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Dois anos de Sábado no Parque

Redação DM

Publicado em 15 de janeiro de 2016 às 18:35 | Atualizado há 1 ano

Alguns optam por um lado específico da poesia. São uma parcela de escritores e poetas que não se sentem satisfeitos pela luta desarmada no papel e precisam levantar a bandeira das letras. É a poeta pela poesia. Trata-se de perceber que essa expressão artística tem características líquidas e pode ser moldada para servir de arma, registro e declarações variadas. O Sábado no Parque, realizado em Goiânia, é um exemplo de como a arte (a poesia e outros gêneros artísticos) pode servir para ocupar espaços. Sabendo que “lugar de poesia é na calçada”, como diz a letra de Sérgio Sampaio, o poeta Kaio Bruno começou o projeto. Hoje o Sábado no Parque completa dois anos de percurso e Kaio diz tirar muito dessa experiência.

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Trata-se de um encontro entre artistas e publico, porém em um formato mais horizontal (quem participa é quem vai e vice-versa). “O projeto cria um espaço onde todo tipo de manifestação artística é bem vinda; poesia, música, artes visuais, dança, teatro, performance, fotografia, malabares, palco aberto e etc.”, diz Kaio. Para o produtor e idealizador do evento o Sábado no Parque também serve de um ponto de experimentação para os novos artistas. Neste espaço eles tem voz para tentar arrecadar a atenção do público e testar a efetividade de suas canções, poesias, desenhos e etc.

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Outra função que o projeto tem, mesmo que não seja esta a intenção inicial, é ocupar os parques de Goiânia, ou seja, trazer pessoas para esses espaços de convivência. Como se sabe a capital do Estado de Goiás é uma referência nacional de áreas verdes graças aos parques espalhados pelos bairros. Estes espaços de convivência na maior parte dos dias permanecem vazios ou recebe visitas rápidas (alguém passando daqui pra li). Portanto, a proposta de sair de casa e se dirigir até o parque para conferir os novos artistas da cultura goiana é das mais válidas para este fim de semana.

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A edição especial de dois anos do Sábado no Parque ocorre no Lago das Rosas a partir das 16h. Apresentações de dança, música, poesia, bem como exposição com artistas visuais de Goiânia marcam a programação do dia. Participam nesta edição Allex Flores, Jade Mustafé, Heitor Vilela, Tony Boro, João Felipe, João Fernandes e Carlos Eduardo (Cadu). Também será montada a banquinha letra livre com livros usados de R$ 5 até R$ 10 reais. Quem tiver algum trabalho artesanal e tenha vontade de compartilhar com o público presente também pode ficar a vontade, o espaço é livre para quem tiver interesse.

Confira entrevista com Kaio Bruno Dias:

Como surgiu a idéia de ocupar os parques com poesia, música e outros gêneros artísticos?

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O Sábado no Parque é uma das ações do selo literário letra livre, que desde 2008 organiza saraus, encontros literários coletâneas com novos autores, performances, projetos socioculturais etc. Basicamente levamos para os Parques um pouco de tudo que já fazíamos em centros de cultura, praças, ônibus e calçadas da cidade, foi uma nova forma de integração com as áreas verdes da cidade. O projeto cria um espaço onde todo tipo de manifestação artística é bem vinda; poesia, música, artes visuais, dança teatro, performance, fotografia, malabares, palco aberto etc.

Conte um pouco das últimas edições (quem participou e onde já ocorreu):

Durante esses dois anos de projeto, passamos por diversos parques, praças, e calçadas, , quase todos os parques e bosques da cidade já receberam uma ou mais edições do projeto. Sempre com uma boa concentração de público, e boa repercussão nas redes sociais, o projeto recebeu milhares de pessoas, pessoas de todas as idades possíveis, artistas locais e de outras cidades convidados especiais. Muitos artistas locais que seguem carreira na cena cultural goiana, passaram pelos palco ambulante do projeto; os músicos Lorranna Santos, Whenis Braga, Yohann Rodriguez, Luca Augusto, Willany Germano, poetas como; Luiz Felipe, Camila Leite, Frankli, Giuliane, Weber Liberato, Rudrigo Souza e muitos outros, e em diversas outras linguagens artísticas, dança, teatro, artes visuais.

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O Sábado no Parque acaba servindo de experimentação, de ponto de partida para muitos novos artistas, que depois, pouco a pouco, vão se integrando a cena cultural e a cidade onde vivem.

Produzir este tipo de evento é difícil? Conte como funciona a organização.

Toda produção exige atenção e muita dedicação, desde a mais simples a mais complexa, o Sábado no Parque tem suas dificuldade estruturais e financeiras, o projeto desde sua primeira edição acontece de forma independente. E levar a mínima estrutura para proporcionar apresentações musicais, exposições, etc, demanda um esforço bem grande, mas não estamos sós, muitas pessoas fazem parte dessas produções, é meio hardcore mas é assim que a gente gosta. Neste 2016 pretendemos nos inscrever em editais de incentivo a cultura para que as futuras edições possam ter mais estrutura e que a produção seja menos atribulada.

Você percebe uma mudança no evento de dois anos pra cá?

Percebo sim, além de se fixar como calendário mensal no inconsciente das pessoas que acompanham as ações culturais da cidade, o projeto é dinâmico, vai se modificando com o passar de cada edição, cada encontro é um grande aprendizado, onde se interage com tudo e todos ao redor.

Confira um pouco do trabalho dos poetas que se apresentam nesta edição de dois anos do Sábado no Parque:

*

Dia de chuva é complicado

Escrever no papel molhado

Nublado as idéias

O lápis úmido

Água por todo Lago

A cada gota d’água que escorre

Na telha e pinga no chão

De relapso

Escorre meu corpo

Prostrado no azulejo

Pintado de Azul Escuro

Cor de nuvem carregada

O telhado gotejando

Enche a casa de mofo

A água cai no gesso e por ali fica

Pinga por segundo

Hoje é Segunda

O Gesso é de Segunda

Segundo o pedreiro

A culpa é do Governo de não oferecer

Moradia digna

Esse papo já não é comigo

Esse papo já é antigo

Assim como o gesso

Mas hoje em dia tá na moda

Culpar o Prefeito, o Vice, e o resto

Ninguém se habilita

A estudar política.

– João Felipe

*

–Depois da morte —

Depois que se arrefece

Esvai-se o que entoa

Vida! Chuva que cresce

Mas depois garoa

Carne! Elo terrestre

Barco sobre a lagoa

Vida! Fruto silvestre

Amadurece e destoa

Depois que se esmorece

Esvai-se barco e proa

O Elo desaparece

Alvorece coisa boa

Depois que se arrefece

o ser desabotoa

a carne, o corpo desce

A alma voa

-João Fernandes

*

às vezes me sinto

igual uma folha

que após se soltar da arvore

vai de acordo com o vento

voando rumo ao chão

num voo lindo e breve

para alguns, outono

para outros, suicídio

para a folha

cinco segundos

da melhor viagem de sua vida.

-Kaio Bruno Dias

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