UEG mira Medicina e prepara cinco cursos de Direito
Redação DM
Publicado em 22 de setembro de 2016 às 02:10 | Atualizado há 1 anoO reitor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Haroldo Reimer, tem a voz mansa, semblante pacífico, pensa para falar e não esconde suas opiniões mesmo sob a escolta da parafernália estatal – que vigia seus subordinados e tenta padronizar suas ações e opiniões.
Educador, ele profissionalizou a UEG, antes uma espelunca caindo aos pedaços e sem perspectiva de evolução e participação ativa nos grandes eventos científicos do Brasil. Ainda é tímida em vários parâmetros de avaliação. Mas tem avançado.
Manchete por conta de desvios de recursos e improbidades na década passada, a unidade de ensino passou a enfrentar a luta dos estudantes que gritavam, com razão, pela melhor qualidade de ensino – tanto dos professores quanto da infraestrutura. Das lutas e passeatas surgiram melhorias.
Humilde, Reimer sabe que está ainda longe do meio do caminho. Reconhece a necessidade urgente de restaurar a antiga Eseffego, patrimônio físico da educação goiana, hoje abandonado no Setor Vila Nova.
Em visita ao Diário da Manhã, o reitor mostrou um catálogo de boas notícias. A UEG se prepara para estabelecer o curso de Direito em cinco cidades do Estado e já iniciou os estudos para o curso de Medicina – sonho ainda distante, mas que teve iniciados os fundamentais preparativos.
As notícias polêmicas, todavia, estão nos editais da UEG. Reimer instituiu uma relação de 1,2 candidato por vaga para manter ativo qualquer curso da instituição. Ancorado em um órgão colegiado, ele diz que a UEG não pode mais desperdiçar recursos públicos e deixar vagas ociosas. Aplica, assim, o princípio da economicidade que orienta os atos administrativos.
Ainda nesta entrevista, o educador opina sobre outras polêmicas, como o substabelecimento das políticas educacionais aos índices de organismos como Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), defende o debate sobre Organizações Sociais (OSs) na educação e pede mais escolas de tempo integral.
Entrevista na íntegra
DM – Existe uma cultura no Brasil: a de não investir em ciência. Um post que circula nas redes sociais diz que quem financia a pesquisa no País é o pai do estudante, pois as bolsas que eles ganham são ridículas. A UEG tem feito o que para melhorar esta situação?
Haroldo Reimer – Nós estamos saindo de uma fase, de 15 e 20 anos, no Brasil, em que tivemos investimento significativo. O CNPq tem se esforçado para equipar o Brasil e fazer ciência. Estamos na 12° e 13° colocações em produção intelectual por artigos publicados. Temos muito o que fazer. Os críticos dizem [e talvez tenham boa dose de razão] que bastante material produzido é irrelevante para alavancar a ciência e inovação. Talvez tenhamos em breve uma superação. A UEG tem papel extremamente relevante em Goiás, pois opera pela complementariedade de outras instituições. Muito antes do sistema federal pensar a interiorização, a UEG já fazia isso. Então se hoje encontramos em Campos Belos pessoas que sabem ensinar português o motivo é: tiveram um curso da UEG para formá-las.
DM – Mas a UEG tem feito algo para melhorar a produção científica?
Haroldo Reimer – Avançamos muito. Quando assumi, em 2012, tínhamos dois mestrados; hoje temos dez. O primeiro doutorado começou neste ano e quem sabe possamos aprovar mais um doutorado e outros dois mestrados também em 2016. Para atender esta questão da produção, criamos uma bolsa de incentivo ao pesquisador, contemplamos em torno de 80 pesquisadores com ela. Esse pesquisador ganha R$ 1.100 ao mês. Se tiver que publicar, traduzir para inglês ou francês, tem esse recurso. Estamos implementando nossos contatos com outros espaços de ciência. Escolhemos áreas estratégicas, como o segmento agrícola, que é bastante forte no Estado. Optamos por Liège, na Bélgica, o melhor centro europeu de melhoramento genético dos animais, que tem nos ajudado. Temos realizado a imersão de inglês tendo em vista a capacitação para nossos pesquisadores atravessarem as fronteiras. Para isso, trouxemos professores dos Estados Unidos tendo em vista melhorar o inglês dos nossos estudantes. E nos integramos em redes, com setores produtivos, com a Fapeg (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás).
