18° Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo chega a Goiás pela primeira vez
Redação DM
Publicado em 31 de março de 2017 às 02:46 | Atualizado há 1 ano
Acontecerá em Goiânia, entre os dias 10 e 17 de julho deste ano, a 18ª Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo, no Clube dos Bancários da Vila Itatiaia. Está previsto o comparecimento de cerca de 700 artistas de todo o mundo. Pela primeira vez em Goiás, a Convenção Brasileira realizará a 1° Edição da Noite das Mulheres, que visa debater o machismo dentro do Circo. Outro diferencial proposto pelo Coletivo É Só Querê Fazê é trabalhar a Sustentabilidade e a Educação Ambiental, convidando os artistas circenses a colaborarem em todos os âmbitos de organização do evento, desde a coleta seletiva do lixo produzido no evento, até a limpeza do local, e o consumo de produtos orgânicos de produtores locais.
Entrevista com Jhony Robson (Bulacha), Suedmar Nascimento (Saracura do Brejo) e Larissa de Paula, do Coletivo É Só Querê Fazê:

DM Revista: Como se deu a formação da Trupe Trip Trapo?
E.S.Q.F.: Nós trabalhamos juntos desde 2008, é composta por malabaristas de rua que se envolveram muito na cultura geral da cidade. Durante um tempo, nós já éramos conhecidos como a “galera dos malabares” mas não tínhamos nome. Veio desse esforço de sermos reconhecidos. Nós já estávamos envolvidos em todos os âmbitos culturais da cidade mas não tínhamos esse reconhecimento. Começamos em 2008 com nossas performances em coletivo, levando música e circo juntos. Pegamos a música regional e transformamos junto com a contação de história e daí saiu o grupo artístico. o grupo de produção já existia, que é o Coletivo É Só Querê Fazê. A partir daí assumimos a produção do Encontro Goiano de Malabares e Circo. E a Trupe Trip Trapo está à frente da organização da Convenção Brasileira, que este ano é em Goiás e que vem com o propósito da “descentralização”, já que estes eventos eram sempre realizados no eixo das regiões Sul-Sudeste. Enquanto artistas goianos, quando vamos nos apresentar fora, sempre levamos o nosso estilo particular, que é um estilo colaborativo, de estar fazendo mais do que aquilo que o festival te convidou para fazer. Sempre atuamos em diversas áreas, o que nos fez ter uma maior capacidade de produção.
DM Revista: Quais outras atividades a Trupe Trip Trapo realiza ao longo do ano, excetuando a organização e realização do Encontro Goiano de Malabares e Circo?
E.S.Q.F.: Fazemos uma articulação com os grupos na cidade, trabalhamos com nossos espetáculos solo. Este ano estamos dedicados a participar da Caravana Tapa Beco, que é uma caravana itinerante em Goiás, que passará por Corumbá de Goiás, Pirenópolis, Pilar de Goiás, Jaraguá e Goiás Velho, no próximo mês. Em junho nós apoiamos o Festival de Circo de Taquaruçu. Em julho receberemos a Convenção Brasileira. Em Agosto, o Encontro Goiano de Malabarismo e Circo. O Festival de Circo de Anápolis, em dezembro. Desenvolvemos nosso trabalho individual e em companhia. Esse é o maior diferencial da Trupe Trip Trapo (composta por Jhony Robson, Vitor Rios e Suedmar Nascimento).
DM Revista: Quais as principais dificuldades de se organizar e realizar um evento deste porte?
E.S.Q.F.: Em primeiro lugar é a falta de recurso financeiro, porque nós já nos articulamos muito bem nacionalmente e internacionalmente. O que falta mesmo é a grana. Nós trabalhamos num formato onde os artistas não são pagos para se apresentar, mas elas querem ser bem recebidas. Nosso papel aqui é conseguir esses apoios, para essas pessoas conseguirem levar seu espetáculo num bairro lá na cidade de Anápolis, no Parque Flamboyant, se apresentar lá na Feira da Marreta. Temos que conseguir levar essa pessoa, e ela se alimentar. Recebemos artistas do Cirque du Soleil para dormir de barraca. A gente se move por vontade própria de querer fazer a coisa. É um evento tão grande que transforma as pessoas. Todo mundo quer se apresentar na Convenção. É um portfólio para a vida! Serão apresentadas outras vertentes do palhaço de circo que a população não conhece. Outra dificuldade é ter de selecionar artistas de grande nível para que venham, uma vez que não podemos pagá-los. Pode ser que tenhamos uma grande demanda de uma oficina de trapézio de vôo, de um artista argentino, e nós não tenhamos como desenvolver esse aparelho por não o termos na cidade. A produção ainda é o nosso maior desafio. Nosso objetivo hoje é conseguir atrair apoio da comunidade e do empresariado para darmos mais conforto para esses artistas.
DM Revista: O nome de Goiânia para sediar a 18ª Convenção de Malabarismo e Circo foi definido em Barbacena, em 2016. Como se deu esta escolha?
