Nas ondas de Cícero
Redação DM
Publicado em 3 de dezembro de 2016 às 01:21 | Atualizado há 10 anosNo final deste ano fatídico, Cícero, um jovem cantor e instrumentista carioca, está fazendo os últimos shows da turnê A Praia, baseada em seu álbum homônimo e mais recente. E este show, que já viajou o Brasil e chegou até Portugal, o artista vai mostrar hoje em Goiânia, às 21h, no Teatro Sesi.
No palco ele entrará acompanhado da banda, cujo alguns integrantes tem o ajudado a dar vida às suas canções há algum tempo tempo e é formada pelos músicos Gabriel Ventura (integrante do grupo Ventre), Cairê Rego (do grupo Baleia), Bruno Schulz e Uirá Bueno. E esta é a oportunidade de ver, talvez, a faceta mais madura deste show.
“Essa é uma banda que está bem entrosada, em um show que a gente já tocou bastante. Então acho que fica mais natural, menos preocupado com tocar certo e mais leve pra fazer com que cada show fique diferente, sabe?”, disse o artista, que vai misturar faixas mais antigas com as canções de A Praia, a exemplo de Frevo Por Acaso nº 2 e Camomila.
Nas ondas
A Praia é o terceiro e mais leve álbum da carreira deste artista, que traz em seu som toda poesia, pessoalidade e ousadia da chamada nova MPB. Ele despontou para o cenário em 2011 ao lançar o elogiado Canções de Apartamento.
Este trabalho trazia um ar artesanal em faixas bem intimistas gravadas e produzidas em sua casa – e quase de maneira integral por Cícero –, como foi o caso de: Vagalumes Cegos (que fez parte da trilha sonora do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho), João e o Pé de Feijão e Tempo de Pipa.
É preciso dizer ainda que o clipe simples, mas sensível, de Tempo de Pipa, “bombou” na internet – teve mais de 5 milhões de views, virou um webhit. Contudo, desempenhou um papel ainda mais crucial para Cícero: mostrou para ele que podia viver e fazer o que mais gosta e do jeito do que queria, sem estar no rádio ou na TV.
Impulsionado pelos cliques, seguiu em frente, e em 2013 lançou o segundo álbum Sábado, que teve a participação de um de seus ídolos, o cantor e vocalista da banda Los Hermanos, Marcelo Camelo. Em conversa ao DMRevista, Cícero, que está preparando novo disco para lançar ano que vem, contou que não tem mais grandes ambições, já que com seu jeito, tempo e espaço, hoje aos 30 anos, já realizou muitos sonhos. Por isso quer continuar vivendo de música, casar, ter filhos e que seus rins continuem funcionando bem, estão entre as maiores desejos do cantor. Confira trechos desta entrevista a seguir.
ENTREVISTA CÍCERO
DMRevista- Como será o show de hoje e como é voltar a Goiânia, onde você sempre mostra seus álbuns?
Cícero- Este show é um dos últimos desta turnê. Só tem mais esse, um no Rio e outro em São Paulo. Desde o primeiro disco eu toco em Goiânia. Fui em Goiânia para divulgar o Canções de Apartamento, e também para divulgar Sábado e estou indo agora para divulgar A Praia. É uma cidade que vou sempre por vários motivos. O primeiro é que sempre encontro público aí, que sempre acompanha, sabe? Com o primeiro disco fui a diversas cidades e em algumas reparei que tinha uma galera que se identificava e acompanhava minha música, cidades que tenho voltado em todo disco. Goiânia é uma dessas. É uma cidade que tem um movimento cultural e musical muito forte. Pelo menos a imagem que tenho aqui em São Paulo é que Goiânia tá muito quente na produção cultural em relação ao restante do País. Muitas bandas saindo, um cenário alternativo forte. Além do que se conhece do sertanejo.
DMRevista- Então conhece e gosta das bandas daqui?
Cícero- Conheço a galera do Boogarins, encontrei com eles algumas vezes em São Paulo. A galera do Carne Doce também encontrei com eles algumas vezes, já conversamos, já trocamos algumas mensagens virtuais. Mas já acompanho desde a época do Black Drawing Chalks, depois vi que tinha essa coisa de alternativo de Boogarins e Carne Doce, de algumas bandas que estão começando agora. Enfim, acompanho muita coisa da internet, porque é o lugar onde venho, né? Faço tudo pela internet mesmo. Divulgo meus shows, meus discos. Não toco no rádio, na televisão. A internet faz com que eu fique bem informado do que tá rolando na internet. Sabe? Mas, é isso… Depois que eu toco em Goiânia sempre saio, vejo o que tá rolando, compro discos, etc.
DMRevista- O que é que vem depois desta turnê?
Cícero- Estou fazendo um disco novo, ensaiando as músicas novas, fazendo os arranjos e com certeza vai sair ano que vem.
DMRevista- As canções de seus três discos são muito influenciadas por acontecimentos da sua vida. Podemos esperar esta tônica no próximo álbum?
