Entretenimento

A pintora das chamas

Redação DM

Publicado em 30 de junho de 2018 às 21:51 | Atualizado há 1 ano

A espetacular Procissão Fo­garéu, que acontece du­rante a Semana Santa, na cidade de Goiás–na Quarta-Feira Santa–sem dúvidas já comoveu os olhos e almas de muita gente. Mas podemos dizer que para ar­tista plástica Cristiane Rezende, o tradicional evento fez mais do que isso: mudou sua vida. Os colori­dos farricocos chamuscados pelo fogo são temas e motivações de sua arte, e eles iluminaram ainda a visão da artista para produção de uma arte cada dia mais volta­da à preservação do folclore e das festas populares brasileiras.

Essa história de Cristiane Rezen­de com os farricocos não é tão anti­ga, começou em 2013, quando foi conferir, com os olhos de turista a cidade de Goiás, a famosa Procis­são do Fogaréu. Contudo, quando notou os farricocos transformarem as ruas da antiga Vila Boa em fogo, foi a Cristiane artista que assumiu a viagem. Talvez, por ela nunca an­dar sozinha. “A criação, as cores…É um vício. Nunca abandono a arte”.

Daí para frente, além da arte um personagem impregnou nas suas criações feito fogo em quero­sene. “Já estudei outros temas da tradição cultural das festas goia­nas, já pintei uma série com todas as festas, mas não adianta meu coração se alegra sempre que me sento em frente a uma tela branca e digo vou pintar o fogaréu”, conta.

FARRICOCOS VERSÁTEIS

O personagem pictórico desta artista pode até ser o mesmo. Con­tudo, o dom de Cristiane Rezende transforma cada quadro em uma experiência especial. “Cada tela tem sua alma e, mesmo se colocar­mos todas obras juntas, pode-se notar que todas elas são diferentes por causa da emoção empregada nelas. Minhas pinceladas e mistu­ras das cores se tornam únicas em cada pintura”, ressalta.

Inovação é o lema, pois a artista conta que vira e mexe procura criar em cima da imagem do protagonis­ta de sua pintura. Assim, é possível notar farricocos em situações que nada tem a haver com a tradicional procissão. “Já fiz farricocos fazen­do até a dança do pau de fitas”, diz.

As nuances de pintar as for­mas angulares e de cores fortes dos farricocos são também redes­cobertas quase que diariamente. “É uma transformação constan­te. Minha mente criativa apresen­ta ideias sempre. A cada dia me sinto mais livre para pintar. O que não muda é apenas o meu amor pelos farricocos”, afirma a artista que hoje diminuiu as pinceladas nas telas e o jogo luz está mais in­tenso, técnicas fazem as telas apa­rentarem estar em 3D.

FARRICOCOS NO MUNDO

É bem verdade que aquela ca­minhada tensa embalada pelos tambores da procissão do foga­réu, abriu as portas para Cristia­ne decolar na arte. “Tenho me surpreendido com a repercus­são das obras nas redes sociais. Minha arte tem alcançado mui­tas pessoas amantes e aprecia­dores da arte, meus Farricocos e santas ceias tem atravessado barreiras para outros países, na Europa e nos Estados Unidos. Tem um colecionador na Cali­fórnia que adquire meus traba­lhos desde 2011. Isto me deixa muito contente”, celebra.

No Brasil tem motivos para celebrar também. Uma conquis­ta que celebra é a de ter ilustra­do um cenário para um concur­so de festa junina promovido pela Secult. Ela também pin­tou o muro da galeria aberta do Colégio Dom Bosco e, em 2015 mostrou seus farricocos na ci­dade de Goiás, durante o Festi­val de Cinema e Vídeo Ambien­tal (Fica). “Também ilustrei a capa da primeira edição da re­vista de jornalismo cultural, a Raízes”, acrescenta.

 

ENTREVISTA CRISTIANE REZENDE

 

Tudo que aconteceu na vida de Cristiane Rezende se deve e muito à vivência com a Procissão do Fogaréu, que lhe deu não apenas reconheci­mento e um tema recorrente e descaradamente preferido: te­ria ainda um causa pela qual lutar: a preservação da cultura popular. Mais sobre este tema, a paixão pela cidade de Goiás, e, claro, pelos Farricocos, a ar­tista contou ao Diário da Ma­nhã, confira a seguir trechos deste bate papo, na entrevis­ta a seguir.

DMRevista: O antigo sempre te atraiu mais?

Cristiane Rezende: Sem­pre fui apaixonada por his­tória, encantada por coisas antigas, cidades antigas me prendem o olhar, me instiga a curiosidade, nossa como eu adoraria descobrir seus se­gredos (risos).