E.S.Q.F.: Para o evento acontecer numa cidade é preciso que haja uma Convenção Regional. Nós não temos uma Convenção Regional, mas trabalhamos com o Encontro Goiano. Maioria das pessoas que já organizaram outras edições da Convenção Brasileira já vieram no Encontro Goiano, conhecem nosso formato e sabem que a gente se vira muito bem. Nós estudamos os problemas da própria convenção e trabalhamos formas de solucioná-los, desde 2013, que foi a primeira vez que houve interesse de trazer a Convenção para cá. É uma oportunidade de mostrar para o Circo Nacional o trabalho que a gente desenvolve aqui em Goiás. O Encontro Goiano é o que mais tem edições consecutivas, para se ter uma idéia, realizamos nove edições sem nenhum recurso financeiro, investindo dinheiro do nosso próprio bolso.
DM Revista: Um dos objetivos da 18ª Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo é trabalhar o tema da Sustentabilidade e Educação Ambiental. Como pretendem executar essa idéia? Quais ferramentas serão utilizadas?
E.S.Q.F.: Temos um plano de voluntariado. A Convenção Brasileira esse ano terá um formato de economia criativa. Então, todas as pessoas, dessas 700 que receberemos, serão convocadas a serem voluntárias dentro do evento. Teremos as lixeiras seletivas. Todas as pessoas serão selecionadas por cores, a cada 100 pessoas terão uma cor. A cor sorteada do dia, por exemplo, a verde, fará todo o trabalho de seleção do lixo, limpeza do ginásio. Isso não sobrecarregará a produção e fará com que todos os presentes se sintam parte da organização do evento. Trabalharemos a questão da economia de água, já que julho é um mês seco.
DM Revista: Na sua visão, o que mudou na cena do malabarismo e circo em Goiás desde o início do Encontro Goiano, há onze anos?
E.S.Q.F.: A primeira coisa é que quem antes fazia 3 minutos no sinaleiro, hoje tem seu espetáculo completo. O festival gerou o crescimento profissional e o reconhecimento desses artistas. Conseguimos circular em todos os lugares. Conseguimos também colocar Goiânia numa rota de festivais, de semáforo, de parque. Goiânia pela posição geográfica acaba sendo uma rota natural. Hoje nós recebemos o artista latino americano porque ele ouviu falar do histórico goiano. E esses histórico chegou até ele através da galera da rua, que faz o eixo goiano, que passou pelo Encontro. Essa semente que o Encontro plantou, floresce e essas flores são levadas para toda a América Latina. A estética do evento também mudou. Ele era uma coisa menor, justamente por não sabermos o potencial inicial daquilo que tínhamos em mãos.
DM Revista: Geralmente, os eventos de malabarismo e circo são realizado no Clube dos Bancários, na Vila Itatiaia. O evento sempre atrai a atenção dos moradores. Como vocês veem e percebem o envolvimento da comunidade nestes encontros?
E.S.Q.F.: Estamos trazendo a Convenção justamente para a comunidade porque é um respaldo que recebemos deles, ali, na hora. Estamos desenvolvendo um trabalho ali na Vila Itatiaia há muitos anos. Já realizamos encontros na Praça Universitária, na Praça Boa Ventura, mas ali no Itatiaia foi onde encontramos um ginásio que estava desativado, abandonado. A comunidade não o utilizava porque era um lugar de casos de uso de drogas. Revitalizamos o espaço, a partir daí as escolas passaram a ocupar, realizamos um trabalho de extensão com a escola e a universidade. A comunidade nos acolhe muito bem, vem artistas de vários lugares do mundo, vários idiomas são falados ali no bairro. Uma surpresa muito grande para quem está conhecendo. Nós trabalhamos a questão do “chapéu”. Vamos nas escolas e as crianças contribuem com o chapéu e recebem os espetáculos gratuitamente. E quando falamos em “revitalização do espaço”, é um trabalho complexo, desde a iluminação e a segurança nos dias de evento, até a limpeza do local, e a colaboração de artistas plásticos que ajudaram a pintar o local. E há também a questão do comércio local, que tem um aumento considerável na movimentação.
Noite das Mulheres
“Na Convenção deste ano acontecerá a primeira Noite das Mulheres, organizada apenas por mulheres. Será um espetáculo que está sendo organizado pela Fran Marinho, que é do Circo do Asfalto, de São Paulo. Ela trabalha muito essa questão da mulher no circo, que é uma coisa que nós, aqui em Goiás, trabalhamos há muitos anos na construção do Encontro Goiano. Na nossa última edição houve uma participação muito grande de mulheres. A partir disso nós continuamos trabalhando e fazendo essas articulações, daí surgiu essa idéia de fazer a 1° Noite das Mulheres. É um anseio nacional que vem desde o sul até o norte, todos estão se espelhando e fazendo. Então, o que nós queremos é levar o empoderamento da mulher para dentro do Circo, tanto dentro da produção quanto dentro e fora do picadeiro. Haverá um debate. As mulheres terão um espaço onde elas vão debater o machismo dentro do Circo. Até mesmo dentro da Convenção existem problemas envolvendo o machismo sobre as meninas que estão se apresentando. O importante é que movimentos como esse já estão sendo levados por duas linhas de espetáculo, que são o Ninguna Costilla (realizando espetáculos apenas com mulheres latinoamericanas), e o Caixa de Pandora.”
(Bulacha e Saracura do Brejo)

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