“É bom ser a trilha sonora de novo”
Redação DM
Publicado em 7 de maio de 2016 às 01:40 | Atualizado há 1 ano
Sincronicidade. Talvez seja esta, a palavra mais usada pelo músico Marcelo Bonfá, durante a entrevista por telefone com o DMRevista, para definir Legião XXX Anos projeto que envolve turnê e remasterização do primeiro álbum da Legião Urbana, para celebrar os 30 anos do grupo. Com a turnê baseada neste trabalho – e acompanhado, claro, pelo guitarrista do extinto trio, Dado Villa- Lobos -, o ex-baterista chega hoje, às 20 horas, ao Atlanta Music Hall, em Aparecida de Goiânia. No palco, sucessos do disco que fez da banda um ícone do rock nacional. E mais que isso: consagrou Renato Russo como a grande e poética voz de um país doente.
Legião XXX Anos, conta ainda com a participação do ator e cantor André Frateschil nos vocais e também dos “super músicos” – como define Bonfá: Lucas Vasconcellos (guitarra), Mauro Berman (baixo) e Roberto Pollo (teclado). No repertório, estão clássicos do álbum de estreia lançado em 1985, do calibre de Será, Soldados, Ainda é Cedo e Geração Coca-Cola, que se unem à faixas quase obrigatórias, como:Pais e Filhos e à muito apropiada Que País é Esse?

Logo, apesar da falta de Renato Russo, o clima não é só de nostalgia. Por irônia do destino – ou não -, as letras feitas na época em que muitos que esperavam que Tancredo Neves assumisse a presidência, mas quem chegou ao poder foi o Sarney – ainda soam atuais.
Assim, como as canções, se vê, que o projeto também dá luz à duas lendas do rock, que não pararam no tempo. Após a morte de Renato, Dado e Bonfá continuaram com suas carreiras, lançando álbuns solos e até se aventurando em outras atividades inusitadas – como é o caso Bonfá, que é também produtor de chacaça gourmet, em sua fazenda em Minas Gerais.
Segundo baterista, mesmo com o passar dos anos, tudo tem muito mais um ar de novidade do quê de passado. Pois, há algumas situações novas para ele, como o fato de o próprio sair detrás da bateria para encarar seu púbico cantando Pais e Filhos (sozinho). Ou de ser novamente a voz de um período delicado politicamente. Talvez, por isso, que neste show a sincronicidade supera a nostalgia.

Entrevista Marcelo Bonfá
DMRevista: Como tem sido as apresentações de Legião XXX. Tenho visto que a reação do público tem sido bem intensa.
Marcelo Bonfá:Sim, está muito bacana. Acho que estão do nível das composições. O que tem ficado claro é a força da música,né? Especificamente da Legião. Já fizemos mais de 30 shows e tem sido uma grata surpresa o que tem acontecido, porque começamos isso no ano passado. E, em função do lançamento do primeiro disco da banda montamos esta comemoração, com estes supermusicos, que são nossos amigos. Tem muito sido um momento positivo e muito bacana. As pessoas cantam do início ao fim, sofrem… é bom nesse momento poder ser a trilha sonora de novo (risos).
DMRevista: O show tem uma pegada bem rock n roll. Vocês estão ficando mais pesados com passar dos anos?
