“Nosso objetivo é fazer tudo com cuidado e com o acompanhamento minucioso do dia a dia da escola”
Redação DM
Publicado em 14 de dezembro de 2015 às 20:52 | Atualizado há 1 anoPreocupados com o baixíssimo desempenho das escolas públicas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), os mais renomados especialistas da área veem na gestão compartilhada com Organizações Sociais (OS) a saída para o dilema da qualidade do ensino. Reportagem e artigo publicados na edição desta semana da revista Época, a partir da avaliação de renomados conhecedores do setor, analisam a proposta do governador Marconi Perillo (PSDB) de adotar o modelo e concluem: a gestão por OS é a saída para as mazelas administrativas e sindicais que comprometem, de forma irreversível, o aumento da qualidade da educação pública no País.
A reportagem especial de Época afirma, já no título, que “Goiás vai transferir escolas do Estado para Organizações Sociais” e que “esse modelo melhorou o desempenho dos alunos em vários países”. Em artigo publicado na revista, Fernando Schüller, professor do Insper e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento, afirma que o governador de Goiás, Marconi Perillo, decidiu desafiar o lobby da educação estatal, que “já deu todas as provas de que não funciona”. “O modelo é simples”, diz o professor: “o controle e o financiamento são do governo; a gestão é privada, ainda que sem fins lucrativos”.
A revista resume a proposta de Marconi: “na prática, as escolas passarão a ter administradores profissionais”, informa. “No modelo das OSs, deixa de ser responsabilidade do diretor da escola o bom funcionamento dos banheiros, dos computadores, da cozinha ou da segurança”. Ainda segundo a reportagem de Época, “na OS, o diretor dedica-se exclusivamente às questões pedagógicas e à relação entre alunos, professores e a comunidade”.
Época detalha a proposta do Governo de Goiás de começar a gestão compartilhada com OS por 200 das quase 1.100 escolas da rede estadual e observa que iniciativas idênticas ou semelhantes deram muito resultado em diversos países ao redor do mundo. “A experiência de Goiás com as OS começará em 200 escolas do 6º ao 9º ano e de ensino médio”, diz a reportagem “Nelas, haverá uma administração profissional, enquanto a parte pedagógica permanecerá nas mãos do Estado. A princípio, não haverá metas de expansão. Tudo dependerá dos resultados”, informa.

A reportagem traz declarações da secretária de Educação e Cultura, Raquel Teixeira, sobre o debate, com alunos, pais e professores, sobre a definição da modelagem mais apropriada. “Nosso objetivo é fazer tudo com muito cuidado e com o acompanhamento minucioso do dia a dia da escola”, diz Raquel à revista.
O texto traz ainda os resultados positivos alcançados por Pernambuco, que já testou o modelo, com sucesso. Depois de testá-las, o Estado (de Pernambuco) replicou as práticas mais eficazes por sua rede e encerrou a experiência das OS para não criar ilhas de excelência e aumentar a disparidade na rede pública. Hoje, há 328 escolas integrais e semi-integrais em Pernambuco. Em 2001, a taxa de desistência dos estudantes do ensino médio era de 24,5%. Hoje, esse índice é de 3,5%. Nas escolas integrais e semi-integrais, a taxa é de apenas 1,3%”, diz o texto.
“A experiência que existiu em Pernambuco e existirá em Goiás é novidade no Brasil, mas não no mundo”, diz o texto de Época, para lembrar que “Estados Unidos, Inglaterra, Chile, Suécia e Portugal estão entre os países com parceria público-privada na educação”. A reportagem observa que, “quando bem sucedido, esse modelo mostra melhora significativa de resultados em comparação com a média das escolas públicas”. E cita o caso dos Estados Unidos, um dos países com a melhor educação pública do mundo, onde o modelo, que existe há 22 anos, é composto por “6.400 escolas charter, como são chamadas, com mais de 2,5 milhões de estudantes (…) e escolas com grande capacidade de impacto nos grupos sociais em que a estrutura familiar e cultural não costuma ajudar (e pode até prejudicar) o aprendizado”.
A reportagem conclui que, nos Estados Unidos, “as charters ajudaram a melhorar o desempenho de seus alunos” e que o Chile, que também já adota o modelo, “tem a melhor educação da América Latina”. “A qualidade da educação que o jovem brasileiro recebe hoje equivale à que o chileno recebia na década de 1960. O mérito desses países é mostrar que a educação pública não é sinônimo de educação estatal. Goiás começou a desbravar, aqui no Brasil, esse mesmo caminho”, afiança o trecho final da reportagem de Época (leia a íntegra do texto abaixo).

Goiás vai transferir escolas do Estado para Organizações Sociais. Esse modelo melhorou o desempenho dos alunos em vários países
Flávia Yuri Oshima
A partir de 2016, o governo de Goiás não estará sozinho na administração das 1.160 escolas do Estado. Em parte delas, haverá a ajuda de Organizações Sociais (OS) – entidades privadas sem fins lucrativos, contratadas pelo Estado para prestar serviços públicos. Na prática, as escolas passarão a ter administradores profissionais. No modelo das OSs, deixa de ser responsabilidade do diretor da escola o bom funcionamento dos banheiros, dos computadores, da cozinha ou da segurança. Na OS, o diretor dedica-se exclusivamente às questões pedagógicas e à relação entre alunos, professores e a comunidade. “A desestatização da educação é inexorável. O Brasil precisa acordar para isso”, diz Ricardo Paes de Barros, economista-chefe da Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper, escola de economia e administração de São Paulo.
