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Adoção: um ato de amor

Redação DM

Publicado em 15 de outubro de 2016 às 02:51 | Atualizado há 2 anos

Todo o conceito de família que conhecemos, assim como tudo que é sólido, pode derreter. E a boa notícia é que está derretendo para existir de uma forma mais fluida, mais abrangente e baseada no que realmente deve unir uma família, o amor e o cuidado uns com os outros.

Famílias que por algum motivo não podem gerar filhos, ou por questões ideológicas preferem não gerar, encontram na adoção uma forma de completar seus lares. Lembrando que uma família completa não consiste em ter filhos, porém algumas possuem essa necessidade.

No Brasil acontece uma relação um pouco distorcida nas relações de adoção, visto que são mais de 30 mil pais e mães pretendentes para 5.500 crianças na espera da adoção. O motivo de tantas crianças na espera são as exigências dos pretendentes a pais adotivos em relação à idade, sexo e até etnia das crianças. O perfil mais procurado são bebês de preferência recém-nascidos, de pele clara e do sexo feminino. A adoção que poderia salvar milhares de crianças do abandono acaba entravada nos preconceitos raciais e exigência etária. E deixando claro que a adoção é necessariamente voltada para o bem-estar da criança antes dos pais e mães adotivos.

Adriana Lima dos Anjos é diretora de uma escola e fala sobre o peso das questões raciais na hora da adoção. “Nos propuseram a conhecer uma menina que estava abrigada no Cevam, tinha 7 anos, havia sido devolvida uma vez, porque a família que apadrinhou com intenção de adotar não soube lidar com o racismo. Disseram-nos que a criança era negra. Imaginem, eu nunca tive problemas com isto. Acho ridículo que a cor determine as pessoas”. Adriana e sua companheira Betânia, casadas há 12 anos, adotaram duas crianças.

Adriana e Betânia, que, assim como a maioria desejavam crianças pequenas, acabaram escolhendo por adotar duas meninas com mais de sete anos de idade. Ao quebrar o perfil predominante na busca de um filho adotivo, elas conseguiram formar sua família sem uma longa espera.

O processo de adoção consiste na inscrição em um cadastro nacional de adoção. Depois da entrega da documentação inicial, antes do contato com a criança, acontecem várias entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. Só depois disso abre-se um processo de habilitação à adoção.

O próximo passo assim que encontra-se a criança desejada é um curso que prepara a família ou pretendente para a adoção. A criança também recebe uma orientação para ajudar no processo de pertencer a uma nova família. Após isso começa um período de convivência que ocorre gradualmente. Então cumprida todas essas etapas, a criança ou adolescente passa a ser legalmente membro desta nova família.

As condições para adotar são: idade superior a 18 anos com uma diferença mínima de 16 anos entre pais e mães adotivos e o menor a ser adotado, renda que possibilite aos adotantes oferecer todos os cuidados básicos à criança e ser considerado habilitado por psicólogos e assistentes sociais. A adoção não é exclusiva para casais heterossexuais, pessoas solteiras ou casais em união homoafetiva têm direito à adoção.

 

ENTREVISTA

Entrevistei Adriana Lima e ela relatou sobre o processo de adoção e a construção do amor e da maternidade ao lado de sua companheira, Betânia, e suas duas filhas:

Por que sua família escolheu iniciar um processo de adoção?

Motivada pelo desejo de ser mãe. Sempre quis ter filhos. Tenho uma companheira e fizemos a escolha de não engravidar e partir para o processo de adoção. Sempre acreditei que o amor por um filho adotado seria o mesmo que por um biológico.

 

Foi um processo longo, muito complicado?

Em partes. Como já diz é um processo. A nossa ansiedade tende a querer acelerar as coisas, mas para nós foi necessário o tempo até porque o processo de adaptação não é só da criança com a gente, mas também da gente para com a criança e para o novo estado de vida. Algumas coisas poderiam ser mais práticas, como o encaminhamento e andamento da documentação dentro do próprio juizado.

