Desativada 2

A invenção da realidade em vídeo

Redação DM

Publicado em 24 de junho de 2016 às 02:47 | Atualizado há 1 ano

D urante vários momentos o filme Close-up (1990), do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, leva o público a se perguntar se está diante de uma obra de ficção ou de um semidocumentário. Vários artifícios utilizados pelo diretor são capazes de deixar os espectadores confusos. A começar pelos atores, que interpretam eles mesmos. Existe um conflito real entre um cinéfilo iraniano, Hossain Sabzian, e um de seus ídolos, o cineasta Mohsen Makhmalbaf. Sabzian inicia a produção de um filme enganando uma família e se passando por Makhmalfab. Processado, Sabzian vai responder legalmente pela farsa. Kiarostami filmou até mesmo o julgamento do réu. O resultado é algo incrivelmente lúdico.

Kiarostami reuniu acusador e acusado, registrando-os em tempo real, sem roteiro, mas não deu ao seu filme um acabamento de documentário, recriando as partes necessárias de maneira ficcional. Confuso? Essa é a intenção. Abbas Kiarostami nasceu em Teerã e hoje vive em Paris. Sua sensibilidade poética e realista é vista como uma das essências da identidade do cinema iraniano diante do mundo. Close-up, lançado em 1990, conseguiu acumular grande reconhecimento de sua obra no Ocidente. Kiarostami já lançou mais de 20 longas-metragens, apresentando em cada um deles sua assinatura inconfundível. Esteve no Brasil em 2004, como parte do júri do Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

 

Polêmica

Existem várias teses, inclusive em português, que envolvem o trabalho de Kiarostami. Uma delas é a da doutora em Comunicação Ivonete Medianeira Pinto que e se chama Close-up – a invenção do real em Abbas Kiarostami. Em seu texto, a autora problematiza alguns recursos apresentados pelo cineasta, levantando algumas questões sobre a ficcionalização de filmes com estrato documental. “Nesse sentido, em especial, dois procedimentos de Kiarostami são investigados: o que manipula, através de montagem, a presença de um juiz no tribunal, e o que manipula, através da edição de som, um diálogo entre Hussein Sabzian e Mohsen Makhmalfab”.

A apropriação artística de acontecimentos de um processo jurídico poderia ser prejudicial para os envolvidos? É isso que a autora questiona. “A presença da ficção nas obras documentais direciona o estudo para o questionamento dos limites da liberdade do autor, quando esse, voluntaria ou involuntariamente, possa vir a prejudicar os indivíduos apresentados no filme”. A resposta da autora, ao longo de sua tese, baseia-se em análises de momentos de ficção que recorrem às lembranças dos personagens, o que tornaria toda a realidade falsa criada pelo autor algo volátil, um álibi do compromisso meramente artístico do diretor com seu filme. A longa carreira de Kiarostami e sua extensa filmografia autoral também pesariam.

Na tese, a autora fala de teatralização da memória. A recriação das lembranças em vídeo estaria sujeita a um filtro mental dos atores envolvidos. “Naturalmente, o tempo que se passou desde que Sabzian se fez passar por Makhmalfab, sua prisão e até o julgamento e a reconstituição dos fatos foi curta (menos de dois meses). Mesmo assim, é um processo de recordar o que foi dito, por várias pessoas, cada um com um ponto de vista”. O que a Ivonete Pinto explica é que Close-up, apesar de parecer, não é um documentário, e que a intenção de Kiarostami em transformar realidade em arte é explicitada pelo autor. Mas como o público poderia reagir a isso? Todos seriam capazes de compreender?

Ela conclui: “[É necessário], inclusive, recordar momentos em que a pessoa estaria só num ambiente, como o que antecede a prisão e Sabzian está sozinho na sala. Então, é justo pensar que a pureza do fato em si é volátil, se perde nos escaninhos da memória e proporciona a tendência à manipulação desta”. O caso de Sabzian e do diretor de cinema Mohsen Makhmalfab ganhou certa repercussão no Irã quando se desenrolou, o que talvez tenha que ser visto como uma preocupação a mais na hora de liberar o lançamento do filme. Close-up foi incluído na lista de 50 melhores filmes de todos os tempos lançada pela revista britânica Sight & Sound.

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