Cotidiano

Personagens de um dia cinza

Redação DM

Publicado em 3 de novembro de 2015 às 20:39 | Atualizado há 1 ano

Dia nublado: Cheiro de vela queimando, som de periquitos e bem-te-vis. O Cemitério Jardim das Palmeiras passou o dia cheio no feriado de Finados, ontem. O túmulo mais visitado foi do cantor Cristiano Araújo, morto em um acidente de carro em junho deste ano. Dezenas de pessoas passaram a manhã e a tarde rodeando a sepultura.

“A gente reza, canta as músicas dele, lembra das coisas alegres dele”, conta a dona de casa Edna Santos, 53, que veio sozinha de São José do Rio Preto, em São Paulo, só para visitar o túmulo do ídolo. Ela chegou em Goiânia cedo, passou o dia no cemitério e voltou para sua cidade ainda ontem.“Sinto muito amor por ele. É como se fosse um filho. O Cristiano tem a idade do meu filho mais velho”, diz. Apesar da disposição, Edna sofre críticas da própria família. “Meus filhos acham um absurdo tudo. Quer ver eles ficarem bravos é ver eu com a camiseta [do Cristiano]. Aí eles falam: ‘Agora você superou’, mas nem dou bola”.

A mudança da família da estudante Rayane, 18, de Açailândia, Maranhão, para Goiânia, coincide com os dias seguinte à morte do cantor. Mãe, filhos, sobrinhos e namorado foram em peso visitar o túmulo do ídolo. “A música dele fala sobre amor, representa muitas coisas na nossa vida. A gente esculta e parece que está falando nossa história”, diz a estudante.

Dona de casa Edna Santos, 53, veio de São Paulo apenas para visitar o túmulo do ídolo. (Foto: Rayane Felix)

Comércio e música

Flores e velas dão a cor e o cheiro no Dia de Finados

Na porta do cemitério, comerciantes vendem flores e velas. Um vaso de rosas, por exemplo, pode custar entre R$ 15 e R$ 20, mas no final do dia, se o cliente pechinchar, pode sair por R$ 8,00 “e ainda é boa para plantar”, oferece a vendedora.

Um grupo de amigos, de diversas profissões, aproveitam a data para tirar um dinheiro extra vendendo velas. Compram várias caixas no atacado e oferecem aos visitantes. Três pacotes, com oito velas cada, sai por R$ 10,00. “A gente brinca, se diverte, e ainda tira um dinheiro. Melhor que passar o dia trabalhando de servente de pedreiro”, explica um dos vendedores. Eles tiram entre R$100 e R$200 de lucro.

A cantora Denise Gomes, 45, montou uma tenda para vender seus CDs de música religiosa. Ela se dispõe a cantar em velórios de pessoas desconhecidas desde que sua avó morreu, há sete anos. “Quando ela faleceu, eu estava cantando com violão e pessoas de outros velórios começaram a me convidar”, conta. Agora, “Quando tem velório, as meninas da recepção [do cemitério] já me ligam”.

Além de divulgar seu trabalho, Denise quer trazer consolo para essa parte difícil da vida, de quem perde uma pessoa querida. Católica, também se apresenta em enterros de outras religiões. “Eu canto também para evangélico e espírita, porque Deus é um só nesse momento”.

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