A importância – e a oportunidade – da iniciativa de Goiás é realçada pela polêmica causada pelo projeto de reorganização das escolas da rede pública de São Paulo. Faz sentido uma Secretaria de Educação, responsável por mais de 4 milhões de alunos (20,6% dos estudantes do país), como a de São Paulo,ocupar-se ainda com a administração de suprimentos, de segurança, de reparos e obras de mais de 5.500 escolas e com a administração de recursos humanos de 251 mil professores? O mesmo questionamento pode se estender à gestão de todas as demais redes públicas do país.
A experiência de Goiás com as OS começará em 200 escolas do 6º ao 9º ano e deensino médio. Nelas, haverá uma administração profissional, enquanto a parte pedagógica permanecerá nas mãos do Estado. A princípio, não haverá metas de expansão. Tudo dependerá dos resultados. “Nosso objetivo é fazer tudo com muito cuidado e com o acompanhamento minucioso do dia a dia da escola”, diz Raquel Teixeira, secretária de Educação de Goiás.
A única experiência similar a essa no Brasil ocorreu em Pernambuco. Por dez anos, entre 2001 e 2011, o Estado recorreu ao modelo de OS para estruturar e administrar 20 escolas de ensino médio de período integral Elas serviram como laboratório de inovações administrativas e pedagógicas. Depois de testá-las, o Estado replicou as práticas mais eficazes por sua rede e encerrou a experiência das OS para não criar ilhas de excelência e aumentar a disparidade na rede pública. Hoje, há 328 escolas integrais e semi-integrais em Pernambuco. Em 2001, a taxa de desistência dos estudantes do ensino médio era de 24,5%. Hoje, esse índice é de 3,5%. Nas escolas integrais e semi-integrais, a taxa é de apenas 1,3%.
O maior estudo sobre as charters, finalizado neste ano pela Universidade Stanford, na Califórnia, mostra que, em média, os alunos negros e hispânicos têm desempenho superior em matemática. A experiência que existiu em Pernambuco e existirá em Goiás é novidade no Brasil, mas não no mundo. Estados Unidos, Inglaterra, Chile, Suécia e Portugal estão entre os países com parceria público-privada na educação. Quando bem sucedido, esse modelo mostra melhora significativa de resultados em comparação com a média das escolas públicas. Os Estados Unidos têm a maior experiência com esse modelo, que lá existe há 22 anos. São 6.400 escolas charter, como são chamadas, com mais de 2,5 milhões de estudantes leitura ao de seus colegas da rede pública com a mesma origem. Isso mostra uma vocação das charters americanas; são escolas com grande capacidade de impacto nos grupos sociais em que a estrutura familiar e cultural não costuma ajudar (e pode até prejudicar) o aprendizado.
A vantagem de ter administradores profissionais à frente da gestão das charters é perceptível logo na estrutura das escolas: os prédios são mais bem cuidados, há mais laboratórios e equipamentos para experimentações. A presença de educadores concentrados na tarefa de educar melhora o currículo e a formação dos professores. As aulas tendem a ser mais bem preparadas e com melhor aproveitamento dos recursos da escola.
O desafio das charters é aumentar o alcance, sem perder qualidade. Como ilhas de excelência, elas se mostram eficientes. Porém, a expansão da rede costuma trazer problemas. O modelo exige acompanhamento e regulação estrita. Nos Estados Unidos, o número de escolas charter com resultados superiores aos das escolas públicas comuns caiu à medida que a rede se expandiu. Nas áreas urbanas, o índice de escolas charter cujos alunos têm desempenho superior ao das puramente públicas, em matemática e leitura, caiu de 70% para 43%.
Nos últimos anos, houve o fechamento de 200 escolas charter por baixo desempenho. Outro problema é o uso de práticas excludentes, contrárias ao espírito das escolas públicas, para cavar bons resultados. A política de tolerância zero é uma delas. Nas escolas charter, o número de expulsão de alunos é dezenas de vezes superior ao das públicas. Em Chicago, enquanto o percentual de alunos expulsos na rede pública ficou em 0,8%, nas charters ele chegou a 54%. As escolas charter também possuem percentuais de estudantes deficientes muito menores que os da escola pública.
“O controle pedagógico do Estado, como ocorre nas OS, é uma forma de evitar essas distorções”, diz Patrícia Guedes, do Instituto Itaú Social. Suécia e Chile trazem lições de outro tipo de cuidado que se deve ter com o modelo de voucher, outro formato de parceria público-privada. Nele,o governo paga a vaga do aluno numa escola particular – como ocorre, no ensino superior, com o ProUni no Brasil. No Chile, as melhores escolas passaram a selecionar os melhores alunos. As escolas públicas viraram, então, o refúgio dos alunos que não foram aceitos pelas boas escolas.
Na Suécia, o mecanismo de voucher, sem controle algum do Estado, causou uma crise generalizada na educação do país. Para atrair alunos (e receita), as escolas suecas passaram a investir em estrutura de shopping centers e tomaram-se permissivas com alunos. Em 2012, pela primeira vez, os suecos ficaram com notas abaixo da média mundial no programa internacional de avaliação de estudantes (Pisa, na sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os desafios que as parcerias público-privadas enfrentam não invalidam os avanços propiciados por elas. Nos Estados Unidos, as charters ajudaram a melhorar o desempenho de seus alunos. O Chile tem a melhor educação da América Latina. A qualidade da educação que o jovem brasileiro recebe hoje equivale à que o chileno recebia na década de 1960. O mérito desses países é mostrar que a educação pública não é sinônimo de educação estatal. Goiás começou a desbravar, aqui no Brasil, esse mesmo caminho.
