadrinhos colocam o leitor nos EUA dos anos 60 e 70.
Super-heróis
Não podemos esquecer, contudo, os sucessos das HQs de super-heróis. Stan Lee, mestre dos mestres nessa arte, que o diga. Afinal, são dele personagens que impactaram gerações de leitores. Sem ele, por exemplo, não haveria boa parte dos campeões de bilheteria nos cinemas baseados em histórias de super-heróis. Lee gerou centenas de histórias que nos levam para fora da realidade por meio de seus grandes poderes e das grandes responsabilidades. É um gênio. O que seria dos HQs sem Lee?
Mas jornalistas, agarrados à verdade factual e com o compromisso de chegar à melhor versão da verdade, não devem se agarrar a exercícios de futurologia. Fã de histórias em quadrinhos desde a infância, o colecionador Wendel Jesus, 29, é dono de 300 HQs e outros mais de action figure. “Desde os meus 10 anos sempre gostei muito de super-herói, Superman, Batman, gosto bastante de gibi colecionáveis, estátuas, tudo isso”, afirma ele, que se preocupa em passar esse gosto pelo universo das HQs para seus filhos.
Herói favorito? O amigo da vizinhança. Sim, ninguém menos que o teioso. “Do “Homem-Aranha”, comprei naquelas bancas de gibi, na época, custava R$ 1,75 e ficou marcado, os primeiros a gente nunca esquece”. Para ele, histórias em quadrinhos contribuem de forma relevante em todas as fases da vida: auxilia na memória, desperta o interesse pela leitura, estimula a criatividade e imaginação, criando gosto pelas palavras. Foi assim para Wendel e agora ele aconselha para que novos leitores embarquem nesse universo e estejam abertos a passar por novas experiências. “Quem não conhece os quadrinhos está perdendo um mundo fantástico. É uma fuga para gente do dia a dia, do trabalho, dos problemas que temos”, atesta o colecionador.

Existem quadrinhos para todos os gostos, para todos os tipos, seja aos amantes de música (como o mais novo lançamento pela Vendeta de Robert Crumb, com “Blues”), da lisergia da contracultura (“Minha Vida”, do próprio Crumb, disponível facilmente em sebos), dos super-heróis (como os de Stan Lee), de putaria (e exemplo daqueles que Carlos Zéfiro publicou por anos na imprensa) e a loucura de Angeli, Glauco e Laerte (o trio paulista que zombou de tudo e todos). O que não pode é parar de ler, não é?
Charley Patton passou a maior parte da vida na fazenda Dockery, nas terras de aluvião do Delta Mississipi. No palco, em festas e galpões, subia sozinho e mostrava-se bastante popular, desenhando no braço do violão acordes que emocionavam o público. Era empolgante e dinâmico, cheio de malabarismos e palhaçadas: tocava com o instrumento posicionado em suas costas. “Para o povo negro, pobre e isolado que vivia e trabalhava nas plantações, a vida não era tão diferente daquela dos tempos da escravidão”, afirma Robert Crumb, em “Blues”, obra lançada pela Vendetta.
Um dos nomes mais importantes das histórias em quadrinhos contraculturais, dono de traço lisérgico e doidão, Crumb celebra uma arte popular sufocada sob os golpes da tecnologia, com suas modinhas e suas tendências tão novas quanto um museu de grandes novidades. Pelas páginas de “Blues”, passeiam nomes como Charley Patton, Robert Johnson, Jelly Roll Morton, Bessie Smith e outros músicos hoje esquecidos, porém também B.B King, Janis Joplin, Jimi Hendrix e James Brow, seja em histórias em quadrinhos, cartazes ou capas de disco, como “Cheap Thrills, obra-prima de Janis.

