“Meu corpo está pedindo um disco novo. Ele que manda”
Redação DM
Publicado em 20 de janeiro de 2017 às 21:38 | Atualizado há 9 anos
Vanessa da Mata é uma mulher de muitas palavras, tons, cores, ritmos, religiões e talentos. Na carreira artística é uma compositora, que consegue ser ao mesmo tempo radiofônica e premiada pela crítica (já ganhou mais de cinco Grammys Latinos). Se divide ainda entre uma escritora, digamos, maternal que se apaixona e apega pelos próprios personagens que criou (Vanessa lançou em 2013 o livro A Filha das Flores).
Em meio a tanta descrença, Vanessa cultiva ainda um lado espiritual, no qual mistura a fé católica (pela formação), budista e das religiões-afro brasileiras (por pura simpatia e interesse). Este seu lado, a motivou escrever orações no Twitter, que são aguardadas, por seus seguidores. Ou melhor: por seus “passarinhos”, como ela designa carinhosamente os fãs nas redes sociais.
Esta sua natureza inquieta, sensível e sagaz, de uma mulher forte, mas que não tem medo de expôr o lado sensível e frágil, como na música Não Me Deixe Só, a artista vai deixar transparecer quase inteiramente no show que faz hoje em Goiânia, que acontece a partir das 21 horas, no Teatro Rio Vermelho. A proposta do show é de um encontro bem intimista, em que o público vai poder sentir até a respiração da cantora, como ela mesmo garantiu em entrevista ao DMRevista.
Em uma proposta, em que entra acompanhada apenas dos músicos Danilo Andrade (piano) e Maurício Pacheco (violão e guitarra), a artista uniu alguns do seus grandes sucessos (como Boa Sorte, Ainda Bem, Ai, Ai, Ai) a canções de compositores que admira e, versões inusitadas. Um exemplo é que além de seu “muso” inspirador e declarado, Tom Jobim, a artista faz uma pequena e bem humorada vingança, para aqueles que no início da carreira a pediam para cantar sertanejo. Assim, traz uma versão rock n’ roll de Vá Para o Inferno Com Seu Amor. “Canto sim sertanejo, mas do meu jeito”, disse em tom divertido.
Lançamento
Com mais novidades, ela chega hoje a Goiânia. Pois, ontem ela lançou o single e clipe, com participação do duo de DJs É Tudo o Que Eu Quero Ter, repleta de batidas eletrônicas, misturadas ao seu timbre suave e intenso, que lembra, tantas cantoras da MPB reunidas em um só corpo.
No dia que conversamos com a artista – na última quarta-feira (18), a canção recém-lançada ainda era mistério para seus fãs. Nas, suas redes, ela compartilhou apenas que ia lançar algo, mas não disse do que se tratava, o que gerou grande curiosidade em seus fãs, na internet. E, no momento da entrevista, também continuou com o clima de mistério, dizendo apenas que no show logo poderia, sim, haver trechos da canção nova.
Na conversa, ela falou ainda, muito disposta e bem humorada da necessidade quase fisiológica de lançar um trabalho novo – não sabe se em formato de DVD ou álbum –, ainda neste semestre. Compartilhou também um pouco das suas origens crenças ecumênicas e da tristeza que sente ao ver o descaso do homem com a natureza, principalmente no estado em que nasceu, Mato Grosso. Confira trechos da conversa a seguir.
ENTREVISTA — VANESSA DA MATA
DMRevista – O repertório é bem eclético. Vai de Tom Jobim a Milionário e José Rico. Como foi a escolha das músicas de Delicadeza? Você gosta de sertanejo?
Vanessa da Mata – Olha, eu sou mato-grossense de um local bem no centro do Brasil. E muito brasileiro, no sentido de ter tantas possibilidades sonoras folclóricas, também, que vieram do sudeste e até do norte, nortão mesmo, Amazônia, Pará… Então eu ouvi realmente muita coisa. O Milionário e José Rico, na verdade entrou no show, porque tem um momento no show que eu falo que eu sofri muito bullying por cantar outras coisas que não eram sertanejo. E na verdade, as pessoas faziam muita pressão para eu cantar música sertaneja. Eu vinha de um estado que era um dos maiores produtores de sertanejo do Brasil, assim como Goiás. Neste momento eu canto Vá Pro o Inferno Com Seu Amor em rock n’ roll (risos). Fazendo uma brincadeira que mostra que finalmente eu estou cantando sertanejo, mas peraí, do meu jeito. E essa música coube muito bem no rock, ta divertida (risos).
DMRevista – No show você interage bastante com a plateia, correto?
Vanessa – É um show que eu trago a plateia para dentro da minha sala de estar. Eu desço na plateia, eu conto casos engraçados da minha família, eu conto como as músicas surgiram… E é um show dedicado aos compositores e à música mesmo. De como a gente está a serviço da música em cima do palco. Não tem um monte de coisa e a música em quinto lugar. Não é um monte de projeção, cenário enorme. É um show puro. A música é pura, quase como se tivesse surgindo naquele momento. É um show que mostra interpretação e as pessoas ouvem quase a respiração, porque são poucos os instrumentos. É um violão ou guitarra que o Maurício Pacheco alterna, e piano. Então a voz fica nua para as pessoas. É divertido de ver. Comecei a ter a ideia de fazer um show com poucos instrumentos, e uma vez, em um show em homenagem a Tom Jobim tive a participação de Caetano Veloso, em Ipanema e ele tava lá na coxia ouvindo com fone, e depois ele veio e me disse: sua voz é lindíssima você podia cantar só com violão. E eu fiquei com isso na cabeça anos. Eu também sempre cantei músicas em casa, que as vezes não encaixavam no meu show. Eu fui guardando aquelas música, porque elas são silenciosas e mais delicadas mesmo. E aí guardei e comecei a pensar mais em fazer um show mais sucinto, mais puro, como se tivesse em casa. E não dá pra levar um banda enorme para dentro de casa. Essa delicadeza é uma aproximação.
