Dólar recua e Bolsa oscila com nova ofensiva tarifária de Trump
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 16:44 | Atualizado há 5 meses
Dólar recua e Bolsa oscila com nova ofensiva tarifária de Trump | Foto: Saul Loeb/AFP
O dólar opera em queda nesta segunda-feira (23), com investidores atentos aos desdobramentos da nova ofensiva comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a Suprema Corte norte-americana derrubar tarifas impostas a diversos países.
Depois da decisão da Suprema Corte, Trump anunciou a intenção de impor uma tarifa global de 15% sobre todos os produtos importados pelos Estados Unidos.
Às 15h42, a moeda americana recuava 0,23%, cotada a R$ 5,163, caminhando para renovar a mínima em quase dois anos. Já o Ibovespa registrava queda de 0,64%, aos 189.313 pontos, apesar da alta de cerca de 2% das ações da Petrobras, impulsionadas pela valorização do petróleo no mercado internacional.
Decisão da Suprema Corte derruba tarifas de Trump
Na sexta-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais as tarifas impostas pelo governo Trump, por um placar de 6 votos a 3.
O presidente havia se apoiado na IEEPA — Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional — para aplicar as sobretaxas a diversos países sem a aprovação do Congresso. Os ministros da Suprema Corte discordaram da interpretação de que a legislação de 1977, criada para situações de emergência, concede esse poder ao presidente.
A derrota representa um duro golpe econômico e político a uma das iniciativas mais emblemáticas do segundo mandato de Trump. Além da perda de capital político, os Estados Unidos podem ser obrigados a devolver mais de US$ 175 bilhões (R$ 912 bilhões) arrecadados em tarifas, segundo cálculo de economistas do Penn-Wharton Budget Model a pedido da Reuters.
Trump reage e anuncia nova tarifa global de 15%
Irritado com a decisão, Trump ordenou a imposição de uma tarifa de 15% com base em outra legislação, a Seção 122, de 1974. A cobrança começa nesta terça-feira (24).
“Eu, como presidente dos Estados Unidos da América, irei, com efeito imediato, aumentar a tarifa mundial de 10% sobre países, muitos dos quais têm ‘roubado’ os EUA durante décadas, sem retaliação (até eu chegar!), para o nível totalmente permitido e legalmente testado de 15%”, escreveu Trump em uma postagem na rede Truth Social.
A Seção 122 concede ao presidente poder para impor temporariamente tarifas de até 15% sobre importações quando há déficits significativos na balança de pagamentos. Nesse caso, a taxação expira em 150 dias, a menos que o Congresso aprove uma extensão. Paralelamente, o governo trabalhará na emissão de novas tarifas “legalmente admissíveis”, afirmou Trump.
Na manhã desta segunda-feira, o presidente voltou a criticar a Suprema Corte e disse que outras tarifas poderão ser aplicadas de forma “muito mais poderosa e desagradável”.
Na avaliação de Higor Rabelo, especialista e sócio da Valor Investimentos, “o que começou como muito positivo, até eufórico, rapidamente virou cautela”.
“Trump reagiu rápido e manteve a política tarifária amparada em ferramentas diferentes, o que dificulta que a Suprema Corte impeça novamente o tarifaço. Agora, bolsas ao redor do mundo, inclusive a brasileira, entraram no campo negativo — uma correção iniciada na sexta-feira, mas também marcada por esse viés de cautela”, afirmou.
Brasil se beneficia de nova dinâmica comercial
No Brasil, a queda do dólar reflete a percepção de que a nova tarifa de 15% pode beneficiar o país.
Essa visão reforça a atratividade do mercado brasileiro, que já vinha sendo favorecido pelo fluxo de investidores estrangeiros para mercados emergentes.
“O Brasil e as empresas brasileiras já estavam em uma condição de subvalorização, o que atraiu capital estrangeiro. Com essa nova percepção de que Brasil e China estão entre os mais beneficiados pela nova política [de Trump], o interesse se mantém”, disse Rabelo.
O dólar também perde força frente ao real nesta segunda-feira devido à valorização do petróleo no mercado internacional. Em Londres, o barril do Brent, referência global, avançava cerca de 1%, cotado a US$ 72. As ações da Petrobras subiam mais de 2% em reação ao movimento.
“O câmbio mais uma vez segue a perspectiva já descrita: para além da ótica do dólar mais fraco, o real se aprecia na esteira das commodities. Essa frase tem um duplo sentido profundo. É a realidade das commodities que se impõe contra o dólar, e o Brasil é profundamente ligado ao mercado de matérias-primas”, afirmou o economista André Perfeito, da Garantia Capital.
“Esse movimento pode continuar e, sendo assim, as revisões no [boletim] Focus tendem a se tornar mais evidentes”, acrescentou.
Juros elevados seguem atraindo capital ao país
O boletim Focus divulgado mais cedo pelo Banco Central mostrou que a mediana das projeções para a Selic ao fim deste ano caiu de 12,25% para 12,13%. Atualmente, a taxa básica está em 15% ao ano e, segundo os economistas consultados, o ciclo de cortes deve começar em março, com redução de 0,5 ponto percentual.
O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos vem sendo apontado como um dos fatores que atraem investimentos ao país, contribuindo para a queda do dólar nos últimos meses.
Mesmo com a perspectiva de cortes, o diferencial permanece atrativo, já que a Selic deve seguir em patamar de dois dígitos nos próximos anos. Nos Estados Unidos, crescem as expectativas de que o Federal Reserve mantenha a taxa na faixa entre 3,5% e 3,75%, diante das incertezas comerciais e geopolíticas.
Tensões geopolíticas seguem no radar dos investidores
Também seguem no radar as tensões entre Estados Unidos e Irã. O governo iraniano indicou estar disposto a fazer concessões em seu programa nuclear em troca do fim das sanções norte-americanas e do reconhecimento de seu direito de enriquecer urânio.
No domingo, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que as negociações recentes apresentaram “sinais encorajadores”, mas disse que Teerã permanecerá vigilante em relação às ações dos Estados Unidos.
“Continuamos monitorando de perto as ações dos EUA e tomamos todas as providências necessárias para qualquer cenário potencial”, afirmou em publicação na rede social X (antigo Twitter).
(Folhapress)