Desativada 2

A essencialidade de um desconhecido

Redação DM

Publicado em 12 de agosto de 2015 às 22:59 | Atualizado há 1 ano

Helvécio Cardoso,Especial para Diário da Manhã

Nos anos 60 do século passado, de repente as pessoas comuns, os cidadãos da rua, perceberam que fazíamos parte de uma civilização que caminhava para sua autodestruição. Percebíamos – sobretudo a minha geração percebia – que vivíamos em um mundo de insanos, governados por insanos, que cada vez mais reproduzia a insanidade. Mais civilizado o homem se tornava, mais louco ficava. Por sorte, conforme observou Daniel Reich em Greening of América, ninguém estava no controle. Éramos, na verdade, governados por forças impessoais que a todos subjugam, uma visão rigidamente determinista que quase não abre espaço para ações individuais coordenadas, que é a base da  ação coletiva.

Esta loucura organizada e sancionada pela ciência, numa espécie de razão enlouquecida, foi inspiradora de novas éticas e estéticas,  de um sem número de fenômenos comportamentais que se espalharam dos países civilizados para a periferia em desenvolvimento. A totalidade desses movimentos, cujos ecos ainda ouvimos na música pop, no ambientalismo e nos movimentos identitários, ficou conhecida pelo nome de “Contracultura”. Os menos informados chamaram a isso de “movimento hippie”, que foi, na verdade, apenas um subproduto, algo gerado na orla boêmia do amplo movimento contracultural de contestação.

Todas as grandes transformações políticas do Ocidente foram precedidas de amplos movimentos contraculturais. O cristianismo, na versão pioneira, são paulina, foi uma contracultura. As cartas do apóstolo Paulo, antecipando em séculos as internéticas redes sociais, abalaram o mundo pagão e desmoralizaram, por séculos, a luminosa sabedoria greco-romana. Vide a bronca que o apóstolo dá nos filósofos neolatônicos que abundavam em Roma, logo no início de sua Epístola aos Romanos.

A Revolução Francesa foi preparada por mais de um século e meio pelos racionalistas e pelos iluministas. A Revolução de Outubro foi o coroamento de mais de 30 anos de agitação e propaganda orientados pela genialidade de Lênin. Nenhuma revolução derruba o poder político se não passar primeio pela consciência, demolindo crenças, costumes e valores em que se apoia a superestrutura do poder.

Nos anos 60, na Europa e nos EUA, a rebelião juvenil abalou governos e pôs em causa a civilização tal como a conhecemos. O velho comunismo, que se apresentara como remédio para a doença da civilização, foi igualmente confrontado. Para a juventude rebelde dos anos 60, a civilização é que era a doença. O problema é que ninguém sabia como abolir a civilização. Ainda não sabemos.

Quem melhor diagnosticou a civilização ocidental como doença foi Norman O. Brown. Não sendo, porém, um profeta armado, excusou-se a recrutar prosélitos. Não sendo um curandeiro social, absteve-se de prescrever remédios. Apesar dessa falha clamorosa, o pensamento de Norman O. Brown é uma das mais alucinantes aventuras intelectuais de nossos tempos. Ao lado de Sócrates, Hegel, Marx, Nietzche e Freud, ele levou a níveis altíssimos a dialética do “conheça a ti mesmo”. Não por acaso, foi ele um dos inspiradores, ao lado de Marcuse, Rozsak, Thimothy Leary, Jean Paul Sartre e outros, dos jovens inconformistas e contestadores dos anos da guerra fria.

 

VIDA CONTRA MORTE

Norman O. Brown escreveu poucos livros. Seu primeiro trabalho, que é a sua obra prima, é Vida  Contra Morte, de que falaremos a seguir. Antes, um pouco sobre o autor. Pessoalmente, era um tanto careta. Apenas um típico scholar de universidade americana procurando um bom assunto para tese de mestrado. Mas ele, tendo herdado da tradição protestante uma consciência que insistia em que o trabalho intelectual deve orientar-se no sentido do alívio da consciência humana, achou-se na obrigação de fazer alguma coisa neste sentido. Ele edstava entre “aqueles dentre nós que, incapazes de aceitar as práticas do pecado, cinismo e desespero, foram compelidos a reexaminar os pressupostos clássicos da política e do caráter político da natureza humana”, conforme disse na introdução de Vida contra Morte.

Este reexame o levou a rejeitar as categorias fornecidas pelas escolas tradicionais de pensamento, estereotipadas e estéreis. Marxista em sua juventude, afastou-se de Marx e dos marxistas, não para combatê-los, mas para superá-los dialeticamente. Termina sua introdução com uma saudação ao marxista Herbert Marcuse, que, como ele, descobrira Freud e dava à psicanálise uma reinterpretação dialética, revolucionária. Mas Norman O. Brown, ao contrário de Marcuse, foi mais fundo. Marcuse parou à beira do abismo; Norman O. Brown saltou de cabeça nele, conforme observou Theodore Roszak em um ensaio cotejando o pensamento  dos dois.

Por que Freud?

Vida contra Morte é uma reinterpretação dialética da psicalnálise ao mesmo tempo que é uma busca de um sentido psicanalítico da História. Tal como Marx, recolocando Hegel sobre os pés, Norman O. Brown vira e revira Freud de ponta cabeça.

Por que Freud? É a pergunta que ele se faz. “A incursão em Freud”, escreveu, “não pode deixar de ser um mergulho num mundo estranho e numa linguagem estranha – mundo de homens doentes, com uma linguagem de diagnóstico de imensa complexidade técnica. Mas este mundo estranho é aquele em que todos nós, de fato, vivemos”.