Cícero- O fato de eu ser o cara que faz as letras e as músicas, naturalmente expõe o que está acontecendo na minha vida. Acho que se tivesse mais parcerias ou cantasse músicas de outros artistas, poderia ser diferente. E isso é até uma coisa interessante, que quero começar a fazer também, pra não ficar focado só na minha experiência e também em expor a experiência de vida de outras pessoas. Porque acho legal, mas até agora tenho feito as músicas todas. Então, os três discos têm uma certa cara de diário ou de álbum de fotografia da minha vida.
DMRevista- O clipe de Tempo de Pipa fez muito sucesso na internet, como é que enxerga a repercussão deste trabalho, que tem tanta simplicidade e verdade?
Cícero- É muito legal porque tenho 30 anos. Então, quando comecei com esse negócio de fazer música, com banda, foi em 2003, e ainda não existia internet com muita força no Brasil. A internet era um negócio muito paralelo e aí tinha a ideia de que a internet era o paralelo até bem pouco tempo atrás. O streaming era a TV aberta, o rádio comercial. E Tempo de Pipa foi o grande divisor de águas, que foi um clipe inacreditavelmente barato, feito com uma câmera simples, e o clipe teve milhões de views e as pessoas me param na rua, pedem foto autógrafo, no shopping… Aí caiu a ficha pra mim que a internet não é o paralelo. A internet é o principal. Como comecei a reparar como as coisas funcionam na internet os youtubers, as pessoas que têm milhões e milhões de views e que fazem vídeo em casa e se transformam em celebridades mesmo, vi que a internet é o grande meio hoje em dia. Juntou a internet, a televisão, o cinema, o teatro, tudo junto num veículo só. Quem me deu este estalo, foi Tempo de Pipa, que foi o primeiro clipe que fiz. Nele não tinha muito dinheiro, era uma ideia e uma câmera na mão… E, cara, ele alavancou minha carreira. As pessoas me conheceram por este clipe e baixavam meu disco e começaram a gostar. Até este disco achava a internet um meio paralelo.
DMRevista- Então não te incomoda não tocar na rádio e na TV?
Cícero- Pra ser bem sincero, não incomoda não. Quando era moleque novo, e montei minha banda, se você não era contratado por uma gravadora, não tocava no rádio e TV, você não existia e isso era um pouco assustador. Mas hoje vejo que tenho uma carreira, faço show, viajo, pago minhas contas, vivo a minha vida e continuo sem tocar no rádio, na televisão, continuo sem ser considerado famoso. Então, cara, para quê isso teria tanta importância? Se acontecer é ótimo, talvez pessoas que não me conhecem iriam me conhecer, e quero isso. Não quero que dizer: “Ah, só a galera antenada pode saber quem sou eu”. Mas, se essa porta não se abrir, não vou ficar vivendo com esse pesar de: “Poxa… queria tanto ter tocado nas rádios e tal…”. Isso antigamente faria minha carreira acabar, mas como não é mais assim, sou grato ao que tenho. Tenho um público carinhoso, trabalho, sabe?
DMRevista- Você como jovem artista já fez muita coisa. Mas o que ainda deseja conquistar? Quais seus sonhos?
Cícero- É muito difícil falar isso, porque todas as coisas que sonhava quando era moleque já realizei. Só que estes sonhos vão mudando um pouco e ficando menos sonhos e mais projetos. Quando era moleque eu era muito fã de Los Hermanos. No Rio de Janeiro, a minha geração era tudo fã do Los Hermanos. Pensava: Ah…, um dia vou tocar com Camelo (Marcelo Camelo) e vai ser muito maneiro. Aí abri um show do Camelo no primeiro disco e depois fizemos um show junto, no mesmo palco. Queria tocar no Circo Voador cheio, já toquei no Circo Voador lotado umas cinco vezes. Então, nada disso dá uma sensação de cheguei lá, mas de: caramba, sonhar não é uma coisa distante da realidade. Sonhar é uma forma diferente de vontade, então hoje em dia meu sonho seria de envelhecer fazendo isso. Envelhecer com saúde, porque esse negócio de fazer 30 anos tem essa mudança de aspecto. Fui parar duas vezes no pronto socorro por causa de pedra nos rins, porque não bebo água e dá pedra nos rins… Então queria chegar aos 60 com os rins funcionando. Os sonhos vão mudando um pouco de realizações profissionais para realizações humanas mesmo. Sei lá, ter filho, casar, envelhecer, trabalhar. Esses são meus sonhos, mas, sei lá… Conhecer o Chico Buarque, já conheci, gravei um disco no mesmo estúdio dele. Conhecer Gilberto Gil, já conheci. Estes sonhos são mais de garoto. Hoje em dia desejo é trabalhar com música e envelhecer bem.
Cícero apresenta “A Praia”no Teatro Sesi
Quando: Hoje, às 21h
Onde: Teatro Sesi (Av. João Leite, 1013 – Santa Genoveva)
Ingressos: R$ 70 (inteira) | R$ 35 (meia-entrada)