Ademir Hamú revela curiosidades da música goiana em livro que lança no Mercado da 74
Redação
Publicado em 26 de novembro de 2025 às 20:49 | Atualizado há 6 meses
Prosa afiada: Amir Hamú documenta vida e obra de cantores e compositores
Marcus Vinícius Beck
O escritor Ademir Hamú biografa a trajetória artística de 36 cantores e compositores em “Os Segredos das Canções”, livro que lança nesta quinta-feira (27/11), às 19h30, no Mercado da 74, antigo Bairro Popular. A obra revela como nasceram os grandes sucessos da música local.
Hamú informa ao DM que o evento contará com shows. A noite, segundo ele, terá Adalto Bento Leal, Pádua, Maria Eugênia, Marcelo Barra, Carlos Brandão e Valter Mustafé — nomes destacados no cenário goianiense pela sofisticação melódica, versos regionalistas e voz aveludada.
Para o biógrafo, “Os Segredos das Canções” descortina os bastidores das principais músicas goianas. “É uma viagem pelos mistérios das composições, com informações importantes, curiosas e emocionantes”, adianta o autor, que anuncia um 2° volume da publicação.
O texto abre com um perfil de Arthur Rezende, personagem marcante no rádio goiano. Em seguida, Hamú transporta o leitor para o Bazar Paulistinha, em Campinas, onde Bariani Ortêncio criou, em 1945, a loja de discos que levava aos lares goianos novidades fonográficas.
Nesse tom memorialístico, o autor disseca a jornada instrumental do baixista Bororó. “É um músico extremamente versátil”, salienta, descrevendo as excursões do goianiense com Gilberto Gil e Chico Buarque. “É considerado um dos maiores instrumentistas brasileiros.”
Confissão
Antes de o leitor ingressar na obra, Hamú abre uma janela subjetiva: confessa-nos seu apreço por letras de canções. Ele ocupa a cadeira n° 4 da Academia Goiana de Letras (AGL), cujo patrono é o poeta, jornalista, advogado e desembargador Antônio Félix de Bulhões Jardim.
A boa música, para Hamú, precisa de uma letra à altura. Por isso, cultua Paulinho de Viola e seu “Argumento”. Gosta ainda de Milton Nascimento falseteando a “Travessia” de Fernando Brant. Sem falar de Chico — que, apesar da ditadura militar, criou joias da poesia popular.
“[Apreciava] tantas outras maravilhas de nosso cancioneiro”, diz Hamú. Da adolescência, vem-lhe à cabeça o pai encantando-se com “Boneca Cobiçada”, de Euclides Rangel e Biá. “Deslumbrava-se com os versos ‘nas noites de sereno/ teu corpo não tem dono…’”, lembra.
Como se vê, a música brasileira o embasbacou por toda a vida. Não haveria de ser diferente, é claro, quando caiu na noite goianiense para acompanhar Fernando Perillo, João Caetano e Gustavo Veiga, com letras de Nasr Chaul, Carlos Ribeiro, Tavinho Daher e Carlos Brandão.
Ia-se ao Sirius Chopp, na Rua 10, e depois parava-se no Dom Quixote, na Praça Tamandaré. Na Praça Universitária, frequentava-se o Chafariz e, na Rua 8, que nos últimos anos voltou a reunir jovens, batia-se ponto no Tasca 8. Hamú vivia isso — era um poeta pós-crépúsculo.
Entre chopes e uísques, bebericava-se sonhos — paixões se formavam, hormônios em alta, aí viravam amores, num êxtase total, então vinha a fossa. Tudo, é claro, acontecia numa mesa de bar. O coração é um animal que se liberta — como dizia o compositor Tavinho Paes.
Perfis

No Bloco 2, “Os Segredos das Canções” pinça um retrato de Carlos Brandão, que, aliás, assina o prefácio da obra. Segundo Ademir Hamú, Brandão seria “o guru da moçada”. O texto costura sua participação no Comunica-Som, nos anos 1970, com suas atividades atuais.
Além do jornalista e poeta, Ademir Hamú lembra de Flávio Dell’Isola, Gilberto Correia, Gustavo Veiga e Horton Macedo. Ou seja, nesse conjunto de perfis, é possível dimensionar a qualidade da música produzida em Goiás — o que se aprofunda nos próximos textos.
Hamú faz um trabalho de fôlego, é certo. Se no Bloco 3 documenta a obra de Juraildes da Cruz, Lucas Faria e Braguinha, traça-se, nos capítulos subsequentes, uma perspectiva acerca de Hamilton Carneiro, João Caetano, Maria Eugênia, Pádua, Marcos Caiado, dentre outros.

Iluminados
Segundo Brandão, não há mistério no fato de que a música goiana é de “altíssima qualidade”. “Não excluo estilos, como alguns iluminados da verdade”, atesta o poeta, citando o pop e o sertanejo, o rock e o hip hop, a MPB e o caipira, o trap e o eletrofunk.
“Além de mexer num vespeiro, o cara que vai fazer esse tipo de trabalho precisa de muita pesquisa, tempo e paciência”, afirma Brandão. “Acho meio cabotino escrever um livro apenas sobre um nome, como se esse fosse o rei da cocada preta. Sempre preferi a inclusão.”
Brandão condensa o estado estético do leitor diante de “Os Segredos das Canções”: “Resta a nós, leitores e amantes da música feita em Goiás, pegar esse importante registro e ler com o carinho que as histórias dos artistas aqui citados merecem.”
Foto de destaque: Arquivo pessoal