Tem-se a impressão de que a humanidade, com toda a sua obsessão pelo progresso, não sabe o que realmente quer. Freud estava com a razão ao afirmar que nossos verdadeiros desejos são inconscientes. A humanidade civilizada, inconsciente de seus próprios desejos e, portanto, incapaz de obter satisfação, mantém uma atitude hostil para com a vida e está prestes a se destruir. Se não pela bomba atômica, com certeza pela poluição, pelo efeito estufa e por outras tendências suicidas. Por trás disso tudo opera o sinistro instinto de morte, identificado por Freud na fase madura de sua obra. “Ou chegamos a um compromisso com nossos instintos e impulsos – vida e morte – ou certamente morreremos”, adverte Norman O. Brown.

Ele tinha uma atitude crítica em face do próprio Freud, não obstante sua profunda  admiração pelo pai da psicanálise. Mas nenhum respeito pelo chamado “neo-freudismo”, objeto de sua crítica demolidora. Depois da morte de Freud, afirma Norman O. Brown, sempre polêmico, a psicanálise virou uma ortodoxia petrificada, uma quase escolástica, incapaz de desenvolver o conceito freudiano de instinto de morte. Para Norman O. Brown, todos os fundamentos metapsicológicos da doutrina de Freud exigem reinterpretação, sendo que ele se propõe a isto. E aqui o instinto de morte é central.

Freud é paradoxo, ou  nada. É difícil segui-lo através do obscuro submundo que ele explorou, muitas vezes seguindo por caminhos escandalosamente especulativos. É preciso, de resto, ter disposição para permanecer lá e ter coragem de largar a mão dele quando parecer que seu mapa pioneiro precisa ser redesenhado. Em todo caso, seguir as trilhas abertas por Freud é comer, pela segunda vez, do fruto proibido. E  Norman O. Brown dele se empanturra.

 

A visão excremental

Quem quer, de fato, apreender pela razão as contradições da vida e atingir-lhe o conceito, terá que cavalgar no lombo da dialética e, tal como Hegel, o sistematizador moderno do método dialético, colocar voluntariamente o senso comum em suspensão. Assim, Norman O. Brown inaugura uma nova perspectiva e parte para abordagens audaciosas de que  o neofreudismo nunca seria capaz. Norman O. Brown discorre alegremente, por exemplo, sobre a analidade, ou a ”visão excremental da história”, investigando “as consequências revolucionárias para a ciência e a cultura humana de um dos mais grotescos paradoxos freudianos”. Tendo nascido de uma família protestante, o autor lembra que Lutero, em suas confissões, teve a grande revelação que o levou a romper com o papado, quando estava sentado na latrina, fazendo vocês sabem o quê. Mesmo os biógrafos de Lutero se sentem constrangidos diante deste pormenor. No entanto, o próprio Lutero o confessa. E daí. Para Norman O. Brown este episódio, visto à luz de sua psicanálise dialética, nos fornece uma interessante chave para compreender a penetrante influência do protestantismo na cultura moderna, o que, a meu ver, deixa comendo poeria a festejada e clássica análise de Max Weber.

 

A centralidade de Freud

Um subproduto da interpretação da psicanálise é a reinterpretação da própria posição de Freud na história da intelectualidade. “Na medida em que considerado apenas como fundador de um método de cura individual, não passará de uma página da história médica, herdeiro de Charcot e Breur”, observa. Ocorre que a psicanálise é mais do que medicina. Aliás, Freud, segundo informação de seu autorizado biógrafo Peter Gay, defendia que nem seria necessário ser médico para ser psicanalista.

A psicanálise é um novo estágio na evolução do autoconhecimento humano. Por isso Freud não se limitou à causalidade imediata, clínica, por assim dizer, da neurose. Ele percebeu que o buraco era mais embaixo. Daí os seus estudos metapsicológicos (o mal-estar da civilização, Totem e Tabu, Moisés e o monoteísmo etc.). Norman O. Brown dá grande valor a estes estudos e nota, aí, encantado, as afinidades de Freud, nem sempre reconhecidas, com alguns filósofos e com certas escolas de pensamento. A primeira afinidade, a de seu método, é com uma herética tradição lógica que pode ser rotulada de “dialética”. A concepção freudiana de mente ecoa, perceptivelmente, a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Outra afinidade a ser destacada é com Nietzche, que deu à loucura um lugar de honra na Filosofia. Mas a grande afinidade doutrinal notada por Norman O. Brown é com certa tradição de heresia mística da qual o representante moderno mais importante foi Jacob Boehme, sobre quem ainda falarei qualquer dia desses.

Norman O. Brown reconhece que seu esforço em interpretar a psicanálise, reelaborando-a dialeticamente, é uma arrematada excentricidade. Mas ele não pretende fazer um livro correto, certinho. O paradoxo não é diluído em retórica sóbria. O que ele busca é novas possibilidades. Daí, afirma, ter levado às últimas consequências loucas as novas ideias anunciadas, ciente de que Freud também parecia maluco. Mas, se lermos com atenção, com o senso comum devidamente suspenso, Norman O. Brown não nos parece assim tão excêntrico. Pelo contrário, é cada vez mais central.

 

“O pensamento de Norman O. Brown é uma das mais alucinantes aventuras intelectuais de nossos tempos. Ao lado de Sócrates, Hegel, Marx, Nietzche e Freud, ele levou a níveis altíssimos a dialética do “conheça a ti mesmo”

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