Economia

Distribuidoras pagam mais que o dobro por gás em leilão da Petrobras

Giovanna Gonçalves - Estágio DM

Publicado em 1 de abril de 2026 às 13:28 | Atualizado há 2 meses

Leilões com ágio elevado e alta do GLP importado aumentam pressão sobre o preço do gás no Brasil | Foto:  Paulo Whitaker/Reuters
Leilões com ágio elevado e alta do GLP importado aumentam pressão sobre o preço do gás no Brasil | Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Em leilões realizados nesta terça-feira (31), a Petrobras vendeu gás de cozinha a preços bem superiores aos praticados normalmente por suas refinarias, com distribuidoras chegando a pagar, em um dos lotes, mais do que o dobro do valor habitual.

A estatal leiloou um volume equivalente a 11% das vendas nacionais previstas para abril, para entrega em sete diferentes locais. O produto retirado na refinaria de Duque de Caxias (RJ) foi vendido com ágio de 117% em relação ao preço da unidade, de R$ 2.596 por tonelada.

O comprador, portanto, se comprometeu a pagar esse valor acrescido de R$ 3.030 por tonelada. O ágio mínimo para as compras nessa refinaria era de R$ 950 por tonelada. As distribuidoras estimam que o ágio máximo pago represente um aumento de R$ 8,29 por botijão vendido com esse lote.

A Petrobras afirma que os leilões são realizados para cobrir parte do mercado comercial e industrial do combustível e não deveriam impactar o preço dos botijões. No entanto, atualmente não há diferenciação legal de preços entre os diferentes usos.

Essa diferenciação existia até 2022, quando foi extinta pelo governo Jair Bolsonaro. Antes, a Petrobras praticava um preço para o enchimento de botijões de 13 quilos, mais utilizados em residências, e outro, mais caro, para os demais vasilhames.

Ágios elevados em diferentes refinarias

Nos leilões desta terça, os ágios variaram entre 117% em Duque de Caxias e 47% em Betim (MG), onde o prêmio mais alto chegou a R$ 1.280 por tonelada, além dos R$ 2.725 por tonelada praticados normalmente pela refinaria local.

A oferta dos lotes adicionais de GLP (gás liquefeito de petróleo, o gás de cozinha) seria realizada na semana passada, mas foi suspensa à espera de uma definição do governo sobre medidas para reduzir o impacto da alta do petróleo sobre o botijão.

Desde o início da guerra no Irã, o GLP importado para o Brasil subiu 60%, segundo a paridade de importação calculada pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A alta pressiona a Petrobras, responsável pela maior parte das importações.

A estatal não reajusta o preço do GLP em suas refinarias desde julho de 2024. Segundo dados da ANP, o produto está sendo vendido, em média, com defasagem de 45% em relação à paridade de importação.

Pressão no mercado e medidas do governo

A Acelen, dona da maior refinaria privada do Brasil, confirmou nesta quarta-feira (1º) um reajuste de 15% no combustível, o primeiro desde o início do conflito no Oriente Médio. A empresa é responsável por 4,7% do abastecimento nacional.

O governo anunciou que analisa a possibilidade de conceder subsídios ao produto, aumentar a fiscalização da cadeia de abastecimento e intensificar o monitoramento dos preços ao consumidor para tentar evitar repasses.

O preço do gás é um tema sensível para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desde o início do terceiro mandato. Em 2025, foi aprovado no Congresso o programa Gás do Povo, que ampliou para 15,5 milhões o número de famílias beneficiadas com botijões gratuitos.

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Setor cobra atualização de preços

As distribuidoras de gás alertaram o governo para a necessidade de rever o preço de referência para a venda de botijões no programa, diante do aumento dos custos. Em carta ao Ministério de Minas e Energia (MME), citam o reajuste da Acelen e os leilões da Petrobras como fatores de pressão.

“A não atualização tempestiva das tabelas de preços de referência pode resultar em uma fuga massiva de revendas do programa e maior dificuldade na ampliação para os cerca de 900 municípios restantes”, diz o texto, assinado pelo Sindigás (Sindicato das Empresas Distribuidoras de GLP).

(Folhapress/Nicola Pamplona)


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