O indomável Coltraine
Redação DM
Publicado em 16 de julho de 2016 às 03:03 | Atualizado há 1 anoComo legado, deixou uma das mais variadas e profundas canções para a música do século XX
“Minha música é a expressão espiritual do que eu sou. A minha fé, meu conhecimento, o meu ser”. Frase é de John Coltraine, um dos músicos mais cultuados e importantes para a história do jazz. Mesmo com a morte um tanto quanto precoce – morreu no dia de hoje, em 1967, aos 40 anos – ,o legado que deixou foi imenso, não só para o jazz como ainda para a música erudita e até para o rock.
Ele morreu no auge da carreira, vítima de câncer no fígado. Ainda bem que a esta altura já tinha inovado muita coisa, pois até hoje é considerado pela crítica como o maior sax tenor e compositor de jazz de todos os tempos. Entre 1955 e 1967 viveu seu auge, criou feito um doido e lançou cerca de 50 gravações. Isto sem contar as participações que fazia com outros músicos.
Por isso premiações e homenagens até hoje chegam para o músico. Em 2007, por exemplo, recebeu uma citação especial do Prêmio Pulitzer de Música, por uma “perita improvisação, musicalidade suprema e um dos ícones centrais na história do jazz”.
MUSICALIDADE ESPIRITUAL
As origens de Coltrane diziam muito sobre a música inventiva e espiritual que deram ritmo e levada ao seu jazz. Nascido em Hamlet, na Carolina do Norte, Estados Unidos, em 1926, o músico era filho do alfaiate que tocava violino e ukulele John Robert Coltrane. Por outro lado, Alice Blair Coltrane, sua mãe, tocava em coro da igreja da Igreja Metodista Africana Episcopal de Sião, que seu avô era o reverendo.
O envolvimento de Coltraine com a música no começo de sua vida não era tão intenso. Nos tempos de escola, tocava sax alto na banda do colégio, depois, quando entrou para a Marinha dos Estados Unidos e foi designado para uma base no Havaí, tocou clarinete na banda militar Melody Makers. Contudo, foi um show do saxofonista Charlie Parker que mudaria a forma como este homem encararia o mundo das canções.
Coltraine ficou embabascado com a forma com que Paker fazia o saxofone “cantar” seus sentimentos. Queria fazer o mesmo. Neste intuito, depois disso, em meados da década de 40, começou a estudar música com avidez, já que a meta era conseguir também se expressar de forma tão profunda com o instrumento. Quem duvida que ele conseguiu?
Nesta época começou a tocar em diversos pequenos bares e clubes ao redor da Filadélfia, mas também foi aí que iniciou o vício de Coltraine em heroína, que mais tarde iria até atrapalhar sua brilhante carreira. No verão de 1946, entrou para o grupo de Joe Webb e depois para a King Kolax Band, com o saxofonista e ídolo Charlie Parker. E foi neste momento que trocou o saxofone alto pelo tenor.
Nos cinco anos seguintes, passou por diversas bandas. Nelas, o foco estava em sugar o que fosse preciso para criar um estilo que pudesse chamar de seu. E estava conseguindo, pois sua forma ansiosa e pouco usual de tocar chegou aos ouvidos de ninguém menos que Miles Daves, líder do mais famoso quarteto de jazz da época, o Miles Davis Quintet.
Só, mas bem acompanhado
Com o grupo de Miles Davis, Coltraine tocou até 1959, depois de participar da gravação do antológico Kind of Blue – é fato que neste meio tempo o saxofonista havia sido afastado da banda por duas vezes, devido ao vício em heroína. Com tanta bagagem adquirida, o músico decidiu colocar suas experimentações no próprio quarteto.
A primeira formação do seu grupo contava com Steve Kuhn, no piano, Steve Davis, no baixo e Pete La Roca, na bateria. Com a inspiração a mil, não tardou até criar com a banda as canções que fariam parte de clássicos álbuns, como: Coltrane Jazz, Coltrane Plays the Blues, Coltrane’s Sound e My Favorite Things e, colocariam entre o que já existiu de melhor no blues.
Em My Favorite Things, por exemplo, Coltraine fez revistações harmônicas mais complexas de músicas a exemplo de “My Favorite Things” (uma valsa de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein), e “But Not For Me” (de George Gershwin).
Uma coisa nova
Mesmo com uma forma única de tocar e criar, foi na década de 60 que ele começou a mostrar toda sua potencialidade para experimentar. Tudo isso veio quando se deixou levar pelo movimento New Thing, também chamado “Free Jazz” e “Avant-Garde”, que, liderado por Ornette Coleman, era permeado de improviso. Coltrane dizia que a intenção era fazer de cada performance “uma única expressão”.
Tanta coisa diferente é fato que não agradou de cara público e crítica. Mas todos se calaram quando ouviram o álbum A Love Supreme, que foi lançado em 1965 e considerado um dos mais importantes do quarteto do músico John Coltrane. O disco até está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.
Love Supreme trazia não só as influências musicais de Coltraine como também trabalhava com sua espiritualidade. Não havia uma doutrina específica, e sim misto de religiões africanas, indianas e cubanas.
No álbum seguinte, o Ascension, o free jazz pulsava ainda mais forte em sua veia e ele dava voz, através dos instrumentos, ao que vivia dentro de seu ser em longas e experimentais faixas. Para o disco se uniu a músicos como o baterista Rashied Ali, os saxtenoristas Archie Shepp e Pharoah Sanders, entre outros. Sua mulher, a pianista Alice Coltrane, também o acompanha nessa nova, arrojada e curta fase. Certamente muita coisa estaria por vir, se Coltraine não tivesse morrido um ano depois do lançamento deste emblemático álbum. Ainda bem que ele tinha pressa e criou muita coisa.