 

Você adotou duas crianças, foi ao mesmo tempo?

Sim. O processo embora fosse separado, caminharam juntos. Foi um caso não planejado. Almejávamos adotar crianças até no máximo cinco anos. Mas ao procurar o Projeto Anjo da Guarda, dentro do Juizado, nos propuseram conhecer uma menina que estava com oito anos e já havia sido devolvida três vezes por outras famílias que antes almejavam adotá-la, era uma criança de comportamento difícil e personalidade forte. Decidimos conhecê-la. Fomos ao abrigo em que estava e minha companheira ficou interessada, pois achou a menina muito parecida com ela, mas em poucos minutos devido a minha experiência como professora, percebi que não seria uma adaptação fácil. Mas, decidimos iniciar o processo de visitação e passeios. Nesse período de mais ou menos uns 5 meses, tristemente fomos também desistir da menina. Aquilo doeu muito em mim. Eu sentia como se fosse um objeto que comprei, não gostei e devolvi. Mas minha companheira não queria a menina mais, porém a decisão era conjunta, fomos então devolvê-la. Depois nos apresentaram outra criança, então fomos conhecer a menina. Encantamo-nos com ela. Começamos o processo de convivência e logo pedimos o desabrigamento. Neste meio tempo decidimos voltar atrás e procurar a outra criança também e tentar de novo, acredita que nada surge em nossa vida por acaso e também na minha competência e habilidade como professora, acreditei que a amando profundamente seria possível. Assim ficamos com as duas.

 

Você tem alguma crítica ao sistema de adoção?

Não sei se já mudou, mas a guarda provisória me deu muito trabalho. Nossa vida é corrida, e era constantemente necessário ir ao juizado trocar a guarda. Penso que o documento poderia ser um único durante todo o processo, inclusive dando direitos a usufruir de planos de saúde e outros benefícios. Enquanto não obtive o registro, não pude incluí-las nos nossos planos de saúde. Ou que pelo menos houvesse uma assistência, principalmente psicológica, para a criança até que tivéssemos definitivamente a posse do registro delas.

 

Conte-me sobre a relação de amor em uma família adotiva. Sobre o desenvolvimento da maternidade no caso de sua família.

Todo novo nos deixa um pouco apreensivas. Por exemplo, uma mãe biológica tem 9 meses para adaptar-se à ideia de ser mãe e desenvolver o sentimento materno. Então o processo da adoção considera-se um período de gestação, ao qual nós, enquanto mães adotivas, temos para nos adaptar e desenvolver também o sentimento materno. A criança não chega às nossas mãos para iniciar uma história, como no caso das mães biológicas, no meu caso, por exemplo, uma já tinha 7 anos de experiência de vida e a outra 9. Elas não apagam esta experiência anterior para começar do zero. A experiência é continua e também assustadora para elas. Da nossa parte é novo também, e ainda recheado de negatividade das pessoas que nos circundam, sempre nos indagando com pensamentos pessimistas sobre a adoção.

O sentimento materno surge espontaneamente, muitas vezes, inúmeras vezes, me vejo com comportamentos iguais aos das mães biológicas. Penso e sinto que se nos propomos a sermos mães, isso independe de ser biológico ou não. Ser mãe, na mais pura das essências, sou mãe, amo incondicionalmente minhas filhas, nunca as apresentei e nem as apresento como filhas adotivas, eu as apresento como minhas filhas. Sou branca, de cabelo extremamente liso, e as pessoas às vezes questionam, eu imediatamente digo que o questionamento não faz sentido dentro de um país onde temos tantas misturas étnicas. E pronto, não permito indagações fúteis. O amor que tenho por elas não cabe dentro de mim. Por elas sou capaz de tudo, até de doar a mim mesma. Para mim não há definição de amor materno e amor de mãe adotiva. Apenas amor materno. Sou mãe, tenho duas filhas, que chegaram em minha vida com uma bagagem de história e hoje construímos a nossa história, história de mãe e filha. No nosso caso, mães e filhas.

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