Reino Unido avalia perdas se abandonar UE
Redação DM
Publicado em 26 de dezembro de 2015 às 06:45 | Atualizado há 11 anosLONDRES — Enquanto o primeiro-ministro britânico, David Cameron, prepara o terreno para o que parece um inevitável plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), diversos segmentos da sociedade se debruçam sobre planilhas para medir na ponta do lápis os riscos de uma eventual saída do bloco continental. E eles não são poucos. Bancos, empresas transnacionais, produtores rurais e cientistas resolveram se lançar em campanhas pró-Europa antes mesmo do anúncio formal de uma data para a consulta à população.
A comunidade científica foi uma das primeiras a se organizar. Teme-se que, ao deixar a UE, o país perca dinheiro, relevância e prestígio entre as universidades e as pesquisas realizadas mundo afora. Hoje, o Reino Unido é a segunda nação que mais recebe recursos europeus para pesquisas e inovação, perdendo apenas para a Alemanha. Foram 6,9 bilhões de euros de um total de 55,4 bilhões, considerando apenas os fundos competitivos do programa Framework 7, no período de 2007 a 2013. Do total destinado ao setor para Estados-membros, associados e terceiros países, os britânicos ficaram com nada menos que 8,8 bilhões de euros no mesmo período, a quarta maior fatia do orçamento.
— Há três áreas de risco: a participação britânica no programa de ciência da UE, o livre movimento de cientistas europeus (britânicos inclusive) dentro da Europa e a capacidade do Reino Unido de estabelecer políticas relacionadas à ciência com os seus vizinhos — explica o cientista Mike Galsworthy, diretor da campanha Cientistas Pela Europa.
CONTA CARA NO SUPERMERCADO
Relatório do Agra Group garante que os produtores rurais seriam devastados por uma eventual saída da UE. Sobreviveriam apenas os 10% mais inovadores e lucrativos, que poderiam se dar o luxo de continuar no mercado sem a ajuda da Política Agrícola Comum, a PAC, como é conhecida a política de subsídios agrícolas dos europeus. Estima-se que 60% da renda dos produtores britânicos venham da PAC e dos incentivos ambientais. O fim do livre trânsito de trabalhadores teria impacto direto sobre os custos da produção rural, que hoje se vale de mão de obra estrangeira, mais barata do que a local.
Os exportadores se veriam impedidos de vender para o resto da UE estando fora do bloco. É claro que o governo teria de buscar uma saída negociada para que a produção britânica pudesse continuar sendo exportada para o bloco, como acontece com países que hoje não pertencem formalmente ao grupo, como a Suíça. No entanto, um acordo desse porte poderia levar anos para sair do papel.
— A exclusão do mercado único aumentaria os riscos de rompimento do comércio com a UE. E há um potencial de queda para os investimentos estrangeiros diretos no país — alerta o especialista em Política Europeia e Relações Exteriores do King’s College London, Anand Menon.
Financiada sobretudo por empresas, a campanha Britain Better Stronger in Europe (Grã-Bretanha melhor e mais forte na Europa, em tradução livre) afirma que ser parte da UE torna a economia do país mais forte, ajuda empresas pequenas e grandes, cria empregos para britânicos e oferece às famílias preços mais baixos. “Metade de tudo o que vendemos para o resto do mundo, vendemos para a Europa”, afirma um texto da campanha. Grandes empresas como a Boeing e montadoras de carros japonesas ameaçaram deixar o país, se o Reino Unido sair da UE.
A Confederação da Indústria Britânica (CBI, na sigla em inglês) estima que três milhões de empregos estão vinculados ao comércio com a UE. Os organizadores da campanha sabem que os argumentos aparentemente subjetivos para o cidadão comum podem não ser suficientes para garantir o voto pela permanência. E, por isso, destacam que ficar na UE significa contas de supermercado, voos para outros países europeus e ligações em mais baratos.
roaming
Na semana passada, foi publicada a lei que regula o plebiscito. A consulta pode acontecer até o final de 2017, e o governo deverá publicar antes um relatório com informações sobre os resultados das negociações junto à UE. Um dos maiores temores de especialistas é que a consulta seja feita sem que a população esteja informada. Esta é também uma preocupação do governo britânico. David Cameron já avisou que fará campanha pela permanência.
A estratégia de anunciar o plebiscito ainda durante a campanha que o elegeu em maio deste ano tem se mostrado arriscada para Cameron. Quando considerou a ideia pela primeira vez, mais da metade da população era favorável a ficar na UE. A iniciativa teve o duplo objetivo de apaziguar os eurocéticos de dentro do próprio partido (quase um terço do total) e resolver disputas internas, além de agradar de alguma maneira os quatro milhões de eleitores do partido antieuropeu de ultradireita Ukip.
A última pesquisa de opinião indicou que 47% da população britânica são favoráveis à saída da UE, 14% estão indecisos e apenas 38% querem continuar no bloco. Tudo isso aumenta o trabalho do primeiro-ministro para tentar convencer as pessoas.
FÔLEGO PARA O SEPARATISMO ESCOCÊS
Um outro risco é que o plebiscito sirva de munição para uma nova tentativa do Partido Nacionalista Escocês (SNP) de se separar do Reino Unido. Há pouco mais de um ano, a legenda conseguiu a realização de uma consulta sobre a permanência da Escócia. A maioria da população votou contra a separação. Mas a porta se abre para uma nova consulta, caso os britânicos resolvam deixar a UE. Os escoceses são majoritariamente favoráveis a permanecer no bloco.
— Eles provavelmente farão outro plebiscito sobre a independência, se o Reino Unido realmente deixar a UE — afirma Menon.
Dentro do governo, já se prepara uma campanha sobre os riscos da saída. Foi assim que convenceram os escoceses a ficar. Mas não está claro se isso será um argumento definitivo.
— Há chance de que, ainda que os britânicos votem por ficar, tenhamos outra consulta sobre a Escócia— diz Menon.