Desativada 2

Rádio Universitária reintegrada

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2016 às 01:53 | Atualizado há 1 ano

No dia 28 de outubro a Rádio Universitária foi ocupada por manifestantes, somando essa ação ao movimento de luta estudantil que cresce no País. Porém, na manhã de quarta-feira (9) foi entregue na sede da rádio o documento que decretava a reintegração de posse do local. Oficiais de justiça e a Polícia Federal efetuaram a desocupação.

Ao chegarem no prédio situado no Parque Lago das Rosas os ocupantes não estavam presentes. De acordo com os presentes, oficiais e policiais esperaram por um longo período no local, caso alguém aparecesse para receber o documento, mas isso não ocorreu. Na rádio se encontravam apenas os funcionários da unidade durante a desocupação. Uma comissão de professores informados sobre a reintegração foi até a rádio para garantir que excessos não fossem cometidos durante o ato.

Parte do documento, que decide pela reintegração de posse, lista as acusações apresentadas contra a ocupação: “a) o imóvel acima citado, bem público de sua propriedade, está ocupado por estudantes, vinculados a diversos cursos mantidos pela requerente, desde 29/10/2016; b) os ocupantes têm impedido o acesso de servidores ao recinto da Rádio Universitária, paralisando as atividades normais administrativas, de ensino e pesquisa; c) o movimento, da forma como conduzido, já ocupando 15 unidades federais de educação no Estado de Goiás, não conta com justo título ou tem amparo legal, importando vulneração a garantias e direitos individuais de servidores, alunos, professores e do público em geral que necessitam utilizar das instalações ocupadas; d) tentativas de negociação amigável com os manifestantes não obtiveram êxito; e) não tem condições, no momento, de identificar os ocupantes da Rádio Universitária, o que não obsta acesso à vindicada tutela jurisdicional; f) a ocorrência do esbulho é fato público, notório, incontroverso”.

As acusações foram negadas pelos manifestantes que afirmaram ter mantido sempre um diálogo pacífico e aberto com a direção da rádio. Um ocupante, que não quis se identificar por questões de segurança, disse: “Toda a ocupação foi por meio de negociações em que a direção se mostrava aberta também. Para nós foi um susto a reintegração ainda mais nesses termos, visto que a rádio funcionava normalmente, exceto pelas três horas que ocupamos. Deve causar algum constrangimento aos funcionários a nossa presença, pela anormalidade da situação. Mas tentamos manter o tempo todo um ambiente tranquilo para efetuarmos nossas atividades.”

A voz da Rádio Libertária

Sob o lema “ocupar e transmitir” uma programação diária construída por estudantes e apoiadores incluiu uma série de debates sobre as pautas do movimento. Um dos ocupantes relatou: “Além das pautas do movimento muitos outros assuntos foram abordados, como a democratização da mídia, programa que contou com convidados como o professor do Colégio Aplicação Glauco Gonçalves e a jornalista Nonô Noleto. O professor Reinaldo de Assis Pantaleão também foi convidado para falar das pessoas que morreram durante um processo de luta, em uma programação especial que fizemos em ocasião do Dia de Finados. Vários assuntos relacionados a movimentos sociais também tiveram espaço na grade da Rádio Libertária.”

Participações ao vivo via telefone de ocupações em todo o Brasil aconteciam diariamente durante os programas. “Tivemos até participações internacionais, de coletivos da Catalunha, da galera do Guilhotina, que é um grupo militante de Portugal. Foi uma experiência incrível”, conta o ocupante.

As pautas defendidas pelos manifestantes da dita “Primavera Estudantil” são: Contra a PEC 55 que prevê corte de gastos que podem atingir setores básicos como saúde e educação, a Medida Provisória que propõe uma reformulação tecnicista do ensino médio e o projeto Escola Sem Partido, comumente citado entre o movimento como “Lei da Mordaça”.

Os manifestantes explicaram em seu último programa “Ocupa Cabeça”, que foi ao ar na tarde de terça-feira (8), que não se tratava de uma ocupação física, mas da grade da programação da emissora pública. Além das pautas comuns ao movimento, outra questão reivindicada pelo grupo, simbolizada pela ocupação de uma emissora de rádio, é a democratização dos meios de comunicação.

Resposta

Por questões técnicas e devido a negociações com a direção e os estudantes, que trabalham nos laboratórios da rádio, as transmissões dos ocupantes não eram em tempo integral. A média de programação da denominada Rádio Libertária era de três horas por dia, mantendo assim a maior parte da programação habitual da emissora e os programas laboratoriais desenvolvido pelos estudantes.

O argumento utilizado pelo coletivo para legitimar a ação é de que a mídia tradicional não estava cumprindo o papel de informar a sociedade sobre as pautas e ações dos estudantes e a necessidade de utilizar o alcance público da rádio que serve a universidade.

Os técnicos administrativos, que formam o quadro de trabalhadores da rádio junto com os terceirizados, estão em greve no momento. Os funcionários da rádio não assumiram apoio a ação, mas continuaram a operar os equipamentos necessários para a transmissão.

Um estudante que participou da ocupação da rádio onde se apresentava sob o pseudônimo João Durruti relatou: “Foi a primeira vez que eu vi técnicos, estudantes e professores trabalhando em igualdade e produzindo bons conteúdos.”

O grupo de mídia independente Desneuralizador, que conta com quase quinze mil seguidores nas redes sociais, escreveu uma nota sobre a intervenção na Rádio Universitária: “Essa foi a maior experiência de autogestão de um veículo de comunicação público em Goiás. Durante 11 dias a Rádio Universitária UFG, foi ocupada, no que diz respeito a parte de sua programação. Mas a reforma agrária do ar vai continuar, de um jeito ou de outro! Fiquem ligados. A serpente está na terra e o programa logo mais estará no ar. A Rádio Libertária, nesses poucos dias, inspirou outras ocupações de veículos de comunicação, como na UNB e na UFMG (Rádio Crua). A semente da revolta popular está plantada.”

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