Cotidiano

O pecado que mancha a Igreja Católica

Redação DM

Publicado em 13 de junho de 2016 às 01:23 | Atualizado há 10 anos

A produção que ganhou o Oscar de Melhor Filme neste ano trata de um problema crucial para a Igreja Católica: a pedofilia e a exploração sexual perpetrada pelos seus padres e demais líderes religiosos.

“Spotlight” mostra como uma equipe do Boston Globe, jornal de Massachusetts, resolve requentar uma reportagem mal apurada e revelar as entranhas mais obscuras da Igreja Católica. Ao fim do filme, um painel mostra casos investigados – inclusive no Brasil.

O filme, assim, revela como o jornalismo investigativo é essencial para a efetivação da justiça, e como a Igreja Católica se esquiva ao praticar crimes e pecados.

A realidade não precisa copiar tanto a ficção. O caso do padre Fabiano Santos Gonzaga, 28, mostra exatamente como não se precisa de muito esforço para criar roteiros que arrepiam e provocam mal estar nos espectadores.  A realidade ou as suspeitas que envolvem a realidade podem criar histórias para lá de insuportáveis tanto para as instituições quanto para as famílias.

O cenário desta caso emblemático é Caldas Novas, cidade balneário que costuma ser destino para inúmeras famílias brasileiras em busca de lazer.

A revista “Veja” desta semana relata, por meio de entrevista com o suspeito e também acesso ao inquérito policial, como o líder religioso teria supostamente abusado sexualmente de um adolescente  com problemas mentais.

Fabiano teria se encontrado com o adolescente na tarde sábado, 4.  Conforme relata o inquérito, o padre bebia cerveja com dois amigos em uma mesa à beira da piscina do Caldas Termas Clube.

A reportagem revela um aspecto que não precisa ser necessariamente verdade, mas que é prática nos clubes de Caldas Novas: tocar até a exaustão música sertaneja, mesmo que uma parcela significativa de seus visitantes não tolere as vozes esganiçadas das duplas. Mas é neste ambiente que um crime horrível pode ter ocorrido.

Sob o sol característico de Goiás, Fabiano decidiu ir para a sauna do clube. Quando entrou, observou que duas pessoas estavam no local: um senhor de 60 anos e um adolescente de 15. O jovem é loiro, de olhos azuis, alto e robusto “como um querubim”, compara de forma pouco inspirada a reportagem da revista “Veja”.

Por sua vez, o padre estava de sunga e passou a encarar o menino.  Pelos relatos da revista, o homem mais velho saiu da sauna. Com o adolescente próximo, o padre  se aproximou mais perto ainda. Aproximou e beijou o adolescente na boca. Depois, segurou seu pênis. “O menino levantou-­se para fugir, mas Fabiano não deixou. Correu para bloquear a porta, baixou a sunga e disse ao menino que ele só sairia dali se praticasse sexo oral”, relata a revista “Veja”, que teve acesso ao conteúdo do inquérito policial.

De acordo com o relato na peça de investigação, o garoto ficou amedrontado e obedeceu ao estupro. Conforme a revista, só depois que “um líquido molhou” a língua do menor é que Fabiano o deixou ir embora. “O garoto, então, saiu da sauna e correu para lavar a boca no banheiro”.

A  compreensão mental do adolescente é de uma criança de 9 anos de idade. Morador de Brasília, ele chegou assustado para o pai, que é militar, e a mãe, uma fisioterapeuta, e disse que desejava ir embora para escovar os dentes.

O garoto teria chegado agitado para a mãe, que estava no clube, e relatou o que havia se passado na sauna. A mulher então desesperou-se e procurou imediatamente o padre Fabiano. Ao encontrá-lo, questionou para todos ouvirem: “Por que você fez isso com meu filho?”. Segundo relatos do inquérito, o padre ficou atônito e calado.  Todos foram para a delegacia quando chegou a polícia.

Fabiano é responsável pela Igreja Católica de Frutal (MG), ligada à Arquidiocese de Uberaba. Para a polícia, disse que não teria abusado do adolescente, pois é heterossexual e celibatário.

A Polícia Civil, entretanto, vasculhou o conteúdo das comunicações do padre em seu celular e afirma que encontrou ‘nudes’  e conversas pornográficas “com mais de cinquenta homens desde outubro de 2014”.

No celular, ele teria marcado encontros com 38 homens neste espaço de tempo.  Com o fim do inquérito, padre Fabiano foi indiciado. Caberá ao Poder Judiciário julgá-lo.

A Igreja Católica em Minas Gerais decidiu afastá-lo de Frutal. O padre Saulo Emílio Pinheiro Moraes, vigário geral, se pronunciou por meio de nota. Ele pediu perdão pelo ocorrido e que aguarda investigações:  “Diante do caso vinculado pelos meios de comunicação e que vem sendo apurado pelas autoridades legais, sobre o presbítero pertencente ao nosso clero, e o seu envolvimento em um caso de abuso sexual contra um adolescente, na cidade de Caldas Novas, no estado de Goiás, a Arquidiocese de Uberaba, vem a público para manifestar, que diante do exposto aguarda a apuração dos fatos, pelas autoridades competentes. Como Igreja, repudiamos todo tipo de violência e abuso, nos mais diferentes níveis; e sentimos as dores daqueles que sofrem, principalmente quando envolve um dos nossos representantes. Informamos, também, que o referido padre foi privado do “uso de ordens”, pelo Senhor Arcebispo, Dom Paulo Mendes Peixoto, ou seja, não tem jurisprudência para presidir ou administrar qualquer sacramento. Sendo vedado o exercício do ministério presbiteral ou qualquer outro encargo eclesiástico, por tempo indeterminado para apuração dos fatos. Pedimos perdão por qualquer constrangimento ou dor que pudemos causar com tal fato, e esperamos que tudo seja averiguado e resolvido o mais rápido possível, para que não haja maiores constrangimentos”.

