Cotidiano

Vômito virtual vira hit na internet

Redação DM

Publicado em 29 de maio de 2016 às 17:54 | Atualizado há 10 anos

Os internautas brasileiros não perdem a chance de fazer uma boa piada. Para cada acontecimento novo da política, economia ou cotidiano, o brasileiro inventa um novo “meme”, que acaba bombando na internet. Foi assim com a copa do mundo, com a transmissão do Oscar e, recentemente, com o afastamento da presidente Dilma Rousseff. A internet também vem sendo palco de protestos políticos, e, como a marca do brasileiro é o humor, os protestos sempre apresentam boas doses de sarcasmo e ironia.

Uma nova mania tem se tornado popular e ganhando número crescente de adeptos entre os internautas que usam as redes sociais como ferramenta de protesto: o vômito. A imagem do emoticon vomitando tem sido diariamente usada nas redes sociais como arma de ataque a tudo que os internautas discordam e/ou acham repugnante em relação a diversos assuntos, mas principalmente no que diz respeito à política. A postagem em massa desse emoticon ganhou nome, página própria e mais de 100 mil adeptos.

A página do presidente em exercício, Michel Temer, no Facebook, por exemplo, recebe dezenas de vômitos diariamente. Segundo a página do Vomitaço na  mesma rede social, no último dia 23, a página do Jornal Nacional recebeu mais de 240 mil emoticons de vômito em meia hora. Isso por ter afirmado que a gravação de Romero Jucá divulgada na mídia não poderia ser exibida por completo devido à má qualidade do áudio.

Insatisfação política

O Diário da Manhã procurou os criadores da página do Vomitaço no Facebook para conversar a respeito da grande repercussão que a página vem alcançando entre os internautas. Os responsáveis pela página são dois cariocas, pai e filho, de 44 e 22 anos, que preferiram não revelar seus nomes para proteger suas identidades. Ambos, porém, trabalham com comunicação e jornalismo na cidade em que residem, Rio de Janeiro.

A página surgiu para denunciar o que os administradores consideram como golpe político em curso no Brasil. “A nossa chateação não se deu por governo A ou B ter saído ou entrado no poder, mas da forma em que se deu o processo. Foi uma trama previamente armada. Daí, nessa chateação que sentimos, meu filho foi até a página do PMDB e na do Michel Temer no Facebook de deu uma vomitada. Quando ele me contou o que fez e eu fui lá ver, havia muitos outros vômitos de muitas outras pessoas. Daí surgiu a ideia de juntar todas as pessoas que se sentiam revoltadas, criar cyber ativistas”, conta ele. Assim surgiu a página do Vomitaço, que atualmente está com mais de 134 mil seguidores.

Os entrevistados explicam que a página é administrada basicamente por eles mesmos, mas que recebem ajuda de alguns amigos, entre designs e jornalistas. Afirmam que o intuito da página é sim olhar para os acontecimentos políticos do país com uma pegada de humor, mas principalmente crítica. “É como se a gente desse um sacode nas pessoas que estão errando e dizendo ‘perai, você está me causando ânsia de vômito! Isso está me causando mal estar’. Nós somos da paz, não derrubamos e nem invadimos páginas, mas incomodamos chamando a atenção”, explicam os responsáveis pela página.

Os entrevistados afirmam também não saber até quando vão manter a página no ar. “A gente ainda tem muitas dúvidas sobre isso. É um investimento grande de tempo e de valores. Acreditamos no nosso projeto, acreditamos que o Brasil precisa de uma orientação e tiramos recursos do próprio bolso. A ideia inicial era de manter a página para sempre. Mas agora não sabemos mais, pois não dá para manter a página no ar na base do idealismo. O futuro do vomitaço é incerto por falta de grana, pois se investimos tempo, o nosso serviço, o ganha pão, precisa parar”, defendem.

Alvos

Os principais alvos dos vomitaços, segundo os entrevistados, são os inimigos públicos, constitucionais e da democracia que agem descaradamente ou disfarçadamente contra a nação brasileira. Os principais alvos, eles explicam, são os que causam maior mal para a nação brasileira. “E esse não é um discurso barato não. Até por isso a gente não coloca nossa cara ali, pois não temos a intenção de ganhar nada com isso. A gente quer alertar a população que atrás de cada emoticon vomitando há um cidadão brasileiro revoltado. A página tem essa pegada do humor, mas por trás desse humor existe algo muito maior que deve ser levado em consideração: a revolta”, explicam.