DMRevista – E falando em Tom Jobim, você tem um carinho especial por ele já gravou um disco dedicado a ele e ainda o chamava de marido? Quando foi que começou esta admiração?
Vanessa – No palco eu chamo sim, eu falo: agora vou cantar uma música do meu marido, e as pessoas ficam tentando saber quem é e percebem que é Tom Jobim (risos). Eu sou quase amante dele, que morreu casado (risos). Sou praticamente segunda (risos). Mas, tem vários compositores tem Marcelo Camelo, Gonzaguinha, músicas minhas e que são hits, que tocam no rádio faz tempo. Eu faço homenagem à grandes cantoras, como Gal Costa e Clara Nunes. São duas horas show tem muita coisa.
DMRevista – O single novo que está lançando (É Tudo o Que Eu Quero Ter) prenuncia a chegada de um novo álbum?
Vanessa – Esse ano, com certeza, agora no primeiro semestre eu vou lançar um novo trabalho. Agora não sei se é CD ou DVD, mas a intenção é de lançar. Segue o Som (seu disco mais recente), está fazendo dois anos e este geralmente o tempo que eu me dou para lançar um trabalho novo. Eu já estou trabalhando que nem uma maluca, na criação de músicas novas. Eu acho que… não tem muita escapatória (risos). Porque já começa uma produção, que é um pouco fora de controle, que parece o próprio corpo pedindo, sabe? Eu não tenho escolha, parece que o corpo diz: vamos lançar um novo disco. E eu obedeço sou simplesmente uma reles empregada mortal (risos). Tem que fazer.. obedecer (risos).
DMRevista – Depois do romance A Filha das Flores, você tem projetos de continuar fazendo livros?
Vanessa – Eu gostaria de continuar porque eu me diverti muito. É mágico o trabalho, delicioso. Acho que todo mundo deveria escrever um livro, nem que seja para a família ou para si mesmo. Porque você faz um mundo, que parece existir de verdade. No final eu estava tão apegada que eu não conseguia terminar o livro. Essa é uma história que me tomou. Eu ficava vivendo. Me apaixonei também pelos personagens… Eu quero sim continuar, mas este ano não sei se vai dar. Tem muita coisa.
DMRevista – Você tem descendência indígena. Como é que percebe a influência deste sangue em sua vida e seu trabalho?
Vanessa – Meu avô paterno era negro e índio e minha avó materna era uma senhora maravilhosa. Eu acho que a musicalidade com certeza eu herdei deles. Porque a parte negra da minha família é muito religiosa, feliz, cheia de música. Tudo é música. Minha avó, mesmo branquinha, ela dançava. Meu avô tocava em fanfarra, sempre havia alguém com violão. A música era muito viva dentro de casa. E eu tenho influência deles o tempo todo. E eu tenho uma compreensão e respeito muito grande pela natureza. Eu saí do Mato Grosso muito magoada e triste com a degradação da natureza e da ambição das pessoas. Eu via lobo-guará andando na estrada e chorava, porque era muito triste, pesado, emotivo, porque você vê que aquele bicho não vai sobreviver muito tempo. E são bichos lindos e a gente não tem esse direito. Toda vez que eu vou lá eu fico impactada, porque a água já está ardendo nos olhos das pessoas por causa do veneno, porque às seis da tarde tem um enxame de abelha, que ninguém sabe de onde vem, que é uma praga… Não tem um bicho que come. É muito difícil de ver. Eu vi Mato-Grosso riquíssimo de uma outra maneira, né?
DMRevista – As suas orações estão bem famosas no Twitter. Como foi que começou este costume? Você segue alguma religião, porque as orações são bem ecumênicas, né?
Vanessa – Eu fui criada na igreja católica, mas depois de crescida eu comecei a pesquisar várias religiões. Das africanas, porque eu tinha um medo enorme, e eu comecei a ler e vi que não era nada daquilo, são as pessoas que colocavam muito medo em mim, na minha família. E eu comecei a ler sobre e vi a ligação com a natureza e eu acho lindo o candomblé, a umbanda, a ligação com a mitologia brasileira, acho lindo. Também gosto do budismo, essas religiões que tem ligação com a natureza me encanta muito e acho que faltam um pouco no Brasil. Se a gente tivesse mais, daríamos mais valor à natureza, porque acho completamente ingrato a gente receber tanto e destruir tanto. E nas minhas orações eu misturo tudo, porque eu acho que estamos em um momento tão preconceituoso, arrogante de achar que você é o certo porque você tem aquela religião… Eu acho que foi bem vindo o momento. E são várias pessoas de muitas religiões que estão chamando coisas boas. Muitas pessoas gostam das orações e cobram. É engraçado (risos). Aí se faz uma corrente positiva e eu fiquei feliz delas (as pessoas) acompanharem.