Economia

Banco Central decreta liquidação da REAG Investimentos em meio a investigações da Polícia Federal

Léo Carvalho

Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 09:47 | Atualizado há 6 meses

Decisão do Banco Central encerra operações da REAG Investimentos e impõe liquidação extrajudicial da administradora de fundos | Foto: Divulgação
Decisão do Banco Central encerra operações da REAG Investimentos e impõe liquidação extrajudicial da administradora de fundos | Foto: Divulgação

O Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial da REAG Investimentos, empresa investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeitas de envolvimento em fraudes no Banco Master e em esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao PCC.

A REAG era responsável pela administração de mais de 80 fundos de investimento e também gerenciava patrimônio de pessoas físicas. Em seu site institucional, a empresa, que recentemente passou a se chamar CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, afirmava ser a maior gestora independente do país, com 340 bilhões de reais sob gestão. Com a decisão do BC, todas as operações da instituição foram encerradas, o que impede a continuidade da administração de fundos de investimento.

Segundo o Banco Central, a liquidação foi motivada por graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional (SFN). O órgão informou que seguirá adotando todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades, o que pode resultar na aplicação de sanções administrativas e no envio de comunicações a outras autoridades competentes. Também foi decretada a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex administradores da instituição.

Decisão publicada

A decisão foi publicada no site do BC, que já nomeou o liquidante responsável por conduzir o processo. Na avaliação da autoridade monetária, o funcionamento da REAG representava risco aos investidores e ao próprio sistema financeiro. O Banco Central não detalhou as irregularidades identificadas, mas a empresa é citada em ao menos duas investigações distintas da Polícia Federal. Uma delas apura suspeitas de participação em fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A outra é a Operação Carbono Oculto, que investiga o uso de fundos de investimento em esquemas ligados à máfia dos combustíveis e a organizações criminosas, entre elas o PCC.

Apesar da liquidação da administradora, os fundos de investimento não foram encerrados. Eles permanecem temporariamente congelados e deverão escolher uma nova instituição financeira para a gestão dos recursos. A escolha precisará ser submetida à aprovação em assembleia de investidores.

A economista Zeina Latifi afirmou que a atuação do Banco Central é essencial para a manutenção da confiança no sistema financeiro. Segundo ela, o crescimento do setor, com o surgimento de novas instituições, exige monitoramento permanente para prevenir irregularidades e permitir a suspensão tempestiva de operações que apresentem riscos.

Mecanismos

As investigações da PF apontam a existência de um esquema de supervalorização artificial de ativos. Segundo especialistas ouvidos no inquérito, operações simuladas inflavam o patrimônio das instituições envolvidas. Em um dos casos analisados, ativos com valor de mercado significativamente inferior eram registrados por valores elevados, o que fazia o patrimônio declarado crescer de centenas de milhões para bilhões de reais, sem lastro econômico compatível.

Em 2024, o fundo High Tower vendeu parte desses títulos superavaliados ao fundo D Mais, que registrou o pagamento de mais de 6 bilhões de reais. O Banco Central não detalhou o destino do valor restante da operação. Parte do pagamento incluiu 450 milhões de reais provenientes do Banco Master. Esse montante passou por uma sequência de transferências entre fundos administrados pela REAG.

No dia 24 de abril, em um intervalo de aproximadamente três horas, os 450 milhões de reais circularam por dez fundos distintos e retornaram ao Banco Master na forma de aplicação em CDBs. Segundo especialistas, esse mecanismo elevava artificialmente o valor dos ativos ao longo da cadeia de fundos e mascarava o risco das operações, criando a aparência de liquidez e solidez financeira da instituição bancária.

Ainda na última quarta-feira (14), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, definiu os peritos da PF que terão acesso ao material apreendido no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master. Toffoli confirmou a participação da Polícia Federal na análise dos documentos, após inicialmente atribuir a responsabilidade à Procuradoria-Geral da República (PGR).

Quem vai investigar

Os peritos nomeados são especialistas nas áreas de informática e contabilidade. A Polícia Federal ficará responsável pela extração dos dados dos equipamentos apreendidos nas cidades onde ocorreram as diligências, com posterior envio das informações à PGR. Veículos e relógios apreendidos permanecerão sob custódia da PF.

O ministro também retirou o sigilo da decisão que autorizou a segunda fase da Operação Compliance Zero. No documento, assinado no dia 6 de janeiro, Toffoli relata que a investigação teve início a partir de uma denúncia anônima. A PF identificou suspeitas envolvendo a família Vorcaro e o possível uso de uma clínica médica para desvio de recursos.

De acordo com a polícia, o Banco Master direcionava parte significativa dos recursos captados no mercado por meio da emissão de CDBs a fundos de investimento nos quais o próprio banco figurava como cotista único. Esses fundos eram utilizados para adquirir notas comerciais e direitos creditórios de empresas com vínculos societários ou relações pessoais com os sócios do banco.

Defesas e mais citados

Entre os casos citados está o da clínica Mais Médicos S.A., que teria emitido 361 milhões de reais em notas comerciais sem garantias. Segundo a Polícia Federal, a empresa possuía capital social integralizado zero e receita operacional bruta anual de 54 mil reais, valor considerado incompatível com o montante da dívida registrada.

A defesa de Daniel Vorcaro negou a prática de irregularidades. Em nota, afirmou que o Banco Master não realizou operações para beneficiar terceiros ou parentes e que, antes da liquidação, Vorcaro teria feito sucessivos aportes de capital para preservar a instituição e proteger credores e investidores.

A clínica Mais Médicos declarou que todas as operações realizadas são regulares e informou que está colaborando com as investigações. A REAG Investimentos ainda não se manifestou.


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