Pobres reclamam que se sentem discriminados no SUS, diz pesquisa
Redação DM
Publicado em 3 de junho de 2015 às 02:51 | Atualizado há 11 anosPesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou ainda que 15,5 milhões de brasileiros com mais de 18 anos (10,6% da população) já se sentiram discriminados na rede de saúde, pública ou privada. A pobreza é a causa da maioria das ocorrências de discriminação na saúde.
De acordo com o IBGE, o Brasil possui cerca de 65 milhões de residências. Para a realização da pesquisa, os entrevistadores estiveram em mais de 80 mil domicílios. Na metodologia utilizada pelo IBGE, os entrevistados puderam assinalar mais de um motivo para justificar a razão pela qual se sentiram discriminados.
A maioria disse ter sido tratada de forma diferenciada por motivos de natureza econômica: 53,9% em função da falta de dinheiro e 52,5% em razão da classe social. Pouco mais de 13% afirmaram que haviam sido vítimas de preconceito racial; 8,1% responderam religião ou crença e 1,7% relatou que foi vítima de homofobia.
Para as Nações Unidas (ONU), a pobreza deve ser medida não apenas de acordo com a renda, mas com as privações que os indivíduos enfrentam para ter qualidade de vida. Conforme Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2014, o Brasil tem 6 milhões de pessoas que vivem em situação de pobreza. Esse número inclui cidadãos brasileiros que não têm renda, acesso à educação ou a saúde.
O açougueiro Luciano do Valle do Nascimento, 32 anos, sabe bem como é viver com essas privações. Ele diz que após um desentendimento levou uma facada no braço. Devido ao “descaso da saúde pública”, prestada de forma precária, ele acabou perdendo o movimento, o que o impossibilitou de trabalhar dignamente.
Hoje Luciano sobrevive catando material reciclável: “Trabalhei como açougueiro durante 14 anos, mas como perdi o movimento da mão não tenho como trabalhar mais”, conta. Ele diz que a negligência preconceituosa começou com a forma de tratamento que recebeu. Quando precisou da saúde pública em Goiânia não a obteve.
“Fui para o Cais do Novo Mundo, mas o médico me atendeu muito mal, deu os pontos no meu ferimento e disse ‘vou testar: se prestar prestou. Se não prestar a gente manda para o Hugo’. Deixei ele realizar o procedimento porque estava perdendo muito sangue e como não tenho plano de saúde só tinha essa saída”, recorda.
Na última semana, o caso de atendimento emergencial dos apresentadores globais Huck e Angélica trouxe à tona o que os resultados da pesquisa do IBGE mostram. Na ocasião, o coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Eduardo Cury, em Campo Grande, foi irônico: “Eu aplaudo a rapidez e só quero que esse tratamento seja dado para todos os pacientes, mas o critério que foi usado para eles, posso garantir, não é o mesmo usado para quem precisa e alguém tem que defender o pobre nesse País”.
Durante as acusações, Cury disse que tinha pacientes aguardando leitos na Canta Casa, inclusive uma paciente enfartada. Enquanto isso, os globais recebiam tratamento vip, mesmo com apenas a suspeita de que algumas costelas estariam quebradas.