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“Eu amo a vida, amo viver”

Redação DM

Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:19 | Atualizado há 1 ano

Ela parece uma força da natureza. Mas é somente uma batalhadora da música brasileira, com ares de diva. Passou por muitos, mas muitos “perrengues”. E foi julgada apenas por ser o que é: mulher e negra. Estas duas condições poderiam até calar sua voz. Mas isso absolutamente não aconteceu. Tanto que, hoje, Elza Soares, aos 78 anos – e se recuperando de uma cirurgia na coluna – tem rodado o País com a turnê do seu primeiro disco com canções inéditas da vida: “A Mulher do Fim do Mundo”. Este show, que ela apresenta hoje, às 21 horas, em Goiânia (no Palácio da Música – Centro Cultural Oscar Niemeyer) é sucesso de público e crítica e, em breve, vai ganhar DVD.

O álbum “A Mulher do Fim do Mundo” foi lançado em 2015, mas já consegue ter o peso de um clássico. Felizmente muitos reconheceram rápido isto. No Brasil, o disco ganhou diversas premiações, como a de “Melhor Show Nacional”, da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo de “Melhor Álbum”. Só para citar alguns. Este ano, a obra foi lançada também na Europa, onde chegou com o título The Woman at The End of World. A recepção não foi nada diferente: o trabalho ganhou citações em jornais como o The Guardian e Financial Times.

Composto especialmente para Elza Soares por uma boa leva de novos e ousados compositores paulistas, a exemplo de Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Romulo Fróes, os figurinos nada discretos da cantora não conseguem brilhar mais que a força de sua interpretação. As canções tocam na ferida da sociedade contemporânea, que ainda não conseguiu evoluir em alguns pontos. É profundo, algumas vezes triste, mas é recheado pelo humor.

Assim, no disco que tem a produção de Guilherme Kastrup (o produtor e diretor do trabalho), a artista canta em tom sombrio e desafiador composições que falam claramente de agressão contra a mulher, como em “Maria de Vila Matilde”, que traz versos, a exemplo de: “Cadê meu celular? Eu vou ligar prum oito zero. Vou entregar teu nome. E explicar meu endereço. Aqui você não entra mais. Eu digo que não te conheço. E jogo água fervendo. Se você se aventurar”. Por outro lado, a faixa Benedita, pela qual Elza Soares coloca em pauta a vida de uma mulher transexual.

Diva e guerreira

No show, que Elza canta sentada em um trono metálico em meio a um cenário cercado por mil sacos plásticos de lixo preto, feito pelas mãos de Anna Turra, que assina cenário, luz e projeções, haverá tempo para nostalgia dos sucessos passados. O show inclui também sucessos que coroaram sua trajetória, como: “Malandro”, “A Carne” e “Volta Por Cima”.

Aliás, “Volta Por Cima” é uma música que combina muito com a própria vida desta mulher, que mesmo quando triste era ousada e criativa no palco. Na profissão de cantora, ela contou, em entrevista ao DMRevista, que entrou por necessidade, e não foram poucos os perrengues que passou nestes 60 anos de vida artística. Ela, por exemplo, neste período já perdeu quatro filhos (o último, inclusive, se foi recentemente enquanto a cantora gravava “A Mulher do Fim do Mundo”).

Teve ainda a casa metralhada na ditadura e viveu duras penas com o alcoolismo do ex-marido, o grande jogador de futebol Garrincha. Porém, ela não guarda mágoas da vida. E vive dizendo por aí: “My Name Is Now” (que significa meu nome é agora em inglês. O termo intitula seu documentário, lançado em 2014 e que tem direção de Elizabete Martins Campos).

O passado para ela não importa. O que ela quer é tentar mudar um presente, para um futuro, assim como ela, mais deslumbrante. E, talvez, por tanta garra e talento, que Elza foi eleita em 2000 como a “Cantora do Milênio” por ninguém menos que a BBC de Londres. Em entrevista ao Diário da Manhã, a cantora compartilhou um pouco de seu sucesso e a vontade de viver. Confira a conversa a seguir.

Show de Elza Soares “A Mulher do Fim do Mundo”

Data: Hoje, a partir das 20h

Onde: Palácio da Música – Centro Cultural Oscar Niemeyer

Ingressos: R$ 60,00 (frontstage), R$ 40,00 (back) e R$ 120 (camarote superior, open bar). Valores de meia entrada válidos conforme Lei da Meia Entrada e mediante a doação de 2kg de alimento não perecível.