DM – Mas reitor, existe algo de concreto em termos de produtividade, como algum sucesso dentre startups?
Haroldo Reimer – Com certeza. Temos um programa de incubação de empresas desde 2009, o Proin, o Programa de Incubadoras vinculado à Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Estudantis. Hoje ele está dentre os dois melhores do Estado, senão melhor. Nossa incubadora foi selecionada pela Universidade de Oslo dentre as 300 melhores incubadoras do mundo. Já incubamos um conjunto de projetos. Vou dizer um que é case de sucesso. Temos uma empresa de cosméticos, de Caldas Novas, que começou com uma aluna de Farmácia, que descobriu um princípio ativo no baru e jabuticaba. Ao lado do professor, ela desenvolveu a fórmula. Dois anos e meio depois, ela tem uma empresa que vale meio milhão de reais. Criamos a Agência de Inovação e Transferência de Tecnologia no ano passado e nos espelhamos na Agência da USP, que capta quase R$ 1 bi em diferentes projetos. Estamos no começo, mas felizes, pois já iniciamos esse momento.

DM – A grande reclamação da UEG sempre foi infraestrutura. Melhorou?
Haroldo Reimer – Em Anápolis, tínhamos uma das faculdades mais antigas, que está na base da UEG, depois ela virou a Uniana e hoje é UEG. Aquele prédio estava deplorável, como também está, hoje, o prédio da Eseffego. Nós reformamos o prédio de Anápolis. Ocorreu uma melhora de 70%. Não é a reforma que eu imaginava ou que deveria ocorrer. Poderia ser bem melhor. Mas pelo menos do ponto de vista das reclamações dos usuários, posso atestar, elas desapareceram. Agora finalmente estamos com os projetos de reforma da Eseffego já concluídos. Aguardamos parecer do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária para iniciar a licitação de uma obra que deverá custar entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões. E quem sabe voltar um pouco do brilho da antiga Escola Superior de Educação Física do Estado de Goiás. Agora, precisamos levar em conta que a UEG é multifacetada. Se você vai em Itumbiara, lá tem uma UEG com prédio novo, com piscina, quadra coberta, pista de atletismo, campo de futebol, etc. Lá não tem reclamação. Se você vai em Ceres, Aparecida, Crixás não teremos, enfim, estas reclamações.
DM – Como está no Entorno?
Haroldo Reimer – Temos em Formosa e Luziânia. Queremos ampliar. Agora em Luziânia encontramos problemas de gestão. Aquela situação: você chega e não tem papel higiênico. Em outras unidades, às vezes tem toalha e até sabonete. Todo meu trabalho tem sido buscar com celeridade atender estas demandas. Luziânia passou por abandono, falta de gestão, que depende do olhar do administrador.
DM – Que políticos carrearam emendas orçamentárias para a UEG?
Haroldo Reimer – Temos um conjunto que nos ajudou. O deputado federal João Campos, Ciro Miranda, ex-senador, o deputado Jovair Arantes, Célio Silveira, agora o Giuseppe Vecci, tem a Flávia Morais, o Vilmar Rocha, o Carlos Lereia. Tentamos construir melhor nosso relacionamento com esta bancada. Há pouco tempo, eles até colocavam a UEG nas emendas, mas a execução não era célere por nossa culpa. Estamos criando a gerência de captação de recursos para cuidar destas tratativas externas que captam recursos para a universidade.
DM – É verdade que a UEG poderá descontinuar alguns cursos ainda que temporariamente?