Foto: revista Veja

 

 

[box title=”Em entrevista, Veja relata versão do padre”]

Algemado, acusado de abusar sexualmente de um adolescente de 15 anos, o padre Fabiano Santos Gonzaga falou com exclusividade a VEJA. Ele está preso na unidade prisional de Caldas Novas, será indiciado por estupro de vulnerável (Artigo 217 do Código Penal) e poderá pegar até 15 anos de cadeia. Segundo diz em sua defesa, o jovem teria inventado essa história por ter sido rejeitado pelo sacerdote dentro da sauna e por ter transtorno mental. Aparentando tranquilidade, o religioso se diz vítima de uma grande injustiça e sonha em voltar a celebrar missas em sua paróquia, no município de Frutal (MG); pede aos seus fiéis que orem por ele.

 

VEJA: O senhor é padre e é acusado de estuprar um adolescente vulnerável de 15 anos. Tem receio de apodrecer na cadeia?

Nem cheguei a pensar nisso.

VEJA: Como o senhor se defende dessa acusação?

Não tinha como eu praticar sexo oral no garoto e ainda ejacular em sua boca uma vez que a sauna estava aberta ao público e sem tranca na porta.

VEJA: Quando entrou na sauna, o garoto já estava lá?

Sim. Estavam ele e um senhor de mais ou menos 60 anos. O senhor saiu logo em seguida e o garoto me cumprimentou com os olhos. Eu perguntei o seu nome e se estava tudo bem. Ele me disse que estava hospedado na casa de um tio em Caldas Novas. Depois ele ficou parado me olhando. Achei ele estranho por não interagir e saí da sauna. Não fiquei lá dentro nem cinco minutos.

VEJA: O que houve depois?

Estava sentando com os meus amigos e uma senhora loira me abordou dizendo: “seu nego safado. Não tem vergonha não?”. O menino veio em seguida com duas amigas da mãe. Ela gritava dizendo que o filho dela é doente e que eu não podia ter feito aquilo. Não entendi nada naquele momento. Fomos levados para a delegacia e o menino disse que eu tinha ejaculado na boca dele. Me senti constrangido e sem entender muito a história.

VEJA: Quando tentou conversar com o garoto, percebeu que ele tinha algum tipo de deficiência?

Não. Eu só reparei que ele não me respondeu. Mas não deu para perceber nada.

VEJA: O senhor se diz vítima de injustiça, mas tem cinco pessoas acusando você e a juíza não quis soltá-lo. Afinal, como o senhor se meteu nessa confusão?

Tentando pensar sobre isso, cheguei à conclusão que o menino ficou interessado em mim. Mas, como eu não correspondi, ele acabou inventando toda essa história por ter um retardo mental. A mãe tomou a história como verdadeira e já veio me acusando por eu ser minoria.

VEJA: O que agravou a sua situação?

O fato de ser padre me complicou, pois há o estereótipo de que todo padre é tarado, pedófilo e gosta de criancinha.

 

VEJA: A rigor, uma pessoa que está presa acusada injustamente de estuprar um menor vulnerável ficaria desesperada, mas percebo que o senhor está se defendendo tranquilamente. Essa sua postura não levanta uma dúvida sobre a veracidade da história que o senhor conta?

Na hora, eu não me desesperei porque não sabia direito o que estava acontecendo. Fui conduzido sem saber o motivo. Quando fui preso, aí sim, eu me desesperei.

 

VEJA: O que o senhor está sentindo nesse momento?

Injustiçado pela situação e pela mídia. Humilhado porque as testemunhas estão faltando com a verdade e preocupado porque tenho família.

 

VEJA: Consegue imaginar o que vai acontecer com o senhor daqui para frente?

Não. Mas tenho que provar a minha inocência. Não sei como isso vai acontecer.

 

VEJA: Quando o senhor resolveu ser padre?

Desde pequeno. Quando era criança, ia à missa com uma prima e sentia um encantamento. Em seguida, virei coroinha e sacristão. Aos 18 anos entrei no seminário e fui ordenado padre aos 25.

 

VEJA: Será que a sua carreira de padre acabou com esse escândalo sexual?

Não, até porque vou provar a minha inocência. Agora, fica difícil recuperar a ferida moral.

 

VEJA: Diante de uma acusação tão grave como essa, é possível recuperar o respeito dos fiéis?

Sim, até porque a minha vida religiosa na paróquia mostra o contrário de tudo isso que estão me acusando.

 

VEJA: Como o senhor processa essa situação no campo religioso?

Acho que é uma provação. Um momento triste, doído e dolorido.

 

VEJA: Se o tempo voltasse atrás, o que o senhor faria diferente?

Eu não estaria naquele clube.

 

VEJA: Que mensagem o senhor quer mandar aos seus fiéis?

Orem por mim.

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