Na França, o turismo e a gastronomia nas regiões de Bordeaux e Saint-Èmilion
Redação DM
Publicado em 15 de dezembro de 2016 às 00:57 | Atualizado há 1 ano
Ao visitar a revolucionária França, berço dos direitos cidadãos estabelecidos para o mundo moderno, fui conhecer Bordeaux que aparece assim, sem avisar, imersa que se encontra no universo delimitado no romantismo e liberdade do amor.
A capital da Aquitânia, uma das vinte e duas regiões administrativas da França enquanto país primordial eurocêntrico, é uma cidade que conta com mais de 250 mil habitantes, situada na região dos vinhos e tem uma área geográfica onírica, totalmente rural, coalhada de vinhedos, pastos e bosques. Em direção oposta, a cultura daquela cidade está em plena erupção, Bordeaux é uma cidade grande, bonita e jovem, destaca-se em sua efervescente vida turística e bucolismo, além de excelente centro de compras e vida culturalmente rica e latente. Ali existem também grifes reconhecidas internacionalmente e que o turista ama e consome, expostos e disponibilizados no mercado sob grifes da elegância tais como Hermès, Louis Vuitton, Longchamp e Anne Fontaine, além, é claro, das excelentes multimarcas rotuladas, como a “Axsum”. Os últimos anos foram fundamentais para que, a que antes conhecida enquanto a Bela Adormecida sob as sombras de suas incontáveis parreiras assumisse o merecido posto de La Belle du Jour.
Segundo recente artigo estampado no internacional The New York Times, Bordeaux tornou-se a nova Paris. Embriagada de felicidade por me encontrar, de novo, em Bordeux, da última vez que pisei suas ruas – únicas –só desejei andar pelo centro que pulsa convertido em calçadões para pedestres, sem preocupar com trânsito de veículos automotores, ocupando os turistas somente ao olhar atento às vitrines que movem o capitalismo mundial pelas vias do consumo, tanto de grifes, como de estadias em hotéis, pousadas e hostels, restaurantes maravilhosos que servem pratos e bebidas indescritíveis a outros sentidos humanos incapazes em definir o prazer da gustação e olfato.
Às margens do Rio Garonne instala-se, imponente, um grande parque onde os moradores correm, pedalam e passeiam dezenas de cães e outros animais domesticados pela floresta urbanizada. Velhos armazéns metamorfoseados em bares, instalados com discotecas e lojas de consumo de itens afins. A moda da vez, naquela região é Chartrons, local ímpar onde acontece a feira dominical Marché des Quais.
Em 2007, metade da capital do vinho foi tombada em Patrimônio Universal pela Unesco, reconhecida, passou a somar numa mesma geografia mais de 350 edifícios históricos.
A saga continua quando, atualmente, as ruas de acesso à belíssima igreja Saint-Michel – atualmente em obras –, bem como a fonte da apoteótica Place de la Bourse, uma verdadeira joia rara da coroa em pleno centro – cujos edifícios refletem no espelho d’água – formando uma imagem única, intrigante e sublime. Para curtir o universo do vinho Bordeaux, sem sair da capital, comece pelos workshops e a partir da degustação disponibilizada no Bar a Vin. Depois, tome um trem regional e viaje pela Região de Bordeaux até à magnífica vila medieval de Saint-Émilion, de reconhecida historicidade e importância exuberante. Ao redor da colina que sustenta a cidadezinha, mágica e recomendável, o vinho é produzido – desde o domínio do lugarejo pelo Império Romano – para atender os peregrinos com destino incerto ao controverso Caminho de Santiago, tema de livros e filmes, verdades e metáforas.
Após meia hora de viagem, desfrutada em meio a bosques e campos cobertos de flores perenes, amarelas, o desembarque dos visitantes é feito em pleno vinhedo, numa estação de referência, hoje, desativada. Simples como um sonho bom, Saint-Émilion tem a maior igreja monolítica do continente da Europa, talhada a partir do século IX. As pedras calcárias, extraídas do próprio solo, para a construção da cidade, resultaram em 200 quilômetros de túneis subterrâneos e catacumbas, muitos deles, aproveitados na condição de caves. Nos vilarejos Margaux e Pauillac, duas das inúmeras e pequenas grandes coisas de Médoc, a mais famosa das sub-regiões dos vinhedos que cercam a cidade, onde tudo é muito perto e lugar destinado à produção do Margaux, ícone da excelência do vinho Bordeaux. Além de criar o tinto número um em termos de pompa, aquela vinícola é uma das que, de fato, instalaram-se em seu próprio castelo para chamar de sede. A propriedade quase não recebe os turistas, a não ser a partir de reservas, e tem na degustação um privilégio destinado ao prazer de visitantes ilustres.
O discurso sobre as propriedades do vinho, particularmente, são uma chatice. Quando acontece na casa de um amigo que entende ser um conhecedor da bebida, torna-se desagradável tolerar o exibicionismo, discutindo as notas de cereja ou sua textura aveludada, que aliás, fazem sentido em alguns lugares como Châteaus na mencionada Região de Bourdeux, onde a taça às mãos, e, na companhia de alguns dos grandes enólogos, nada é absolutamente prazeroso como degustar um bom vinho, acompanhado de um “baita contexto”. Indico aos leitores de Prazeres à Mesa viajarem para Bordeaux entre os meses de junho e agosto. Agora é a hora certa e o tempo certo, ao lado da companhia certa, aquele paraíso proporciona as vistas mais bonitas, das plantações muito verdes, carregadas em uva prematura e perene.