Marcelo Bonfá: Na verdade, é tudo uma coisa de uma sicronicidade com estes anos passados. A gente sempre foi uma das bandas mais pesadas do Brasil. Começamos originalmente com o movimento punk, que tem esta coisa de ser uma música viscerial, com conotações políticas e sociais. Mas, nós escapamos um pouco disso, né? Não somos uma banda política, nós falamos basicametete de amor nas letras. Mas, tem essa coisa. O primeiro disco, na verdade, era para ser mais pesado e como entramos em uma gravadora que mal conhecia este estilo o de som, a gente ainda assimilou algumas influências dentro de um estúdio onde tem vários personagens, como: técnicos e diretores. E também o momento que nós estávamos passando, estávamos morando no Rio de Janeiro, que era uma cidade muito mais popular. A gente vinha de Brasília era uma cidade mais fechada, ou seja, distante dos grandes centros. Brasília era muito diferente do resto do Brasil. É única e a gente era muito reflexo da vida que a gente levava lá. Assim fazíamos um som muito pesado. Então o nosso shows ao vivo, durante as turnês dos anos 80 eram muito pesados. E hoje a gente repete estas músicas da forma que a gente é, com uma banda que saca muito bem de rock ando roll e eles dão vida novamente às nossas interpretações. Mas, soa pesado porque já era naturalmente pesado. Eu sou um baterista pesado. Eu faço barulho. Eu sou rock n roll! E, como baterista sou o maestro, mais ou menos quem direciona este peso, tem que estar na minha mão (risos).
DMRevista: A proposta de “Legião XXX Anos” era apresentar onde não tinham tocado. Com a Legião vocês já havia tocado em Goiânia? Do que lembra dos show aqui?
Marcelo Bonfá: A ideia era ir a lugares dos quais a Legião não foi, até porque naquela época as cidades não tinham tanta estrutura como tem hoje. E o Brasil cresceu muito. Nós já estivemos em Goiânia e tudo mais… Mas, sinceramente, como baterista, apesar de hoje estar cantando muito mais do que naquela época (porque o Renato era o reponsável único por esta parte), hoje, no palco, eu divido os vocais com André, com Dado, canto algumas músicas sozinho. Vou para frente e canto “Pais e Filhos”. Então, eu aumentei o meu campo de visão (risos). Geralmente quando estou atrás da bateria eu não enxergo muito, porque tem muita coisa para fazer. Fico focado na parte técnica. Bateria é um instrumento muito complexo para tocar ao vivo. São 12 microfones só para mim. Toda uma estrutura tem que funcionar para a música funcionar para o resto da equipe. Então eu fico mais focado na música do que no contexto sócio e político. Então, eu mal me lembro dos lugares que tocamos. Mas, eu subo no palco, interajo com o público, com a música, dou 100 por cento de mim. Dou a minha vida para isso, entendeu? Mas, acabou: p-r-ó-x-i-m-o. É trabalho. Mas hoje é diferente, porque temos maior autoridade sobre as canções, a gente é mais velho… Hoje é tudo muito novo. Tudo isso tem muito mais um ar de novidade do quê de um ar de passado, de lembrança.
DMRevista: Depois de Brasília, Goiânia também despontou como uma capital para o rock independente. Tem acompanhado este cenário?
Marcelo Bonfá:Cara, eu Não tenho acompanhado muito, porque depois dos anos de 1980, isso tudo foi muito deixado prá lá, as gravadoras não investiram muito. Ficou tudo uma coisa mais populesca, enfim. Ficou difícil conhecer alguma coisa. Por outro lado tem a internet. Mas o Brasil vem mudando há muito tempo. É complicado… Eu na verdade nunca deixei a música. Tenho meus trabalhos solo e sempre fiquei focado nestes trabalhos e as minhas influências busco mais internamente. Por isso, não estou muito ligado na cena. Mas, eu acho que nestes anos todos pouca coisa aconteceu. Talvez, agora esteja voltando, com esta situação política. Porque o rock, como expressão de ideias não sei… A internet veio e tomou muito isso. São vários nichos e pessoas ficam ali, não sei..
DMRevista: Como tem sido tocar com o André Frateschil, ele tem uma relação antiga com a banda, né?
Marcelo Bonfá:A mãe do André trabalhava com o Marcelo Rubens Paiva, na peça “Feliz Ano Velho” e ele andava com a gente e tinha 10 anos. Agora, foi uma sincronicidade ele aparecer neste momento. Na verdade, este projeto tem tudo a ver com sincronicidade, sacou? Porque imagina: o cara aparece agora, tem uma banda, é um ator e o Brasil passa ainda por uma situação que tem algumas semelhanças com 30 anos atrás, de conturbações e transformações. A ideia de lançar o disco não foi nossa, foi da gravadora. E com isso vimos que há realmente uma demanda em busca da música da Legião.
