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Artistas e a sensibilidade do cotidiano

Redação DM

Publicado em 13 de agosto de 2015 às 22:48 | Atualizado há 11 anos

Walacy Neto,Especial para DMRevista

Certos artistas conseguem aproximar um estilo de arte de outro com extrema facilidade. Fotógrafos que revelam através de suas lentes uma poesia no cotidiano das pessoas, por exemplo. Ou um músico que, com seu desempenho ao vivo, se aproxima bastante das artes de expressão do corpo. As artes são líquidas e então fica fácil que uma entre em confluência com a outra chegando quase ao período de no ser possível mais separá-las uma da outra. A sensibilidade para as poesias urbanas é um dos principais legados que o nome de Bertolt Brecht carrega. Porém, sua função como teatrólogo é tão relevante como e acaba que ambas as áreas no trabalho de Brecht se confundem entre si.

A poesia política, voltada para as ideias marxistas, é caracterizada pelo olhar sóbrio sobre fatos corriqueiros, do dia a dia. Brecht consegue colocar na mesa esses ideais elucidando as leis de convivência entre os homens na “polis”, ou seja, a metrópole contemporânea, transformada em uma praça mercantil. Eugen Bertold Friedrich Brecht nasceu no leste de Berlim no dia 10 de fevereiro de 1898. Seu reconhecimento veio primeiramente como dramaturgo, no século XX. Com sua companhia de teatro, a Berliner Ensemble, o artista desenvolveu diversas ações na cidade de Paris, entre os anos de 1954 e 1955.

No ano de 1920 se tornou marxista e começa a viver o período de mobilizações que ocorreram na República de Weimar. Também era formado em Medicina e ganhou o Prêmio Stalin da Paz, no ano de 1954.

Outra vertente relevante de Brecht está relacionada à crítica artística do mesmo. Boa parte dos pensamentos atuais que discutem a função da arte e tudo que se segue em torno da mesma deve ter fundamentos nos escritos apresentados pelo artista. Além do mais, sua relação com o marxismo afetou diretamente os poemas que escrevia, portanto seus textos carregam grade teor ideológico.

Ao trabalho não o quero seduzir.

Para o trabalho o homem não foi feito.

Mas do dinheiro não se pode prescindir!

Pelo dinheiro é preciso ter respeito!

 

Poéticas

Na obra brechtiana a lírica vem da natureza, mas há uma ruptura visível com certos moldes vindos do romantismo. O poema “Subindo em Árvores”, por exemplo, pode ser considerado um verdadeiro exercício de sentimentos românticos e de sensibilidade. Nas “Elegias de Buckrow”, ironicamente escrito com referência a palavra “bucólica”, o olhar do homem maduro sobre “pinheiros de cobre” vai em busca do seu olhar jovem sobre as mesmas árvores. São dois versos que se resumem laconicamente “meio século” de toda uma vida que fora marcada por revoluções, ativismo e duas grandes guerras.

 

Teatro Épico

Teatro e poesia em confluência direta, ou seja, em um laço perfeito feito pelas mãos do poeta russo. Em certo momento, percebe que os trabalhos como poeta e tradutor se fundem em sua obra: “O latim de […] clérigos corruptos/ Traduzo palavra por palavra em linguagem comum”, diz Brecht no poema que fala de seu trabalho de traidor entre os abastados e a gente pequena.

Não é simples falar sobre o conceito que Brecht tinha do teatro, apesar de, ao longo de 30 anos, haver escrito ensaios e comentários sobre este tema. Este autor era mais um pensador prático, que sempre recriava suas peças ou “experimentos sociológicos”, como as preferia chamar, no intuito de aperfeiçoá-las. Pois era através delas que toda sua teoria, crítica e pensamento seria exposta.

Além de dramaturgo e diretor, Brecht foi responsável por aprofundar o método de interpretação do teatro épico, uma das grandes teorias de interpretação do século XX. Uma das grandes influências no desenvolvimento desta forma de interpretação foi a arte do ator Mei Lan-Fang, que Brecht acompanhou numa representação em Moscou em 1935.

Descreve Brecht em Escritos sobre Teatro, um relato deste ator chinês que informa muito sobre a forma de interpretação no teatro épico, ao representar papéis femininos. Mei Lan-Fang repetira várias vezes numa palestra, por seu tradutor, que ele representava personagens femininos em cena, mas que não era imitador de mulheres. Continua Brecht, descrevendo uma demonstração das técnicas deste ator num encontro que este ator, de terno, executava certos movimentos femininos, ressaltando sempre a presença de duas personagens, um que apresentava e outro que era apresentado. Brecht sublinha que o ator chinês não pretendia andar e chorar como uma mulher, mas como uma determinada mulher (pg40, vol2).

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