Goiás pode perder um gênio da música
Redação DM
Publicado em 14 de agosto de 2016 às 03:25 | Atualizado há 10 anosPrestigiado em todo mundo por sua virtuosidade pela aplicação das ideias inovadoras e Schaffer, de quem foi discípulo dileto, Otávio Brandão pensa em ir embora
Goiás pode perder um grande músico: Otávio Henrique Soares Brandão. E, de quebra, uma artista plástica de grande talento: Ibis Brandão, mulher de Henrique. Eles está indo embora, depois de quinze anos morando em Goiânia. Razões da partida: falta de perspeciva para desenvolver, em Goiás, o trabalho artístico em que estão há anos enganjados. Não há, sobretudo para Otávio, condições profissionais mínimas para a sua permanência.
Otávio é pianista. Não um pianista qualquer. Ele é o criador do chamado “novo piano”, ou do “piano schaeffereano”. É um músico de vanguarda. Para se entender o que é isso, podemos compará-lo a Jimi Hendrix. Ele seria o Hendrix do piano, ainda que esta comparação seja um tanto tosca. Mas dá bem uma ideia da sua dimensão artística, da sua importância para o mundo da música erudita.
Otávio não gosta muito da expressão “música erudita”, um conceito que, segundo ele, remete a uma concepção linear, cartesiana, da música. Otávio tem toda uma teoria intelectualmente sofisticada sobre “música erudita”, com enfoques sociológicos e muitas citações de Max Weber e outros banbans das ciências sociais.
O pianista, que também é maestro, regente e compositor, morou quase vinte anos em Paris. Foi lá que se casou com a goiana, de Rio Verde, Ibis Bastos, que fazia doutorado na Sorbone sob orientação de Alain Touraine. O casal até hoje é amigo do sociólogo, cuja importância para as ciências sociais contemporâneas é assunto das próximas linhas.
Tendo feito sua formação básica na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brandão foi para a França não apenas atuar, mas se aperfeiçoar. Foi lá que ele conheceu Pierre Schaffer. O próprio Schaffer proclamou Otávio seu único discípulo. A prefeitura de Paris instituiu, já alguns anos, um prêmio denominado “Qwartz d`honneur Pierre Schaffer”, para distinguir inovações na área musical. Otávio venceu no ano de 2007. É o único brasileiro detentor de tamanha honraria.
Mas, afinal, o que faz da arte de Otávio algo tão especial? E quem é Pierre Schaffer?
Bem. Schaffer foi uma espécie de filósofo da música, um Kant dos sons. Ele mesmo não tocava nada. Mas desenvolveu pesquisas revolucionárias sobre sonoridade e percepção musical. Fez experiências com sons gerados eletronicamente. Logo após a segunda guerra, quando instrumentos eletrônicos estavam em sua fase jurássica de desenvovimento, Schaffer estabeleu conceitos que iriam viabilizar a música eletrônica.
Pode parecer paradoxal que o discípulo de Schaeffer se dedique a um instrumento acústico por excelência, o piano. O paradoxo evanece quando Otávio explica o que é o seu “novo piano”, ou “piano schefferano”. É uma aplicação, ao piano, das ideias do mestre. Para tanto, Otávio teve que reaprender, tendo a si mesmo como professor, a tocar o instrumento. Inventou, em suma, um jeito diferente de tocar piano. Este jeito implica arrancar sons percursivos do instrumento, coisa antes nunca tentada, porque inconcebível.
A música erudita ocidental nunca deu muita bola para a percurssão. Nunca se deteve diante da riqueza de timbres e de vibrações tiradas de instrumentos percursivos. Limitou-se à música erudita, burocraticamente, a usar a percurssão meramente como marcador de ritmos. Certo, houve experimentações, como as de Berlioz, que usavam canhões de pólvora seca em sua orquestra. Mas uma coisa é o uso de efeitos sonoros em uma peça musical – a exemplo do que fazia o Pink Floyd – e outra é assumir toda a musicalidade dos instrumentos de percurssão.
Não é só os povos primitivos que valorizam a essencialidade da percurssão. A Índia tem uma antiquíssima tradição musical, erudita, na qual os instrumentos de percurssão, sobretudo a tabla, têm papel central. A cítara, com todo seu intricado floreado e seus sons sobrenaturais, nada é sem a tabla. Sem contar que a própria cítara é também à parte instrumento de corda.
Imbuído das ideias schaeffer, Otávio Brandão desenvolveu não apenas uma técnica de execução extremanente original, como, de resto, novas abordagens de peças clássicas e, na sequência, um novo método de ensino do instrumento, o “novo piano”. Tudo isso lhe valeu prêmios e prestígio no Brasil e o exterior, embora em Goiânia, a cidade que escolheu para viver, ninguém dá a mínima para o que ele faz. O espírito provinciano da terra não alcança as alturas a que Brandão elevou a arte do piano.
Recentemente, Alan Touraine escreveu ao governador Marconi Perillo pedindo-lhe que prestasse atenção em Brandão. Touraine, um dos maiores nomes da socilogoia contemporânea, colaborador de Lech Valessa na fundação do Solidariedade, foi orientador de Ibis na Sorboune, quando ficou amigo do casal e passou a admirar a obra de Otávio Brandão.
Uma das razões de Brandão para querer ir embora foi o descaso das autoridade culturais do Estado. Recentemente, ele participou de um certame do governo do Estado, acreditando piamente na retórica oficial do “Estado Inovador”, apresentando um inovador projeto de ensino de piano, o que incluía a produção de um DVD. Não deram a mínima para sua iniciativa.
Quem também escreveu a Marconi intercedendo por Brandão foi Alexandre Grauder, o fundador do prêmio Internacional de Novas Músicas, da prefeitura de Paris. Diz Alexandre em sua carta aberta ao governador goiano que Brandão é “homem iluminado e necessário à diversidade musical, sendo considerado em nosso meio um embaixador cultural”, escreveu Alexandre em escorreito francês que traduzi livremente.
Goiás deveria sentir-se honrado por um artista como este em nosso meio. Ele seria não só um grande promotor de Goiás como, também, um formador de novos músicos, o fundador de uma escola inovadora de piano. Mas, diante do pouco caso de nossas autoridades culturais, ele acaba sendo, aqui, como diz o matuto, apenas “um talento desperdiçado”.