Não é de hoje, no entanto, que a realidade encontra nos pincéis de cartunistas um meio para registrar aspectos da vida política, social ou cultural. Como dois irmãos inseparáveis, tretados ou não, jornalismo e ilustração estão entrelaçados desde o século 19, quando desenhos gráficos eram usados para ilustrar notícias no jornal inglês “The Illustrad London News”. Em 19 páginas, com rabiscos gravados em madeira, a publicação trazia a cobertura do primeiro baile mascarado da Rainha Vitória, eleição presidencial dos Estados Unidos, reportagens sobre crimes e até resenhas de livros.
Nesta época, na segunda metade do século, foi lançado no Brasil a primeira história em quadrinho, publicada na revista A Vida Fluminense. “As Aventuras de Nhô Quim” ou “Impressões de Uma Viagem à Corte”, do desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, consistia em inteligentes críticas bem-humoradas que serviam para relatar aspectos da “Vida Fluminense”, satirizando de forma caricata a corte do Segundo Reinado e fazendo de Agostini o maior cartunista do período. Nhô Quim, seu personagem, era um caipira que se muda para o Rio, num contraste entre o rural e o urbano.
De lá pra cá, com o empurrão do jornal O Pasquim e seus desenhos que geraram barulhentos estardalhaços que viraram pop em plena ditadura militar, as tirinhas ganharam espaço nos jornais. Não à toa, foram do semanário nomes importantes dos traços brasileiros, como Ziraldo, criador do Menino Maluquinho, e Jaguar, cujo deboche aos poderosos se tornou uma marca registrada. Também das páginas gutemberguianas saiu Maurício de Souza, autor de uma das HQs mais famosas do Brasil, “A Turma da Mônica” – por meio da qual gerações de leitores foram formadas.
É a história em quadrinhos brasileira de mais sucesso que chegou nas telonas recentemente no filme “A Turma da Mônica: Lições”, do diretor Daniel Rezende. Criada por Mauricio de Sousa em 1959, a produção fica com 86% do mercado nacional. Fora do país, a turma também é um sucesso e tem sua participação em 40 países. Ziraldo, responsável pela revista Pererê, a primeira brasileira dedicada às HQs, ajudou a consolidar os quadrinhos como a 9ª arte, com dezenas de personagens clássicos.
Segundo uma pesquisa divulgada pelo Jornal da USP com alunos de escolas públicas, as histórias em quadrinho são o tipo de leitura preferido dos pequenos. E, ainda, ajudam os leitores a se aproximarem de outros tipos de literatura, como literatura de não-ficção. Nesse nicho, inclusive, as editoras apostam suas fichas: a Globo, uma das mais importantes do país, lançou “A Ascensão e a Queda de Stan Lee”, escrita pelo jornalista André Gordirro. Mestre dos quadrinhos de super-heróis, Lee – morto em 2018 – deixou como legado criações como Homem-Aranha, entre outras.
Com orelha assinada pela filósofa Djamila Ribeiro, autora do best-seller “Manual Antirracista”, o romance-gráfico “Miss Davis: A Vida e as Lutas de Angela Davis”, lançado em 2020 pela Editora Agir, destrincha a vida da militante anticapitalista e antirracista desde sua infância, vivida em parte no estado norte-americano do Alabama, até a participação de Davis no partido dos Panteras Negras. Foi quando esteve engajada nos protestos pelo direito civil que ela ingressou na lista dos mais procurados pelo FBI. Os quadrinhos colocam o leitor nos EUA dos anos 60 e 70.
Super-heróis
Não podemos esquecer, contudo, os sucessos das HQs de super-heróis. Stan Lee, mestre dos mestres nessa arte, que o diga. Afinal, são dele personagens que impactaram gerações de leitores. Sem ele, por exemplo, não haveria boa parte dos campeões de bilheteria nos cinemas baseados em histórias de super-heróis. Lee gerou centenas de histórias que nos levam para fora da realidade por meio de seus grandes poderes e das grandes responsabilidades. É um gênio. O que seria dos HQs sem Lee?
Mas jornalistas, agarrados à verdade factual e com o compromisso de chegar à melhor versão da verdade, não devem se agarrar a exercícios de futurologia. Fã de histórias em quadrinhos desde a infância, o colecionador Wendel Jesus, 29, é dono de 300 HQs e outros mais de action figure. “Desde os meus 10 anos sempre gostei muito de super-herói, Superman, Batman, gosto bastante de gibi colecionáveis, estátuas, tudo isso”, afirma ele, que se preocupa em passar esse gosto pelo universo das HQs para seus filhos.
Herói favorito? O amigo da vizinhança. Sim, ninguém menos que o teioso. “Do “Homem-Aranha”, comprei naquelas bancas de gibi, na época, custava R$ 1,75 e ficou marcado, os primeiros a gente nunca esquece”. Para ele, histórias em quadrinhos contribuem de forma relevante em todas as fases da vida: auxilia na memória, desperta o interesse pela leitura, estimula a criatividade e imaginação, criando gosto pelas palavras. Foi assim para Wendel e agora ele aconselha para que novos leitores embarquem nesse universo e estejam abertos a passar por novas experiências. “Quem não conhece os quadrinhos está perdendo um mundo fantástico. É uma fuga para gente do dia a dia, do trabalho, dos problemas que temos”, atesta o colecionador.

Existem quadrinhos para todos os gostos, para todos os tipos, seja aos amantes de música (como o mais novo lançamento pela Vendeta de Robert Crumb, com “Blues”), da lisergia da contracultura (“Minha Vida”, do próprio Crumb, disponível facilmente em sebos), dos super-heróis (como os de Stan Lee), de putaria (e exemplo daqueles que Carlos Zéfiro publicou por anos na imprensa) e a loucura de Angeli, Glauco e Laerte (o trio paulista que zombou de tudo e todos). O que não pode é parar de ler, não é?