Amaro Freitas leva piano preparado ao Oscar Niemeyer durante Goyaz Festival
Redação
Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 21:39 | Atualizado há 3 meses
Músico pernambucano faz sons ecoarem como vento - Foto: Micael Hocherman
Não sentirás frio, não sentirás calor. No Oscar Niemeyer, nesta sexta-feira (27/2), às 23h15, o piano te afastará dos ruídos urbanos. Escutando-o, entenderás que o correr do tempo se confessa como a grande mentira que nos foi dada a acreditar. Nele, te verás e te ouvirás.
Aqui estará o músico Amaro Freitas, 34: movendo-se e movendo-se de maneira dissonante. Seus dedos, ágeis, trespassam a cor e a natureza. A música como rajada de vento. O canto dos pássaros na nuvem carregada. A água nas vitórias-régias. No palco, inicia-se o show.
Para o concerto no Goyaz Festival, Amaro juntou-se a Sidiel Vieira (contrabaixo acústico) e Rodrigo Digão Braz (bateria). Ao lado dos instrumentistas, para evocar a crítica Sadie Sartini Garner, o pernambucano se revelará tão próximo de Bach quanto dos ritmos nordestinos.
Segundo ela, o pianista exibe virtuosismo digno de compará-lo ao saxofonista John Coltrane, imortalizado pelo seu tenor no disco “A Love Supreme”, de 1965. “A execução polirrítmica de Freitas revela simultaneamente diferentes cadências em cada mão e é ao mesmo tempo rendada e delicada, forte e propulsiva”, explica Sartini Garner, no site musical “Pitchfork”.
Amaro tem antiga ligação com o jazz. Vem desde a adolescência pobre, quando um DVD do pianista Chick Corrêa lhe chegou às mãos. De cara, enlouqueceu com o estilo fluido, pautado no improviso e na liberdade. Naquele dia, um mundo abriu-se diante do jovem periférico.
Amor supremo
Tal qual Coltrane, afirma a estudiosa, Amaro aborda suas composições manifestando o mesmo espírito confiante e aventureiro que imprime ao seu instrumento. Quando faz isso em “Y’Y”, continua a especialista, ele deixa pra lá a acessibilidade dos primeiros discos.
Desde “Sangue Negro”, de 2016, o brasileiro obtém aclamação crítica internacional. No “The New York Times”, em 2024, a jornalista Carolina Abbott Galvão referiu-se ao músico como “integrante de uma geração de artistas de jazz brasileiros que busca revitalizar o gênero”.
A partir de “Rasif”, de 2018, já contratado pela gravadora inglesa Far Out, Amaro ingressou na cena jazzy mundial. Três anos depois, em 2021, ele embarcou em uma trip espiritual pela cultura afro-brasileira. O resultado foi “Sankofa”, que forjou uma música transcendental.
A religiosidade, aliás, se faz presente desde a infância em Nova Descoberta, periferia do Recife. Evangélico, contava 12 anos quando expressou a vontade de tocar bateria. O pai, no entanto, o avisou de que já havia muitos bateristas na igreja. Assim, restou-lhe o teclado.
Como não tinha grana, o jovem tomou aulas de Brasil e se virou pra ir atrás de seus sonhos. Assumiu-se pianista e, sem os 30 reais da mensalidade do Conservatório Pernambucano de Música, foi atendente de telemarketing. Não cursou a UFPE, pois achava-a eurocêntrica.
Disco desliza pelas vicissitudes da natureza

“Rasif” eocando. Você desliza nas vicissitudes do tempo. As andanças harmônicas se deslocam, como se fosse o timbre do nascimento e da vida, algo que entoa os tons da epifania. Por todas as nove faixas, a obra musicaliza a história da ancestralidade afro.
Antes disso, em 2020, o pianista descobriu sonoridades durante uma viagem à Amazônia. Começou compondo músicas que invocassem a riqueza de melodias e ritmos. O título do disco, “Y’Y”, significa “rio”, ou “água”, no idioma dos povos indígenas Sateré-Mawé.
“Quando fui para lá e vi as casas flutuantes, as redes nos barcos, visitei uma tribo pela primeira vez e vi o lugar onde as águas cor de palha do Rio Amazonas encontram o Rio Negro, senti como se estivesse acessando um outro Brasil”, diz ao “The New York Times”.
Amazônia
Embora não soubesse nadar, o pianista molhou-se nas águas amazônicas. Vem cá: não era ele que se declarou incapaz de flutuar sobre o rio? Era, sim, leitor jazzófilo. Acontece que o fotógrafo Helder Tavares, ao avaliar a luz natural, pediu-lhe que ali ficasse para fotografá-lo.
A julgar pela capa de “Y’Y”, Amaro tinha um plano: conectar todas as músicas à natureza. “Mesmo sequenciadas, foram concebidas como um todo único. Do começo ao fim, tratava-se de criar uma paisagem sonora do rio e da floresta”, contou ao jornal francês “Libération”.
Elogiado mundo afora, o pianista declarou à plateia enquanto se preparava para tocar no Banlieues Bleues, festival de jazz tradicional na França: “Deus e Naná estão comigo.” Naná a que ele se refere é o percussionista Naná Vasconcelos, cuja carreira inclui colaborações com BB King, David Byrne e Björk— pra não falar dos oito prêmios Grammy conquistados.
Não sentirás frio, não sentirás calor. Sentirás, isto sim, o piano preparado de Amaro Freitas a ressoar pelo Oscar Niemeyer nesta sexta (27/2). Verás dominós depositados no instrumento e, com isso, apreciarás a inovação da técnica desenvolvida por John Cage, nos anos 1940.