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Música e história se unem em espetáculo do grupo Vida Seca

Redação DM

Publicado em 5 de outubro de 2016 às 02:44 | Atualizado há 1 ano

Do lixo à música erudita. Com instrumentos feitos de materiais reutilizáveis para criar novas propostas sonoras, o grupo Vida Seca apresenta, nos dias 6 e 7 de outubro, seu mais recente trabalho no teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG), Centro. “Rua 57, nº 60” possui 50 minutos de música instrumental e autoral sobre a temática do Césio 137, o maior acidente radiológico do mundo, que ocorreu em Goiânia há 29 anos.

A ideia de trabalhar com este assunto teve início em 2007. De uma performance artística e um vídeo dança em parceria do ¿por quá? grupo de dança, surgiu a necessidade de pensar mais profundamente sobre a história de Goiânia por meio da arte, como explica o integrante Ricardo Roqueto. “Trabalhamos bastante na trilha sonora do vídeo, gravamos muita coisa […] e esse material ficou guardado. A gente tratou ele como uma ‘sobra’ no primeiro momento, mas depois ouvindo e vendo sua riqueza, percebemos que ainda tínhamos algo a percorrer com essa história.”

E realmente tinham. Tanto que a relação do grupo com o acidente radioativo se estendeu a um CD (2015) e a um projeto cultural, o “Rua 57, nº 60 – Intercâmbio e Difusão”, que teve início em 13 de setembro com programação composta por palestra, mostra de vídeos e oficina. O encerramento do projeto se dá por meio das apresentações do espetáculo, que ocorrem nesta quinta-feira (6/10) às 20h; e sexta-feira (7/10) às 10h, 15h e 19h.

“Rua 57, nº 60” é aberto ao público em geral e à comunidade escolar com horários flexíveis para atender todos os turnos de aula. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados na bilheteria do teatro 2 h antes do espetáculo. Para as escolas interessadas, a inscrição dos alunos pode ser feita pelo site www.vidaseca.com.br/rua57

 

O que já foi feito

“Até hoje me perguntam se eu brilho de noite.” A piadinha, que de engraçada não tem nada, saiu da fala de Sueli Lina de Moraes, vítima e presidente da Associação de Vítimas do Césio 137. Toda piada tem um fundo de medo, ignorância e, principalmente, falta de informação. Foram essas as questões levantadas na palestra “Césio 137 – 29 anos”, que abriu a programação “Rua 57, nº 60 – Intercâmbio e Difusão”, projeto cultural organizado pelo Vida Seca.

A data não podia ser mais oportuna. No dia 13 de setembro completaram-se exatamente 29 anos que foi deflagrada a cápsula com 19 gramas de Césio 137 no centro da capital goiana. Por isso, para abrir a programação do projeto, Sueli Lina e Júlio de Oliveira, professor e pesquisador do tema, foram convidados para expor sobre suas experiências na área.

Só porque se passaram quase 30 anos do ocorrido, não significa que devemos deixar que ele se isole no passado da memória da cidade. As consequências e sua gravidade são visíveis até hoje, como no caso das vítimas que, com maior ou menor grau de contaminação, lutam na justiça por seus direitos e enfrentam sérios problemas de saúde em decorrência do acidente. “A maioria das pessoas que trabalharam com a gente (com os contaminados) está com câncer. De policiais a bombeiros, infelizmente, a maioria”, comenta Sueli Lina.

A estudante de Arquitetura e Urbanismo Bruna Moreno comenta que foi na palestra, que teve um contato mais profundo sobre os efeitos do acidente em Goiânia e considera que entender o que foi esta parte da história é um fator crucial para enxergar a cidade nos dias de hoje. “Me dei conta de que é o maior acidente radiológico do mundo e talvez ninguém saiba, nem quem mora aqui. São pessoas que passam pelo centro todos os dias, que vão a eventos no Centro de Convenções [área onde funcionava o Instituto de Radiologia de Goiânia], que nem sabem que existiu o acidente. Para mim não faz sentido.”

Mas o que não faz sentido algum para a professora Maria Cecília Abdalla é o depósito do Césio 137, localizado em Abadia de Goiás, município a 22 km de Goiânia. Lá estão enterradas toneladas de lixo radioativo, causando desconfiança por parte de moradores. “Em momento algum fomos consultados a respeito da colocação do depósito em Abadia de Goiás […] Nós não sabemos se aquele depósito é seguro ou não.”

A desinformação é recorrente na história que envolve o acidente com o Césio 137. O governo falhou em políticas públicas, dando brechas para que uma onda de medo se alastrasse em Goiânia. Os mais prejudicados sãos os cidadãos e as vítimas que sentem o preconceito na pele até hoje. “Fico assustada porque não teve política de conscientização. Não teve e não tem informação até hoje”, comenta a estudante Bruna Moreno.

A falta de políticas públicas informativas e de conscientização levou o Vida Seca a trabalhar o assunto por meio da arte. Por ser uma forma de expressão muito rica, o grupo tem como objetivo levar o assunto adiante de forma mais envolvente e musicada. Assim, a primeira etapa do “Rua 57, nº 60 – Intercâmbio e Difusão” se encerra com uma fala do professor Júlio de Oliveira. “A importância desse projeto é total. Exatamente por ser uma forma muito própria de, hoje, trazermos à tona essa questão. Não só para os jovens, mas para a sociedade como um todo.”

Porém, ficou a pergunta. O que podemos fazer 30 anos depois do acidente? A resposta é simples. Não deixar que ele se esqueça na memória. Este é um fenômeno que ainda vai se projetar no futuro. Trazer à tona todas as informações e estudos já feitos é fundamental para que possamos conhecer nossa própria história e lutar por um futuro com mais qualidade de vida.

Vida Seca apresenta Rua 57, nº 60

Quando: 6 e 7 de outubro de 2016

Horários: 6 de outubro – 20h

7 de outubro – 10h / 15h (sessão esgotada) / 19h

Local: Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG)

Endereço: Rua 75 nº 46, Centro

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