Haroldo Reimer – Realizamos nossa 99 º sessão plenária do Conselho Universitário, o órgão superior da universidade, que conta com 73 pessoas, parte eleita pela comunidade, parte da própria universidade. Fizemos algumas intervenções. Substituímos cursos e criamos outros, como Medicina Veterinária, em São Luís. Teremos, por exemplo, Hotelaria em Caldas Novas. E aprovamos uma tentativa de superação dos cursos com baixíssima demanda. Verificamos que tínhamos 2 mil vagas, muitas em licenciaturas. Inserimos no edital do vestibular o patamar de 1,2 candidatos por vaga sob pena de suspender o curso para aquele ano. É tolerância zero com vagas ociosas, pois penso que isso é dinheiro público jogado fora. Tem gente que já esboçou críticas, mas estou tranquilo com a descentralização do ônus desta tomada de decisão. É uma decisão coletiva.
DM – Pelo visto a faculdade vai se submeter ao mercado então?
Haroldo Reimer – O perfil da profissão é um das causas e pode ser que naquela cidade ela esteja saturada. E também pode ser que o curso esteja em um momento de fragilidade, sem coesão da proposta pedagógica.
DM – Sob este argumento, vocês pretendem investir mais em cursos que atraem os estudantes?
Haroldo Reimer – Já investimos. Temos Engenharia Civil, Agrícola, Florestal, etc. A Medicina já tem projeto em andamento. Como é mais caro, exige reserva orçamentária. Então existe conversa que precisa ainda ser amadurecida, mas o curso seria sediado em Itumbiara. Já existe curso em Anápolis, Aparecida e em Goianésia, perdemos o momento histórico, a universidade que oferece Medicina, a UniRV, já usa salas da UEG. Agora, em Itumbiara, temos Farmácia e Enfermagem e em breve Fisioterapia. Medicina iria coroar este centro de saúde.
DM – Mas existem regiões mais problemáticas e que precisam de investimentos em saúde, como o entorno do Distrito Federal.
Haroldo Reimer – É uma opinião que ouvi. Não existe decisão tomada ainda.
DM – E Direito?
Haroldo Reimer–Direito já existe uma certa pressão para abrirmos em cinco lugares: Morrinhos, Pires do Rio, Palmeiras, Aparecida e Uruaçu. Já estão todos com projetos pedagógicos adiantados. Ano que vem tomaremos a decisão de montar estas escolas.
DM – A má educação na base atrapalha o ensino universitário. Como o senhor observa os resultados do Ideb?
Haroldo Reimer – Não dá para negar que foram feitos esforços. Poderíamos pensar em mais escolas de tempo integral. E que os estudantes não fossem liberados tão cedo e demasiadamente expostos às mídias que não exigem a leitura, pois meu referencial teórico indica que uma mente que lê é muito mais complexa. Nas escolas, as crianças leem muito pouco. É preciso superar um dilema: o aluno avançar sem reprovação. Se você não é confrontado com limitações, então você não sabe nem como superá-las, pois não sabe que elas existem. Existe algo pior: até no nível de mestrado recebemos gente que não sabe escrever, pois pensam que outras pessoas podem fazer isso por eles.
Então, em resumo, índices dizem muita coisa, mas não dizem tudo: se mostram importantes para aferir o que está acontecendo no processo todo. E acho que temos muito ainda que investir.
DM – O senhor é crítico em relação às Organizações Sociais (OSs)?
Haroldo Reimer – Não acho que deve ser universalizado, mas as defendo como experiência social para acompanhar desde seu nascedouro e assim melhor avaliá-las.
“Poderíamos pensar em mais escolas de tempo integral. E que os estudantes não fossem liberados tão cedo e demasiadamente expostos às mídias que não exigem a leitura, pois meu referencial teórico indica que uma mente que lê é muito mais complexa”
“Os críticos dizem [e talvez tenham boa dose de razão] que bastante material produzido é irrelevante para alavancar a ciência e inovação. Talvez tenhamos em breve uma superação”