Cores em ebulição
Redação DM
Publicado em 2 de dezembro de 2015 às 20:59 | Atualizado há 1 anoPinceladas e formas criativas e sensíveis de encarar o mundo e seus curiosos habitantes. Tudo isto vai ocupar a Vila Cultural Cora Coralina. A partir das 20h, o centro cultural recebe o vernissage de duas exposições individuais de jovens artistas do cenário goiano. Carolina Figueroa e Donie apresentam suas respectivas mostras de artes plásticas: La Ciudad Y Los Perros e Cenas de Um Mundo.
Navegando entre pintura e literatura, está a mostra La Ciudad Y Los Perros (em português: A Cidade dos Cachorros). Logo, a obra homônima do escritor, jornalista, ensaísta e político peruano Mario Vargas Llosa, não apenas intitula, como é a grande inspiradora da série que esta artista plástica chilena radicada em Goiânia vai apresentar ao público. Logo, são os cães o ponto de partida para a artista discutir as relações de submissão da sociedade.
Esta é a primeira individual desta pintora de traços expressivos e fica em cartaz até o dia 22 de dezembro. Sua série é um conjunto de dez telas, que foram elaboradas sobre grande formato, com medidas das quais ela usa técnica mista sobre lona. No entanto, outra série de pinturas com medidas aproximadas de 40 x 40 cm, em encáustica sobre lona, também fazem parte dessa mostra.
Construir e desconstruir
O artista Donie também mostra na exposição um trabalho repleto de personalidade. Na exposição Cenas de um Mundo – que tem curadoria do artista plástico Nonatto Caoelho, suas pinceladas sugerem a força de um mundo paralelo que, em sua visão, pode ser construído e desconstruído ao mesmo tempo.
Dentro desta atmosfera, o artista trabalha sobre a visão de que formas feias e desconfiguradas podem ter sim, valor e beleza. Apesar de jovem, Donie – que possui apenas 30 anos e mora em Inhumas -, já participou de diversas exposições, tanto coletivas, como individuais. Além de Goiás, suas pinturas já estiveram em importantes museus do país e do mundo.
Entrevista Carolina Figueroa
DMRevista: É a sua primeira exposição individual em Goiânia?
Carolina Figueroa: Vim pela primeira vez aqui em Goiânia para participar de uma exposição graças a um projeto cultural da gestora Malú da Cunha e o artista plástico G. Fogaça. Moro aqui há pouco mais de cinco anos e durante esse período continuei participando de mostras coletivas. La Ciudad Y Los Perros é minha primeira exposição individual em Goiás e no Brasil, portanto há uma expectativa, há um cuidado na montagem, na escolha do espaço, na seleção de obras, há um planejamento. Querer expor num centro cultural também tem uma intenção, mostrar meu trabalho a todo público, não só a possíveis compradores. Toda crítica, questionamento, opinião que pode emergir ao redor destas obras é válida.
DMRevista: Por que a obra de Mario Vargas Llosa se encaixou tão bem a sua obra?
Carolina Figueroa : Em 2013, quando ainda era aluna da FAV-UFG, precisamos escolher um tema para fazer um exercício, muitas ideias vinham à mente, mas nenhuma que despertasse meu interesse. Então a professora nomeou uma série de objetos, entre eles o “cão”. No momento que escutei a palavra me fixei a ela. E então veio a procura do que isso significa, do que há ao redor desse símbolo, do que está contido na imagem do cachorro. No meio da pesquisa me deparei com o romance do escritor Mario Vargas Llosa, La Ciudad Y Los Perros, primeiramente fui atraída pelo seu título, mas depois da primeira lida, sentia empatia por muitas situações e incômodos que já me permeavam.
