Pesquisa da UFG aponta apagamento da memória do Césio-137 em Goiânia
Redação Online
Publicado em 30 de março de 2026 às 18:06 | Atualizado há 4 meses
A recente repercussão da minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix, reacendeu o debate
Uma dissertação da pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), expôs como decisões oficiais e discursos institucionais contribuíram para minimizar a tragédia do Césio-137 ao longo das décadas. O trabalho identificou um processo sistemático de apagamento da memória das vítimas e classificou o fenômeno como “silêncio da conveniência”, marcado pela omissão de informações e pela tentativa de reduzir o impacto político do desastre ocorrido em 1987.
O estudo indicou que havia indícios de contaminação dias antes do anúncio oficial, mas a comunicação foi adiada para não comprometer um evento internacional realizado na cidade. Nesse período, a radiação já circulava entre moradores. A pesquisa também apontou mudanças urbanas simbólicas, como o isolamento da antiga Rua 57, sem identificação histórica, e a alteração do nome da Rua 26-A, no Setor Aeroporto, como estratégias para afastar o estigma radioativo.
Locais diretamente afetados pelo acidente passaram por transformações que dificultam a preservação da memória coletiva. Áreas como a Rua 6, no Setor Central, e residências na Rua 15-A foram pontos de contaminação, mas hoje carecem de sinalização ou reconhecimento público. Segundo a pesquisadora, a falta de registros e espaços de memória faz com que novas gerações conheçam mais tragédias internacionais do que o maior acidente radiológico ocorrido fora de uma usina nuclear.
Célia viveu a cerca de 100 metros do ferro-velho onde a cápsula foi aberta. Grávida e com uma filha pequena, passou por monitoramento constante, enquanto familiares e vizinhos enfrentavam o medo da contaminação. Ela relembrou episódios pouco documentados, como o sacrifício de animais e o isolamento social das vítimas, além da revolta de famílias que sequer puderam se despedir dos mortos. A ausência de um memorial oficial reforça, segundo ela, o abandono histórico.
A recente repercussão da minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix, reacendeu o debate sobre o acidente e ampliou o alcance do tema, inclusive fora do Brasil. A pesquisadora avalia que a produção pode estimular a busca por informação e contribuir para que a história não seja esquecida. O desastre, iniciado após a abertura de um aparelho de radioterapia abandonado, contaminou centenas de pessoas, deixou quatro mortos e impactou milhares de vidas, com efeitos que ainda persistem.
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