O vomitaço que teve maior alcance foi o promovido na página da TV Globo (mais especificamente na página do Fantástico), que ultrapassou a marca dos 500 mil. Além da rede Globo,  a página do PMDB e do Michel Temer também mostram números expressivos de vômitos. A página do Aécio Neves também recebeu grande número de vomitaços, mas, segundo os entrevistados, os vomitaços não somente eram apagados, mas as pessoas que os promoviam eram bloqueadas pela página do ex candidato à presidência. Eles explicam que o maior vomitaço da história ainda não aconteceu, mas já tem data: 1º de junho, contra o deputado Jair Bolsonaro.

Os administradores contam que a repercussão da página tem sido bastante grande. Eles estão sendo procurados até pela imprensa internacional, essa semana deram entrevista para a quarta equipe de imprensa francesas. “Ainda não sei se o vomitaço deu algum resultado na política. Esperamos que dê sim, pois é por isso que estamos fazendo o que fazemos. A facilidade da comunicação hoje por meio da internet acaba dando a impressão que os cyber ativistas vão estar cada vez  mais frequentes nas redes sociais. As Cyber manifestações tendem a crescer na internet”.

 

[box title=” Protestos tomam conta da rede”]

Vanuza Monteiro Campos Postigo, 47, psicologa pela PUC Rio, mestre em psicologia pela UFRJ, doutora em psicanálise pela UFRJ e consultora na área de família, sociedade digitalizada e internet, em entrevista concedida ao Diário da Manhã explica que os protestos na internet são um meio de o cidadão comum se fazer ouvir em suas opiniões e direitos a partir de seu ponto de vista. Isso porque, ela explica, até bem pouco tempo poucos e poderosos detinham o poder da informação e da comunicação, tornando exclusivo o monopólio da informação.

“Isso mudou porque hoje qualquer um que tenha um smartphone e acesso a internet pode colocar seu proprio “jornal” no ar”, ela comenta, e lembra a diferença que os internautas fizeram na eleição do atual presidente dos Estados Unidos, Barak Obama. “Movimentos políticos e sociais ganharam espaço e visibilidade fundamentais nas redes, desde uma campanha como a do Primeiro assédio até aquele na Colômbia, “Uma voz contra as Frac”, que redundou naquela operação do Brasil, Bolívia e Colômbia que resgatou centenas de prisioneiros a partir de uma página do Facebook criada por um colombiano de Barrnquilla”, explica.

Vanuza defende que esse empoderamento que o uso das redes possibilitou ao cidadão comum é uma grande conquista politico-social do sujeito contemporâneo. “Só falta que possamos aprender a lidar melhor com essa ferramenta, pois a internet também deu, como diz Umberto Eco, a voz a ula legião de imbecis”.

A psicóloga explica que os protestos na Rede tem um potencial de viralização e denúncia com um alcance bem maior que aqueles na rua, mas não acredita que os protestos feitos na rua irão acabar. “O virtual não vai se sobrepor ao real, creio que essa conjugação vai ser cada vez mais próximas e mutuamente necessária. Se antes para uma marcha as pessoas tinham que imprimir e distribuir panfletos fisicamente, que demandava tempo e organizaçao, hoje uma mensagem de texto convoca em tempo real. Pode ter ou nao o mesmo impacto, depende da liderança do movimento e da densiadadee sustentaçao das causas. O virtual nao vai substituir o presencial, eles se complementam. Mas temos que lembrar que estamos ainda na adolescência da internet, é um instrumento recente com absurdo poder e qua ainda estamos aprendendo a manejar” alerta elaa.

Sobre a marca do brasileiro ser o tom jocoso de lida com os acontecimentos, Vanuza explica que o humor é subversivo, sendo que por si só já ameaça o poder. “Daí seu poder de transformação, ao quebrar regras e descentrar verdades. O humor é também catártico e um grande recurso de inteligencia para lidar com algo que nos incomoda, como explica Freud. É uma maneira de se poder falar tudo aquilo que se deseja esvaído de virulência e agressividade, travestido de piada”, informa ela.

Vanuza, por fim, afirma que a tecnologia em si não é boa ou má, pois depende do uso que se faz dela. “Penso que o humor é uma excelente ferramenta para lidar com o mal estar, com a indignação, com a revolta e impotência e tem grande potencial transformador. Mas é apenas parte do que que um protesto ou um movimento politico deve mobilizar”, finaliza.[/box]

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