Uma arroba de aço
Redação DM
Publicado em 2 de dezembro de 2015 às 21:57 | Atualizado há 11 anos“A Existência da morte tira todo o atrativo da vida, de consequência, a vida torna-se uma mera ilusão.”
(Ubyratan Fernandes Rosa, poeta possense)
Nas nossas sérias conversas de bar, o assunto varia, invariavelmente, de mulher a achaques, quem morreu, quem pulou o cambão e quem, por negligência com o diabetes, do desleixo com a próstata e a cardiopatia descontrolada está encomendando a alma ao Santíssimo. O Duca, lembram dele? – Pergunta um vestindo a armadura de prata contra o exame do toque retal – Sim, o Duca, grande Duca, aquele garanhão que as mulheres disputavam no tapa?… Pois é, depois de se ver com o urologista a quantas andava a sua (dele) glândula exócrina, começou a falar fino, deixou crescer a unha do mindinho logo depois que levou a dedada no fiofó. E com o fito – continua esse um – de quebrar o tabu de que macho que é macho não se deixa que lhe invadam o seu desenxovalhado zédabroquinha, o filhodumaronquifuça fez um selfie e distribuiu no watsApp com o argumento inolvidável de que o exame é muuuiiiito saudável, alma e corpo ficam deverasmente agradecidos. Olhem aqui as fotos. Agora eu pergunto: Precisava desse frenesi do beiço de riba morder o beiço de baixo revirando os olhos como se estivesse comendo um quindim lá na Bahia de São Salvador? – Finalizava este cofiando um bigodão, indignado. De repente, o lengalenga se desvia do que é considerado uma imoralidade e começa outro (pior ainda) sobre modos de vida das gerações, a dos que se comportam como dinossauros (a nossa?) e essa atual, moderna, de homem casar com homem e mulher casar com mulher e esse mesmo homem apresentar-nos seu legítimo e legal esposo e essa mesma mulher (boazudas, sô!) apresentar-nos sua legítima e legal esposa. Assunto de grande complexidade, de difícil digestão para nós acostumados a mastigar abelha sem olhar pra cara do mel. O tempo fecha com imprecações de todos os calibres, pragas são rogadas, desejos de se transportar para o ano três mil antes de Cristo, onde já se viu uma coisa dessas, cruz-credo!
Assim que se pede mais uma saideira, outro assunto da maior gravidade (juventude e velharia caquética) entra na pauta com prioridade para o sênior e o júnior (O Júnior sou eu) se manifestarem em primeiro lugar. Discussão acalorada sobre os ímpetos da juventude empreendedora e o devagar com o andor que o santo é de barro é subitamente quebrada com o congelamento de olhares sobre um monumento de mulata que vinha caminhando dentro dum short do tamanho de um dedal, varrendo o mundo com um olhar que flechava o peito da gente e se indo balançando os quadris num cadenciado que só se vendo meu Deus do céu até chegar numa esquina, virar-se para nós e sorrir um sorriso de Capitu e dar um adeusinho com um beijo assoprado na nossa direção para logo desaparecendo do ângulo das nossas vistas. Desvencilhados do abraço entorpecente, ouve-se de muitos de nós o lamento da perda da mocidade, da robustez esmaecida, fazendo-nos mensurar a vida por uma balança emocional, embaralhamos tudo e não sabemos diferenciar a essência de uma arroba de aço e uma arroba de plumas. Daí me lembrei do imortal João Ubaldo Ribeiro: “O grande mal da nova geração é que a gente não pertence mais a ela.”
(Alcivando Lima, escritor – [email protected])