Envoltórios da alma em forma de música
Redação DM
Publicado em 10 de maio de 2016 às 02:38 | Atualizado há 1 ano
Equilíbrio e experiência são palavras aptas para definir o novo trabalho da banda britânica Radiohead, lançado no último domingo (2). O nono álbum de estúdio, ‘A Moon Shaped Pool’ finalmente surge em meio ao suspense gerado nos últimos dias, depois do lançamento de dois videoclipes, do desaparecimento virtual da banda (que tentou neutralizou sua presença em redes sociais e site oficial) e do envio de folhetos para fãs via correio, que traziam frases da canção “Burn The Witch” (“Nós sabemos onde você vive”). Algumas canções do álbum vêm sendo trabalhadas há décadas, mostrando que o processo de gestação de uma música pode passar por várias fases e humores até estar no ponto certo.
Com enfoque em arranjos orquestrais, elaborados pelo multi-instrumentista Johnny Greenwood, e executados pela Orquestra Contemporânea de Londres, o disco traz vocais hábeis e diretos do vocalista Thom Yorke, além de flertes com rock progressivo, minimalismo e música brasileira, que confirmam a tendência da banda em garimpar influências. Diferente de seu antecessor, ‘The King of Limbs’, de 2011, que trazia uma espécie de crise de identidade sonora, com o esgotamento de caminhos eletrônicos traçados pela banda desde a virada do milênio, ‘A Moon Shaped Pool’ trás segurança e reafirma a capacidade dos músicos em serem eles mesmos, revisitando sem medo os vários momentos da banda.
O fim do relacionamento de mais de 20 anos de Thom Yorke, vocalista, com sua parceira Rachel Owen se fez bastante presente no tom das letras, que fala ainda de envelhecimento (a frase ‘half of my life’ – metade de miha vida, foi distorcida e invertida para provocar um momento-delírio na canção ‘Daydreaming’), da artificialidade da vida e de problemas políticos como mudanças climáticas e crise migratória na Europa. Arranjos eletrônicos saem de evidência, mas permanecem em segundo plano, emoldurando cada faixa, produzindo a consistência final do álbum. O momento mais agitado da obra, a canção ‘Ful Stop’, traz influêcias de trip-hop e krautrock.
O segundo single ‘Daydreaming’ consiste numa canção extremamente simplória, sem bateria, que imobiliza o ouvinte durante seis minutos em um vaguear de delírios do vocalista. O videoclipe da canção foi lançado no último dia 6, e conta com direção de Paul Thomas Anderson (consagrado cineasta, responsável por filmes como ‘Sangue Negro’ (2007)’, ‘Magnólia (1999) e ‘Boogie Nights’ (1997)), mostrando Thom Yorke em um eterno loop, abrindo portas desconexas e escondendo-se em um refúgio pessoal de devaneios (representado por um buraco na neve). Arranjos de teclas a partir da segunda metade da canção dão a ideia de bateria fraca e desgaste.
O lado rock do grupo é lembrado em vários momentos, como na elogiada ‘Decks Dark’, que resgata elementos do clássico ‘Ok Computer’ de 1997, para delírio dos fãs que sentem saudade da fase menos eletrônica do grupo. O apreço dos músicos pelo Dub, estilo derivado do reggae, pode ser conferido em ‘Identikit’, que traz um refrão bastante enérgico e acreditado, com a repetição da frase “Broken hearts make it rain” (Corações quebrados fazem chover, em português). A bossa nova e o samba são contemplados no disco em canções como ‘Present Tense’ e ‘True Love Waits’ (cque existe desde 1995, já cultuada por fãs da banda, que reagiram surpresos à sua inclusão no álbum).
O retono ao orgânico talvez tenha sido a arma mais quente da banda para disco, que vem sendo bem recebido pela crítica de todo o mundo. A pegada eletrônica dos últimos dois trabalhos cedeu espaço a movimentos mais humanos, como o peso da bateria de Phil Selway e violões que aparecem em vários momentos, dando um aspecto mais folk ao disco, lembrando trabalhos como ‘Led Zeppelin III’, e artistas como Nick Drake e Neil Young. As orquestras de Johny Greenwood se encarregam da visualidade das músicas, atingindo seu momento mais vivo em “The Numbers”, a música não ridícula sobre mudanças climáticas que Thom Yorke sempre quis fazer, mas que se julgava pouco capaz.
Cada canção possui alguma transcendência, o que sugere o resgate o costume cada vez menos comum de se reservar um momento para ouvir um disco do início ao fim. A atmosfera lunar do álbum, sugerida por seu título, é capaz de levar o ouvinte para ambientes estéreis, ao mesmo tempo em que o envolve com tentáculos de sonoridades pitorescas, o que ajuda o disco a firmar-se no pop sem soar pouco inspirado ou genérico. A espera de cinco anos para um novo lançamento do Radiohead tem agradado o público e a crítica, e acrescenta ao catálogo do ano de 2016 mais um disco emblemático, ao lado de trabalhos de David Bowie, Kendrick Lamar e PJ Harvey.



