Identidade nativa
Redação DM
Publicado em 20 de setembro de 2016 às 02:23 | Atualizado há 1 anoAs origens da pintora Pablita Velarde remetem ao povoado de Santa Clara, localizado no Estado de Novo México, sudoeste dos Estados Unidos. Naquela região do país existem várias comunidades indígenas denominadas como “pueblos”. A palavra significa “povo” em espanhol, língua dos primeiros colonizadores a se instalarem no Novo México, que apenas no início do século XX foi anexado ao território dos Estados Unidos. A mãe da artista morreu quando ela tinha apenas cinco anos, o que fez com que ela e duas irmãs fossem mandadas para a Escola Indígena de Santa Catarina (St Catherine’s Indian School), na cidade de Santa Fé, capital do Estado, há cerca de 40 quilômetros de seu pueblo.
Seu nome de registro, Tse Tsan, significa alvorecer dourado na linguagem Tewa, um dialeto indígena falado por cerca de 1.500 nativos, segundo dados de 2007. Aos 14 anos, Pablita foi aceita no Studio Art School de Santa Fé, uma escola de artes criada pela pintora Dorothy Dunn, na unidade de ensino indígena que acolheu Pablita. O estilo plano das pinturas criadas por Dorothy Dunn influenciou bastante no de Pablita Velarde. No início de sua carreira, a pintora reservava-se a usar aquarela em seus trabalhos. Mais tarde ela passou a desenvolver suas próprias tintas a partir de pigmentos naturais, o que dão um toque extremamente pessoal, único e orgânico às suas obras. Pablita chamava esse resultado de “pinturas da Terra”.
Pablita usava pedras e minerais como matéria-prima para a fabricação de suas tintas. Esse material era moído até virar pó em utensílios indígenas, e depois transformado em líquido. Pablita faz parte da primeira geração de artistas que representam uma demanda em preservar a cultura dos americanos nativos, uma causa que ganhou ainda mais força nas gerações seguintes, inclusive dentro de sua própria família. Sua filha, Helen Hardin (1943-1984), representou a segunda geração do movimento, e ficou conhecida por misturar traços de arte tradicional e contemporânea. O talento, presente no DNA familiar, também estendeu-se à neta, Margarete Bagshaw (1964-2015), reconhecida pintora do estilo modernista.
Legado
O trabalho de Pablita Velarde passou a ganhar maior visibilidade no ano de 1939. Naquele ano ela foi contratada para criar trabalhos artísticos que transmitissem ao mundo o modo de vida do pueblo de Santa Clara. Na ocasião, a artista uniu sua técnica ao conhecimento íntimo que adquiriu de seus ancestrais enquanto viveu no povoado de nativos. Seus estudos originaram cerca de 70 peças que remontam vários elementos culturais dos americanos nativos: penteados, roupas, danças cerimoniais, diferenças entre homens e mulheres, arquitetura e atividades cotidianas. “Apesar de as pessoas oriundas dos pueblos fazerem parte de um mundo em constante mudança, eles tinham o impulso de preservar suas origens”, conta o site do museu Bandelier.
Nos anos que seguiram à conclusão deste trabalho, Pablita Velarde passou a ser conhecida como uma das maiores promessas da pintura feita por nativos americanos em seu país. Sua obra passou a ser tema de uma série de exposições individuais em várias partes dos Estados Unidos. Em 1953, ela tornou-se a primeira mulher a receber o prêmio máximo da exposição anual de artes indígenas contemporâneas do Museu de Philbrook. No ano seguinte, veio o reconhecimento internacional. Em 1954 ganhou uma honraria proclamada pelo governo da França (o Palmes Académiques) em reconhecimento à sua excelência artística. No início dos anos 1990 recebeu um prêmio da instituição Women’s Caucus for Art pelo conjunto de sua obra.
Em 1979, Pablita declarou em entrevista que o fato de ter tornado-se uma pintora de grande reconhecimento rompeu várias barreiras e preconceitos. “No meu tempo a pintura não era considerada um trabalho para mulheres. As mulheres supostamente deveriam ser “apenas mulheres”, sendo responsáveis por serviços domésticos. Coisas que eu não estava interessada em fazer.” A artista continuou exercendo seu ofício até o momento de sua morte, em 2006, aos 87 anos. Hoje, ela é vista como um grande exemplo de resistência e de representatividade diante do povo índio dos Estados Unidos. Três gerações de pinturas podem ser vistas na galeria Golden Dawn, criada por Margarete Bagshaw, sua neta, no centro de Santa Fé, Novo México.