Pontos de venda: Tribo Restaurante (Rua 36, S. Marista), Shuffle Mix (Av. Araguaia), Seven Rock Shop (shopping Buena Vista), Detroit Steakhouse (Av. 136, St. Marista) e Poema Gourmet (Rua 28, St. Marista).

Informações: (62) 3224-3737

 

Entrevista Elza Soares

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DMRevista: Você tem vivido nos últimos 15 anos momentos de amplo reconhecimento. Foi considerada em 2000 pela BBC a Cantora do Milênio e o álbum e show de “Mulher Do Fim Do Mundo” tem sido bem recebido pelo público e crítica. Elege esta fase atual como a melhor da sua carreira?

Elza Soares: My name is now, não é? Sou muito grata por tudo que vivi, mas gosto de viver o presente. “A Mulher do Fim do Mundo” tem um sabor muito especial. É o meu primeiro disco de inéditas, foram músicas pensadas para mim. Direto da rapaziada talentosa de São Paulo. É uma emoção ter um disco premiado como este, ainda mais pelo discurso que ele carrega.

 

DMRevista: Por que demorou mais de 50 anos para Elza Soares gravar um disco somente de canções inéditas?

Elza Soares: Aconteceu agora. Tinha que ser. O momento no mercado musical era outro, a gente ia fazendo. A princípio, o meu disco de 2015 não seria de inéditas também. Até que o produtor do disco, o Guilherme Kastrup, me colocou em contato com os compositores de São Paulo. E deu no que deu, nessa maravilha.

 

DMRevista: Em entrevistas, você já deu pistas de que uma continuação de Mulher do Fim do Mundo poderia sair. Já existe algo concreto neste sentido?

Elza Soares: Antes de qualquer coisa, tenho a vontade de gravar A Mulher do Fim do Mundo em DVD. O projeto está andando e o registro deve ser feito em uma comunidade de São Paulo.

DMRevista: “Mulher do Fim do Mundo” traduz a contemporaneidade de forma muito clara e poética? Como as pessoas têm reagido, por exemplo, à música Benedita e Maria de Vila Matilde? Tem despertado consciências?

Elza Soares: No show, eu percebo que as pessoas cantam junto, gritam junto as letras das música. Acho que isso acontece porque se sentem representadas. Na minha página no Facebook também chega muita mensagem dando o retorno, as pessoas fazem verdadeiros depoimentos de como essas músicas as ajudaram.

 

DMRevista: A sua voz há décadas ecoa forte, literalmente, contra o preconceito racial e de gênero. Um exemplo é a música de A Mulher do Fim do Mundo “A Carne”. Depois deste tempo de resistência e cantorias, acredita que sua trajetória tornou o caminho mais brando para outras mulheres negras?

Elza Soares: Sem dúvida, mas o mérito não é só meu. Muitas mulheres maravilhosas e inspiradoras colaboraram. Acho a representatividade algo muito importante e ainda tem um longo caminho pela frente.

 

DMRevista: Quando foi que viu que seu destino estava ligado à música?

Elza Soares: Eu comecei a cantar por necessidade. Não tinha dinheiro, meu filho doente, e fui fazer um teste no programa do Ary Barroso. A partir dali, não teve saída.

 

DMRevista: Você casou com 12 anos, ficou viúva aos 21 anos, perdeu cinco filhos, mas sempre que cai parece surgir mais forte. Qual é o segredo desta sua fortaleza?

Elza Soares: Eu amo a vida, amo viver. A música, os desafios. É o prazer de viver.

 

DMRevista: A vida com Garrincha não foi muito fácil, né? Mas, olhando para trás, ele foi o grande amor da sua vida?

Elza Soares: Não foi fácil. Mas o Mané foi um grande amor. Tanto que tô falando dele até hoje!

 

DMRevista: Pode fazer um convite para os goianos assistirem ao show?

Elza Soares: Goiânia, venha assistir o show “A Mulher do Fim do Mundo”. Tem sido emocionante em todos os lugares do Brasil e agora chegou a vez de vocês. Espero todos lá. Um selinho da Elza!

 

 

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