Desativada 2

Siron no Eterno

Redação DM

Publicado em 26 de abril de 2017 às 22:49 | Atualizado há 9 anos

Há exatamente 20 anos conheci o pintor Siron Franco. Fui convidada pelo escritor e amigo Marcos Caiado para ir ao ateliê do artista. Assim que cheguei me deparei com telas enormes, tintas e pincéis espalhados pelo lugar e um bom vinho à mesa nos esperando com muito carinho. Eu fiquei embriagada com aquela atmosfera de arte que entrava na minha alma como por impulso. Olhava cada tela tentando decifrar o indecifrável, senti uma espécie de transe me levando para um mundo estranho, mas de uma beleza única.
Percebi que estava diante de um grande mestre da pintura e de seu imenso legado para o Brasil e para o mundo da arte.
E tudo isso faz muito tempo, sendo essa minha visão aqui, dessa nossa distância em décadas e léguas, quando a cidade de Goiânia se dividia em pintura, escultura, desenho, gravura e emoções. E é somente assim que consigo ver o mundo até hoje, “fiel à minha geração”, como dizia Hélio Feijó. Aí está a atualidade, diria até a perenidade de Siron, na força dessa fidelidade a si mesmo e à sua arte.
Entre trocas de poemas e conversas sobre cultura com a escritora e ex-secretária de Cultura de Goiás Maria Abadia Silva, sou levada através de um poema seu a conhecer a recente instalação Cuidado Frágil de Siron, que segue neste mês de junho para Londres, depois Roma e Madrid.
Assim, retornei ao seu ateliê. E confesso que, quando cheguei, senti a mesma coisa. Ele nos convidou para sentarmos numa mesinha e começou a falar sobre o seu trabalho. Eu vi exatamente o mesmo artista cheio de emoções e amor pelo que faz. Siron encanta, desbrava as dores humanas.
É como se adotasse uma postura frente ao mundo em razão da sua ansiedade criativa e pela interferência de seu inesgotável dinamismo e de seu magistral talento e que resultasse em criações de novos universos. A obra de Siron Franco me toca ao extremo. Ela é suficientemente vigorosa e original para ser percebida e reconhecida universalmente.

Arte como espelho

Para Siron: Arte será, como sempre foi, o espelho de uma época. Modifica com os caprichos incompreensíveis da vida, mas em todas as suas manifestações permanece como guia da humanidade em sua evolução. À sua ousadia estética e perícia técnica se juntam uma curiosidade absoluta e sagacidade de percepção que o colocam pari passo aos grandes eventos, até mesmo os prevendo e antecipando.
A sua usual inclinação aos questionamentos dos problemas brasileiros o faz se lançar em profundos mergulhos utilizando diferentes técnicas, variado tipo de material, inovando e criando novas linguagens para sua expressão.
Siron, já consagrado pela excelência de sua arte pictórica, se lança às instalações, à criação de monumentos, imensa e diversa quantidade de participações com cartazes, participação em filmes, teatro, ele se move em todos lugares e em todas possibilidades criativas.
Hoje, o pintor é um dos mais conhecidos artistas brasileiros, com enorme prestígio também no exterior: suas obras são disputadíssimas nos leilões internacionais, imprescindíveis a todas as coleções latino-americanas. A pintura de Siron representa toda uma imagem do país no mundo afora, ressaltando a sua exuberância natural e humana: é indiscutivelmente figura chave da arte brasileira.
Siron ocupa uma posição de protagonista no cenário artístico brasileiro, sempre foi um voraz observador do cotidiano que o cerca. Dedicou-se à pintura e ao desenvolvimento de uma técnica muito particular com uma disciplina e um silêncio magistral como uma prece a reger suas mãos em tom de compasso em suas obras. Segundo o saudoso poeta Ferreira Gullar, “Siron nos convida a olhar a pintura e é com esse olhar curioso e desarmado que devemos fazê-lo. Certamente teremos um grande impacto e um prazer de idêntica intensidade”.
Siron faz denúncias, chama atenção, mobiliza o olhar e atua como cidadão engajado, como diz, onde sua alma de desbravador o levar, da causa indígena ao meio ambiente, das questões politicas à violência contra a mulher e as crianças.
Sempre a revelar-nos através de suas figuras como as testemunhas lúgubres da fragilidade humana. Dentro de suas mãos misteriosas vive um artista, um homem despojado, que vai pensando, que vai passando, que vai navegando através de sua arte. Remando com seu pincel num mar de cores, direcionando na tela da vida. Lutando contra os limites que se perdem na perfeição de seus quadros.

Anarquismo cultural na arte do Siron

“A minha arte colore-se do anarquismo cultural brasileiro. Essa consciência e um apurado espírito crítico foram preponderantes para o meu crescimento”, diz o artista. Suas obras estão nos principais museus do mundo, artista premiado nacional e internacionalmente.
Siron diz que “sua liberdade o manteve distanciado dos preconceitos”. As várias figuras por ele representadas estiveram muito presentes e se repetem em sua obra. “Isso sinaliza que a minha pintura é humanizada. Assim eu consigo tocar profundamente a alma das pessoas. Eu faço as pessoas refletirem sobre a nossa existência e sobre o nosso próprio desempenho frente as coisas e necessidades comuns a todos, como a preservação das espécies e do meio ambiente, a violência urbana e violência contra as mulheres, a ética, a educação e a cultura”.
Segundo Siron, todos os seus sentidos são voltados para o processo criativo, ele transforma objetos simples em surpreendentes obras de arte. Ferreira Gullar descreveu: “Siron é um homem que reinventa a imagem do mundo, com um poder mágico de tudo transformar em imagem pictórica”.
Sua arte apresenta-se revestida de atitude. Como quando espalhou 1.020 caixõezinhos fúnebres em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, em protesto contra a mortalidade infantil. Mais uma vez citando o poeta Ferreira Gullar, que amava suas obras: “O lado da obra de Siron é que é a memória do Brasil, eco das vozes mais arcaicas de nossa história, vinda de tão longe e feita todo dia”.
Siron tem uma disciplina indisciplinada, homem além do tempo, homem além do mundo, homem além das cores, homem além da imaginação, homem que se torna um gigante com sua arte. Homem que entende que a liberdade precisa ser conquistada.
O artista finaliza a entrevista: “A minha arte tem todos os sonhos do mundo”. Isso aí! Siron literalmente é fruto de uma vida dedicada ao trabalho. Sua arte transcende. É a própria voz de um tempo, de uma cultura e de uma vida!

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