Resistência no sertão do Brasil
Redação DM
Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 15:56 | Atualizado há 1 ano
Em 1831 Dom Pedro I abandona o Brasil com destino à Portugal para lutar contra seu irmão Miguel na tentativa de retomada do trono português. O herdeiro do trono brasileiro, Pedro Alcântara (Dom Pedro II), com apenas cinco anos não estava apto a governar e, segundo a Constituição Imperial, em caso de vacância do trono, o poder deveria ser exercido por uma regência até que o herdeiro estivesse em condições de governar. Entramos então no Período Regencial do Brasil (1831 – 1840), que teve fim com o conhecido “Golpe da Maioridade”, quando Dom Pedro II teve sua emancipação proclamada. Compreendem a este espaço de tempo as seguintes regências: Regência Trina Provisória, Regência Trina Permanente, Regência Una de Padre Diogo Feijó e Regência Una de Araújo Lima.
O Período Regencial foi marcado por inúmeras manifestações de insatisfação e rebeliões de norte a sul do país, as Rebeliões Regenciais. Elite e populares foram à luta, porém as manifestações populares foram mais numerosas, já que estes sofriam maior repressão. Entre estas manifestações, houve a Guerra da Cabanagem na Província do Grão-Pará, região que hoje compreende os estados do Pará, Amazonas, Rondônia e Roraima. Esta região vivia da exploração das chamadas drogas do sertão (castanha do Pará, baunilha, madeira e ervas medicinais), logo, não era economicamente importante. A Guerra da Cabanagem recebe este nome porque a maioria dos participantes deste movimento eram trabalhadores pobres que moravam em cabanas.
Segundo a historiadora goiana Rosimeire Soares a exploração das drogas do sertão era feita pela população pobre que trabalhava para algum proprietário de terras, lusitanos e ingleses que geralmente moravam em Belém. “Havia um sentimento anti-lusitano muito forte nessa região, tanto por parte dos fazendeiros quanto dos trabalhadores e a população em geral devido ao fato de, por ser uma região economicamente inexpressiva, não recebia então a devida atenção por parte do Governo Central”, ressalta a historiadora.

O Governo Central era quem nomeava os governadores das províncias, e no Grão-Pará, os governadores sempre vinham de fora, nunca era nomeado algum morador local, isso aumentava a revolta. Com a nomeação de Lobo de Souza como presidente da província uma rebelião já existente intensificou-se na região quando Lobo resolvera reprimir os cabanos. Esta repressão só fez fortalecer o movimento cabano, e em dois anos de luta, Belém fora tomada pelos revolucionários, que executaram o presidente Lobo.
O proprietário de terras Felix Malcher, um dos líderes do movimento, foi escolhido para presidente da província, “dizem as más línguas que este se vendeu para o governo central”, conta Rosimeire, sendo também executado pelos cabanos. Francisco Vinagre, um lavrador, foi o segundo presidente cabano da província, mas que também se pôs de “namoro“ com o Governo Central. A esta altura já havia divergências entre os líderes do movimento o que provocava seu enfraquecimento e facilitou a retomada de Belém por tropas do Governo Central.
“Os cabanos fugiram para o interior e resistiram por anos fio, liderados por um jovem seringueiro, e ate reconquistaram Belém, mas foram brutalmente reprimidos e o movimento chegou ao fim. A Cabanagem foi a mais sangrenta das Rebeliões Regenciais, reprimida com tamanha brutalidade, não pouparam mulheres, crianças, nem idosos. As cabanas foram incendiadas por tropas do Exército Imperial, matando queimadas milhares de pessoas. Houveram inúmeras execuções de lideranças do movimento. O saldo da repressão dizimou aproximadamente 30 mil pessoas, cerca de 25% da população da província”, encerra a historiadora.
A cabanagem tem importância histórica relevante por se tratar de um movimento que envolveu a população pobre, onde os ricos foram abandonando o movimento na medida que o cerco foi se fechando, numa luta contra as forças imperiais, nesta jovem nação que se formava, onde a condição pra ser considerado cidadão era a posse de riquezas. Os ricos proprietários de terra lutavam principalmente por interesses políticos, mas a população reivindicava melhores condições de vida, pois trabalhavam de sol a sol e a precariedade nas moradias, alimentação e manutenção da saúde era vasta. Terminavam o mês endividados com seus patrões, sem muitos recursos para se alimentar bem, numa região onde as doenças de proliferavam sem nenhuma forma de combate. Os efeitos das doenças eram maiores numa população mal alimentada