A aventura pode ser realizada até à última semana do mês de setembro, quando, em regra, e, na prática começa a colheita do fruto.
Em toda a região da Grande Bordeaux existem diversas vinícolas, abertas à visitação, onde o viajante turista deverá escolher qual a localidade ou sub-região lhe será interessante e fazer da reserva – diretamente com o Château – um destino de prazer imensurável. No Pomerol, vale a pena o turista visitar os famosos Château Pétrus, Château Le Pin e o Vieux Château Certan, pois nessa sub-região, existe a felicidade e probabilidade de ser recebido no Le Pin, considerado um dos vinhos mais finos e perfeitos do planeta. Em visita ao local, e, recebida elegantemente pelo proprietário, o senhor Jacques Thienpont, o que mais amei é que ele usou uma pipeta para sacar um pouco do vinho que se encontrava num dos barris de carvalho disponíveis, uma sensação incrível.
Na Região do Médoc, a dica é tentar visitar o Château Du Tertre, que produz um vinho considerado muito bom, com a conveniência de ser mais acessível do que os reconhecidíssimos e famosos Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild, Château Latour e Château Margaux. Observando, é claro, que conseguir visitar algum desses estrelados é tarefa que torna a experiência turística em oportunidade de vida que definitivamente não será a última, mas a única. Para os amantes do vinho de sobremesa – aquele produzido com uvas atacadas pelo fungo Botrytis Cinerea –, que carrega o poder de desidratar as uvas e deixá-las extremamente doces – vale deslocar ao Sul da Região de Bordeaux, até Sauternes, e tentar visitar o Château D’Yquem, considerado um dos melhores vinhos de sobremesa do mundo.
A França é e será sempre o sinônimo da alta gastronomia, e, é justamente isso que o turista encontrará nas regiões de Bordeaux e Saint-Émilion, onde estive visitando e deliciei alguns restaurantes incríveis, com destaque para dois lugares que – enquanto enóloga – indico para ir visitar e “se comer rezando”, ou melhor, tomando muito vinho. O restaurante gastronômico do Hotel Hostellerie de Plaisance, possui duas estrelas no Guia Michelin, comandado pelo renomado chef francês, Philippe Etchebest. Sua cozinha contemporânea destaca-se sob o tempero equilibrado de uma leve influência asiática.
Jantar no La Cape Restaurant, instalado numa cidadezinha, próxima ao Aeroporto de Bordeaux, a reconhecida Cenon, restaurante que possui uma estrela no Guia Michelin é indispensável, pois sua cozinha, inventiva e moderna, revela uma verdadeira experiência gastronômica de prazer e saciedade proporcionados pelos pratos deliciosos de apresentação impecável. Ali o pão, dos deuses e inesquecível, traz o sabor e a textura no ponto, enfim, o melhor pão a se degustar na França das revoluções e do turismo. Comece com uma entrada de cogumelos servidos com mousse de batatas, depois, ordene o peixe branco com aspargos frescos, tudo devidamente harmonizado com uma garrafa de vinho estampada com rótulo local.
Reacendendo mais estas lembranças de inúmeras viagens, percebi o quanto é preciso carregar a mochila, esquecer momentanenamente os problemas, simplesmente ver o tempo passar. Dar gargalhadas, deitar na grama com os pés descalços apontados para o céu, trazer à lembrança as besteiras sinceras do tempo de criança, sentar-se à mesa com amigos sensíveis, verdadeiros, que falam bobagens importantes, apreciar o vinho na taça da sabedoria e apreciar as belezas desse gigantesco e intringante universo!
Se, como disse Mário Quintana: “Viajar é mudar a roupa da alma”, então, que viva Paris!
Caçarola da semana e Vinhos
Dicas sobre o vinho
Quantos châteaux você conhece pelo nome em Bordeaux? Mesmo o consumidor mais apaixonado pelos vinhos daquela região ficaria sem ideias.
Escolhi três Châteaux acessíveis que, na minha opinião, estão abaixo do preço real.
Château d’Armailhac, Pauillac – Preço da garrafa – safra de 2010 – sem impostos: US$ 60. Às vezes visto como primo pobre do clã Mouton-Rothschild, este 5eme cru de Pauillac pode lembrar um mini-Mouton, nas boas safras, embora um pouco menos concentrado. Neste momento, ele está em boa forma.
Château Olivier, Pessac-Léognan – Preço da garrafa – safra de 2010 – sem impostos: US$ 34 (tinto), US$ 39 (branco). Não são muitas as propriedades de Bordeaux que produzem um vinho tinto e um branco seco com o mesmo padrão elevado (as outras são Haut-Brion, La Mission, Domaine de Chevalier e Smith-Haut-Lafitte). Esses vinhos têm saído melhores desde 2004.
Château Potensac, Médoc – Preço da garrafa – safra de 2010 – sem impostos: US$ 29. Propriedade de Jean-Hubert Delon, do Château Léoville-Las-Cases, este corte com base em Cabernet não ficaria fora do lugar num ranking de crus classés. Apesar de sua apwellation modesta, ele costuma confundir os especialistas em degustações, às cegas, e, envelhece bem.
Preços citados na matéria são os chamados ex-cellar ou ex-works, ou seja, na vinícola, sem nenhum tipo de imposto.

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