Antonio Pitanga defende cultura em Goiânia
Redação
Publicado em 10 de novembro de 2025 às 20:29 | Atualizado há 7 meses
Artista narra história esquecida de levante que ocorreu em Salvador no século 19 - Foto: Jackson Romanelli/ Arquivo
Marcus Vinícius Beck
Durante entrevista coletiva em Goiânia, ontem, o ator Antonio Pitanga disse que a cultura emana do povo. “É o estado mais democrático”, salienta Pitanga, 86, criador de “Malês”.
O filme, por ele dirigido e estrelado ao lado dos filhos Camila e Rocco Pitanga, reconstruiu a Revolta dos Malês. A insurreição de escravizados muçulmanos eclodiu na capital baiana em 1835. À época, Salvador testemunhou uma revolta significativa na luta contra a escravidão.
Pitanga narra história esquecida. “[Há] quantas assim em Goiânia, Goiás, que os brasileiros precisam conhecer?”, interpela o artista, em cujo roteiro baseou-se na obra “Rebelião Escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em 1835”, do historiador João José Reis
Em quase duas horas, “Malês” acena para o cinema novo. O artista, aliás, se destacou pelas suas atuações em produções ligadas ao movimento vanguardista. Segundo o diretor Cacá Diegues (1940-2025), Pitanga bagunçou o mundo cinematográfico com sua sensualidade.
Nascido no Pelourinho, em 1939, Pitanga é figura emblemática da cultura baiana. Conheceu o cineasta Glauber Rocha nas filmagens de “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto (1960). Luiz Sampaio tornou-se Pitanga, nome do personagem que fazia na fita.
Glauber lhe fez um convite: viver Firmino. Papel aceito, interpretou um ex-pescador que, ao retornar após anos, tentou libertar os moradores da dominação religiosa. Em grande medida pela atuação de Pitanga, “Barravento” (1961) logrou espaço nobre na filmografia brasileira.
Parceria
De Glauber, Pitanga faria ainda “A Idade da Terra”, no qual interpretaria Cristo Negro. O diretor, em seu derradeiro longa-metragem, inspirou-se num poema de Castro Alves. Morto em 1981, apregoava o seguinte: este filme só será compreendido daqui a 25 anos.
No ano seguinte, Pitanga integrou o elenco de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, como Mestre Coca. O filme superou produções dirigidas por Michelangelo Antonioni e Luis Buñuel, ao levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962.
Em 1978, ainda que para fazer apenas um filme, mudou-se para trás das câmeras. Ali, realizou “Na Boca do Mundo”, cuja premissa parte de Antônio que ama Terezinha. Seu objetivo é deixar Atafona, pequena cidade de pescadores. Quer melhorar de vida.
Nesta década, Pitanga emprestou seu estilo de atuação para o filme “Oeste Outra Vez”, do goiano Érico Rassi. No ano passado, foi a sensação do Festival de Gramado: venceu Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Ator Coadjuvante.
“Revelou-me um Brasil bonito”, pontuou Pitanga, ao se referir às cores do sertão goiano. Formado na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), participou ontem de roda de conversa na FacUnicamps, no Setor Coimbra, em Goiânia.