DMRevista: Recentemente há uma demanda dos cineastas brasileiros, já nos últimos anos foi lançado os filmes Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo. Tem gostado disso?
Marcelo Bonfá: As músicas da Legião sempre foram muito visuais. “Eduardo e Mõnica” e “Faroeste Caboclo” são histórias muito lindas e eu até já fiz uma storyboard do início de cada uma delas. Eu acho legal pra caramba essa coisa do cinema. Mas, eu vejo com outros olhos a história. Faroeste, por exemplo, eles falam que é baseado na letra, mas eu não acho baseado na letra. A letra já é um filme, se fosse encarar ao pé da letra, não seria aquilo lá. Não vejo daquela forma. Acho interessante bacana e teve ainda alguns documentários que são muito significantes e relevantes para gente e para música. O que está acontecendo hoje em dia tem mostrado a relevância do trabalho da Legião. Acho to muito feliz de ver isso. Já o filme “Somos Tão Jovens” pegou uma galera mais jovem. Mais “light” contando uma história que basicamente é aquilo, que é claro, na vida é um pouco diferente. A vida tem muito mais sutilezas. Como foi baseado em vários depoimentos, conseguiu um aspecto bacana. este filme despertou em muita gente, estar junto, não só na internet, mas de se encontrar e formar uma banda.
DMRevista: Você consegue imaginar como estaria a Legião nos dias de hoje. Deixaram algum projeto inacabado?
Marcelo Bonfá:Nenhum. Na verdade, estávamos sempre sincronizados, por isso, quando surgia um trabalho, a gente estava junto, afim de tocar, afim de compôr. Agora, é impossível prever como seria. É um exercício de especulação. Talvez a gente tivesse feito vários discos de estúdio, talvez a gente não tivesse feito mais nenhum. Talvez o Renato tivesse feito a ópera dele, que ele falava muito. Mas, na verdade de lá para cá eu fiz muita coisa. Eu lancei três discos solos, estou terminando um álbum que chama “Música de Alambique”, que é influenciado na minha vida de produtor de cachaça orgânca (a melhor cachaça organica do Brasil (risos). Eu fiz um crowdfound para terminá-lo e deu resultado. É um disco com 10 versões divertidas, que falam sobre o universo em torno dos alambiques. Tem música caipira com guitarra, canções de Jorge Mautner, Itamar Assumpção, Zeca Baleiro, Raul Seixas, Inezita Barrozo. É uma produção minha com meu filho João Pedro e é uma coisa divertida. Devo lançar o final do ano e entrar em turnê no ano que vem.
DMRevista: Falando sobre a situação da política atual, como é dá voz a um momento importante e conturbado como o de agora?
Marcelo Bonfá: Eu acho que as pessoas se indentificam de várias formas com nossas músicas. O show é voltado para as músicas do primeiro álbum e a gente acaba tocando “Que País é Esse?”, que é uma música ainda, infelizmente, entoada por muitas pessoas. O que significa hoje “Que País è Esses” eu não sei. Eu não sei se as pessoas dizem se é golpe ou não é golpe. Não estamos levantando bandeira em lugar nenhum. Nunca levantamos bandeira para partido, mas falávamos de uma situação administrativa de desrespeito com a politica no Brasil, que ainda existe, infelizmente. E é isso o que a gente tem que terminar.
DMRevista: Há um desânimo de pensar que com a atualidade das músicas, as coisas não mudaram tanto?
Marcelo Bonfá:Nao tem desânimo nenhum, porque no país tem que ter paciencia, tolerância e compreensão. Se você tem este tipo de comportamento, voce sabe porque as coisas tem o seu próprio ritmo. E hoje a gente vive um momento muito especial, de transparencia. É um momento importante, que se você não passar por isso você não cresce como sociedade.