Este livro relata a brutalidade exercida em um grupo de jovens alunos de um colégio Militar. É também um ataque frontal ao conceito errado da virilidade, e mostra as consequências de má compreensão do que é a educação. Com isso começaram as associações, tudo começou a fazer sentido. E enxerguei que a realidade, nossa realidade social da qual todos fazemos parte, compartilha de uma ou outra maneira frases do livro, diálogos, relatos, etc. Então palavras e trechos acabaram dentro da minha série de pinturas, onde aparecem cães, e o mais representativo do universo de dominação do cachorro.
DMRevista: Para criar você utiliza quase tudo né? Giz de cera, tintas, ect. Pode explicar um pouco a sua técnica?
Carolina Figueroa: Sim, utilizo tudo o que a lona aguentar. Primeiro preparo eu mesma a tela, graças aos conselhos da minha professora na graduação aprendi que o melhor é comprar lona e dar umas mãos de tinta branca de boa cobertura sobre ela, então a base está pronta, em cima disso começam as camadas da pintura, vem a tinta acrílica, logo alguma palavra ou rabisco de giz, ou bastão oleoso, e porquê não, também algumas transparência com óleo?
DMRevista: Sua exposição fala muito sobre submissão, qual é o momento em que sente mais livre? E, o que acha que a sociedade precisa fazer para se livrar de suas amarras sociais?
Carolina Figueroa: Querer representar alguns aspectos da sociedade sob o universo de domínio e controle do cão, não necessariamente é algo negativo. Só é mais uma característica de nós mesmos como seres humanos. Da estrutura que temos para conviver com os outros. Somos educados para seguir uma estrutura, toda situação tem um limite o qual sabemos não devemos atravessar, e se fazermos isso virá o castigo, assim como no treino do cão. São normas da sociedade, as regras que impõem os pais dentro da família, os limites que se coloca um casal, a estrutura de respeito laboral (se assim podemos chamá-lo), que precisamos seguir para nos manter nosso trabalho, estudo, etc. Pode parecer violento, mas é assim que aceitamos fazer funcionar nossa sociedade.
Agora toda violência é válida? De jeito nenhum! No livro aparece um personagem com um estranho relacionamento com a cadela mascote do colégio, se confunde a imagem de cachorra com mulher, ela recebe maus tratos ao mesmo tempo que recebe carinho, e ela sempre está aí, expectante, disposta. A sociedade, por sorte, evolui, lento mas acontece. Hoje em dia está muito em voga do que realmente definem os gêneros, ser mulher não é ser submissa nem mal tratada, nem ser homem significa ser abusador. Portanto há uma evolução nesse aspecto. Porém, o mecanismo social se mantém, há regras e graças às quais podemos viver em sociedade.
DMRevista: Em que a curadoria de Selma Parreira mais te ajudou?
Carolina Figueroa: Tive o primeiro encontro com a artista plástica e professora Selma Parreira durante minha graduação, na disciplina de pintura, posso dizer que durante os dois últimos anos do curso fiz uso e abuso da minha qualidade de aluna. Selma sempre se manteve, com muita paciência e atenção, como guia, e mais: foi ela quem orientou todo este processo de criação que resultou na série de obras que estão sendo expostas agora. No Chile eu tive uma formação em Pintura nas Belas Artes, uma coisa bem acadêmica, tinha algum domínio com o material, porém pouco, ou nada, tinha de linguagem pessoal, tudo isso foi desenvolvido aqui, dentro da FAV na disciplinas e oficinas de Selma. A iniciativa de expor estas obras em Goiânia veio por parte dela, assim como também a sugestão de expor na Vila Cultural Cora Coralina. Reconheço que ela foi o maior estímulo que tive para mostrar esta série. É uma curadoria é muito próxima à produção, é uma relação (obras-curadora) que vem de alguns anos, pode se dizer.

Obras de Donie mostram que formas feias e desconfiguradas podem ter valor e beleza própria
A artista plástica Carolina Figueroa mora em Goiânia há quase cinco anos.
Por meio da figura dos cães, Carolina Figueroa discute a submissão da sociedade.