Motel: paixão brasileira
Redação DM
Publicado em 30 de março de 2017 às 03:15 | Atualizado há 1 ano
O leitor já se imaginou assumindo a profissão de testador de motel? Uma empresa que gerencia milhares de motéis em várias cidades do Brasil tem procurado interessados em assumir tal carreira, e ainda oferece salário de R$ 2.000 para aquele que fizer uma crítica refinada sobre os serviços prestados pelos estabelecimentos. Para se candidatar, é necessário estudar ou ter formação superior em alguma das áreas de interesse: Turismo, Hotelaria, Administração e Marketing. Os motéis representam uma fatia considerável na indústria da hospedagem: 24,8% dos estabelecimentos segundo dados de 2012 do IBGE. No Brasil, existem mais motéis que pousadas, e o segmento perde apenas para os hotéis, ainda mais numerosos.
Os organizadores da seleção garantem que tem muita gente interessada na luxuriosa vaga, que abrange todas as regiões do país. “Milhares de currículos recebidos de todas as regiões do país desde o começo do mês e, agora, está chegando ao final o período de inscrições para a vaga de Testador de Motel”. A empresa, que funciona como uma espécie de biblioteca virtual de motéis de todo o país, deve encerrar o processo de seleção no último dia de março. “O portal Guia de Motéis, principal vitrine do segmento, que promove e divulga estabelecimentos moteleiros no território nacional, anuncia que os interessados podem enviar os seus currículos até o dia 31 de Março”.
A campanha visa não só mostrar a preferência dos brasileiros na hora de procurar um lugar mais reservado para momentos íntimos, mas também detectar peculiaridades que atingem o público que adere à cultura do motel, muito presente na região metropolitana de Goiânia, que apresenta vários pequenos ‘complexos’ de motéis em pontos estratégicos. “A história é a seguinte. Para aqueles que curtem momentos especiais em um motel, mas, além disso, sabem avaliar o serviço e as instalações, o portal lançou uma vaga pra lá de interessante”.
Os novos contratados devem preocupar-se apenas com a fluidez do usufruto dos serviços oferecidos pelos proprietários de motéis. “O trabalho em si é avaliar motéis pelo Brasil inteiro. O funcionário anônimo se hospeda como um cliente normal, podendo ir, inclusive, com acompanhante, e usufrui de suítes, além de consumir outros itens para avaliar a qualidade dos serviços”. Terminado o momento de curtição, é só ser sincero na hora de responder o questionário. “Depois de tudo isso, preencherá um minucioso questionário, que será entregue ao dono do motel como uma consultoria do Guia de Motéis”.
“Estamos tendo um grande número de interessados. Queremos receber a maior quantidade de currículos possíveis, afinal esta é a vaga dos sonhos para muita gente”, conta Rodolfo Elsas, diretor do Guia de Motéis.
Além do salário, bastante cobiçado, o profissional selecionado também contará com vários benefícios. “A remuneração fixa será de R$ 2 mil por mês no regime CLT e conta com benefícios, como plano de saúde e odontológico, vale refeição e reembolso de quilometragem. Os pré-requisitos são ter mais de 18 anos, estar cursando (ou ter cursado) faculdade de Hotelaria, Turismo, Administração ou Marketing”. Homens e mulheres interessados devem procurar sobre a campanha no site do Guia de Motéis. “A vaga é para ambos os sexos. Para se candidatar até o dia 31 de março de 2017”.

Como surgiram os motéis?
Segundo a monografia ‘Representação social dos motéis para os brasileiros’, de autoria da pesquisadora Carla Baylão de Carvalho, publicada em 2003 pela Universidade de Brasília. Ela afirma que houve um período de transição entre a tradição dos chamados “hotéis beira de estrada” para os motéis, que carregam certo preconceito por estarem associados a encontros sexuais. “Dentre os meios de hospedagem existentes no Brasil, o motel é o que sofre maior pré-conceito, uma vez que, houve uma mudança radical no seu perfil, mudando de hotel de beira de estrada, voltado para o turismo rodoviário, para empreendimento destinado a encontros reservados”, afirma.
Ela associa a ascensão de tais estabelecimentos à percepção cultural do povo brasileiro, onde o erótico está sempre presente no cotidiano. “Vem desde a formação do povo brasileiro e está relacionada à identidade e o forte erotismo presente no dia-a-dia desse povo”. A palavra Motel surgiu na Califórnia, Estados Unidos, em 1926, derivada de ‘motor hotel’, com a função de designar hotéis de repouso para viajantes fora das cidades. Nesse contexto, não existia associação explícita aos encontros reservados. Segundo Carla Baylão, é difícil explicar em que momento específico os motéis passaram a ser utilizado como local reservado para encontro de casais homo e heterossexuais.
A autora afirma ainda que tal tipo de estabelecimento, com tal utilidade, é algo tradicionalmente brasileiro, dificilmente encontrado em outros lugares do mundo. “Sua estrutura física passou por mudanças estratégicas radicais, como garagens internas privativas com portões fechados, apartamentos todos com camas de casal e decoração cada vez mais suntuosa e estimulante, com ambientes variados, como: sauna, piscina e boate particular, corredor de serviço isolado e cômodos que proporcionam a prática de serviços sem nenhum contato entre funcionários e clientes”, explica Carla.
Outras adaptações técnicas também aconteceram, segundo a autora. “As tradicionais FNHR (ficha nacional de registro de hóspedes) ou qualquer tipo de ficha deixaram de ser preenchidas; e o período de estada foi reduzido para duas a quatro horas em média”. As raízes culturais que geraram concepção de estabelecimentos como motéis, tem origens que vão desde o período colonial. “Todas essas mudanças tiveram origem em fatores sócio-culturais, a partir da formação do povo brasileiro, com suas raízes no Brasil-Colônia, gerando também uma nova representação social desses ambientes na relação entre o público-privado, rua-casa, familiar/respeito e privativo/liberdade”, afirma.
A paixão dos goianos por tais estabelecimentos também foi abordada na monografia, que mesmo quinze anos atrás já apresentava números expressivos. A autora levanta que “a região da grande Goiânia possui cerca de setenta motéis que apresentam uma rotatividade de sete a nove ocupações/dia nos dias de maior movimento, segundo dados do IBGE de 2000”. De acordo com Carla, tal índice “referenda o gosto e a alta procura do povo goiano por esse tipo de estabelecimento”. A pesquisa traz ainda a ideia de motel como oposto ao espaço do lar, que não oferece a liberdade necessária para usufruto intenso das práticas sexuais: “sem privacidade e local de respeito onde o sexo é mais contido em função de familiares e vizinhos”.
Cultura popular
Não é difícil descobrir a imagem que os motéis tem para o povo brasileiro. Basta observar a presença do vocábulo em várias músicas sertanejas. Na cena atual, cantoras como Marília Mendonça, Nayara Azevedo e Maiara e Maraísa já deixaram suas descrições do recinto: cenário para cenas de adultério. “Quase morri quando te vi entrando no motel”, “Infiel, eu quero ver você morar no motel”, “Por acaso esse motel foi o mesmo que me trouxe na lua de mel”. Por outro lado, também carrega a estigma dos acontecimentos descompromissados, embalada pela loucura, onde as pessoas acordam sem lembrar o que aconteceu. “Vira inferno o que era céu, tô num quarto de motel sem nome e sem endereço”, diz a canção.