DMRevista: Acredita que o folclore goiano está bem preservado nos dias de hoje, que são rodeados de tantas novidades?

Cristiane Rezende: Além dos Farricocos eu me sinto atraída pelos palhaços da Folia de Reis. Gosto muito dos movimentos das fitas coloridas e das rou­pas de chita salpicadas de flo­res simples mas cheias de en­cantamentos. O interessante que essas duas manifestações folclóricas contam histórias de traições. E quanto mais estudo, mais ligações eu encontro neles. Na procis­são do Fogaréu os Farricocos simboli­zam os guardas que saíram juntamen­te com Judas para prender Jesus, já na Folia de Reis os palhaços também sim­bolizam os soldados que saíram para realizar a prisão, mas tem uma dife­rença: no momento da prisão os sol­dados (palhaços da Folia de Reis) se arrependem e prostram aos pés de Je­sus. O apóstolo Paulo, que era cobra­dor de impostos antes de se converter era mais parecido com os soldados Far­ricocos implacáveis, isto em sua vida prática de cobrador de impostos, mas o que é interessante é que Paulo se pos­tou aos pés de Jesus em uma aparição, então penso que esta atitude dos pa­lhaços da Folia de Reis deve ser devi­do a este ato.

DMRevista: Como é sua relação com a fé?

Cristiane Rezende: Sou espiritualis­ta, não tenho religião específica. Mas sou grande admiradora da Igreja Ca­tólica, porque foi nela o início da pro­pagação dos grandes artistas, como Michelangêlo e Leonardo Da Vinci. Suas obras foram imortalizadas graças às en­comendas da Igreja naque­la época. Mas o importante para mim é a arte sobrevi­ver ao tempo, independen­te de onde ela é mostrada.

DMRevista: Acredita que o folclore goiano está bem preservado nos dias de hoje, que são rodeados por tantas novidades?

Cristiane Rezende: Em re­lação à preservação do folclo­re goiano, eu sinto uma cer­ta contradição, porque existe há muitos anos vários grupos que todos os anos tem manti­do sua tradição de sair às ruas como, por exemplo as conga­das, folia de Reis, a dança das pastorinhas, procissão do fo­garéu, etc. Mas se realmente você pegar qualquer pessoa andando na rua e perguntar quais os personagens do fol­clore goiano dificilmente ele irá responder, eu não sei o por que? Mas se você perguntar de Sergipe ele vai se lembrar da sombrinha e do frevo. Isto é o que mais me deixa enca­bulada e entristecida.

DMRevista: Onde está a falha?

Cristiane Rezende: penso que está nas escolas, que tra­tam este assunto superficial­mente, como se fosse algo dis­tante e isolado de nosso povo, nossas raízes. Veja bem, a pouco tem­po descobri que uma escola de Goiânia fez uma releitura de minhas telas que tinham os Farricocos, os palhaços da folia, xerocopiaram minhas pinturas mas cortaram meu nome. Não expli­caram aos alunos que aquilo era uma criação artística valorizando nossos personagens folclóricos, apenas colo­caram eles para copiarem e pintarem igualmente minhas telas. Achei um absurdo, não me deram créditos pela obra que criei, não me convidaram e nem explicaram que aquilo represen­tava nosso Estado. Por isto acho que a falta de valorização de nossa cultura está na escola.

DMRevista: Está planejando alguma exposição? Quais são os seus planos e projetos para o futuro?

Cristiane Rezende: Estou em uma fase de minha carreira que não estou fazendo planos para exposições coleti­vas e nem individuais. Estou querendo só pintar compulsivamente, no momen­to produzir é o que está me movendo, apenas quero tirar de dentro de mim este monte de cores e desenhos que es­tão criando vida. Já fiz muitas exposi­ções seguidas por três anos consecuti­vos, chega um momento que expor já não é o principal, o importante para mim é pintar, cumprir minha missão para com o mundo. Meus planos é me­lhorar cada vez mais em conhecimen­to e qualidade de meus trabalhos, não tenho ambições e nem pretendo en­trar com projetos em leis de incentivo a cultura. Tenho minha opinião for­mada sobre isso e acho difícil mudar, a não ser que se mudasse a estrutura de como as coisas funcionam.

DMRevista: Como acha que a arte pode transformar a arte da comunidade?

Cristiane Rezende: Arte é simples­mente em minha vida a essência para continuar vivendo, a Arte salva, se fos­se mais valorizada pelos governantes a sociedade seria mais calma, haveria menos crimes, menos ansiedade, me­nos depressão, mas como exigir valori­zação da arte e cultura de governantes que não tem cultura, é o que eu disse no início, o caminho é o conhecimento na escola, na base. A comunidade que trabalha a tradição cultural com suas crianças terão maiores possibilidades no futuro, simples assim.

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