Chico Chico leva vozeirão bluesy para “Um Festival” neste sábado (30/5)
Redação Online
Publicado em 29 de maio de 2026 às 14:28 | Atualizado há 2 meses
Chico Chico apresenta disco “Let It Burn/ Deixa Arder” - Foto: Zabenzi/Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Rola um blues elétrico, cheio de lassidão. Voz amarfanhada e som amargamente dilacerante desse cara que fala pros miseráveis. Chico Chico, 32, que canta amanhã no Um Festival, em Goiânia, entoa um sonzão — “Pra quem vê a luz/ mas não ilumina suas minicertezas”.
É o “Blues da Piedade”, de Frejat e Cazuza. Vem o soco poético: “Vive contando dinheiro/ E não muda quando é lua cheia/ Pra quem não sabe amar/ Fica esperando/ Alguém que caiba nos seus sonhos/ Como varizes que vão aumentando/ Como insetos em volta da lâmpada.”
Há dias essa versão não sai do som. Coisa boa ouvir música que faz o cérebro entrar em reflexões sociais e, ao mesmo tempo, se deliciar com um arranjo que arranha, que corta, que machuca. Tem solos de guitarra. E outra vez eles, senhor. E outra vez os caretas e covardes.
Como Cazuza e Angela Ro Ro, Chico tira o canto da alma. Soa espontâneo, intenso, tal e qual o tesão que se manifesta entre lençóis noturnos. Não se limita apenas ao repertório autoral. Gosta de releituras, de rock, de MPB e folk. Ora, é o filho da diva Cássia Eller.
Para o produtor Pedro Fonseca, “Blues da Piedade” funciona bem na voz do Chico. “Pelo viés político e atual da canção, reverbera forte no público”, diz Fonseca, também tecladista, arranjador e amigo desde os tempos em que estudavam juntos. “No arranjo, optamos por fazer uma reverência à versão do querido álbum ‘Veneno Antimonotonia’ (1997), de Cássia.”
Daquelas sessões, três músicos: Walter Villaça (guitarra), João Viana (bateria) e Fernando Nunes (baixo). Tocaram ainda no “Veneno Antimonotonia Ao Vivo”, sob direção de Waly Salomão. A formação fecha com Thiaguinho Silva (percussão) e Luiz Ungarelli (percussão).
No doc “Sonho de Uma Noite no Leblon”, Cássia contou ter ficado em transe quando ouvira o Barão Vermelho no rádio tocando e Cazuza berrando o blues “Down em Mim”. “Eu falei: ‘caralho, o que é isso?!’. Nessa época, em 81, 82, as bandas de rock eram mais punks. E tava tocando um baladão, né? Uma coisa mais blueseada completamente diferente”, lembrou.
Agora Chico no Spotify. Às três da madrugada, me assusto: e esse cara aqui falando da vida a dois, de andar juntos e sempre lado a lado? E ainda dizendo que carrega a certeza que vive sobre o predicado de que é apenas o início de um imenso caminho de prazer e suplício?
“É tempo de louças”, canta Chico, em um blues-rock ao estilo Joe Cocker, a quarta faixa do disco “Let It Burn/ Deixa Arder”. O eu-lírico acentua o tom confessional: “Agora acredito que eu possa dizer/ Que eu amo você/ Agora acredito que eu possa dizer/ Eu te amo!”.
Apaixonado pela mulher — a atriz Luísa Arraes, prestes a viver Cássia em cinebiografia —, o artista achou o caminho. “‘Tempo de louças’ veio quando estava dormindo. Sonhei que lia uma cifra que era dessa música. Acordei, nem abri o olho para não desconcentrar, corri para o violão e toquei a cifra”, disse Chico, em conversa com Silvio Essinger no jornal “O Globo”.
Em blues, Chico Chico expurga dor ao falar sobre luto

Passo pra próxima faixa: “Two Mother’s Blues”. Meio Rolling Stones em “Beggars Banquet” (1968), a música possui letra autobiográfica. É um blues desplugado, em inglês, cujos versos enfatizam uma dor que o cantor conheceu cedo: “Meu pai morreu antes de eu nascer.” Logo depois, entoa: “E antes de ela fazer quarenta anos/ Deus também levou a minha mãe.”
Apesar da saudade, Chico Chico se diz “sortudo demais”: “Tenho mais do que poderia ter perdido/ Eu me sinto abençoado, como ninguém/ Sou uma criança criada por duas mães.” Maria Eugênia assumiu a maternidade após a morte de Cássia, em 2001, aos 39 anos. No disco “Pomares”, ela participa da faixa “Mãe”, na qual divide o microfone com o filho.
Muito tocante, claro. Aliás, Chico deixou há muito de ser promessa. Em “Let It Burn / Deixa Arder”, álbum de 20 faixas (equivalente a um vinil duplo), ele chega ao auge de sua potência vocal. Basta ir ao Spotify e ouvir a versão para “Four and Twenty”, de Crosby, Stills, Nash & Young. Sinta como pôs sua personalidade em “Girl From the North Country”, de Bob Dylan.
“Let it Bleed”, ensinaram os Stones, em 1969. “Let It Burn/ Deixa Arder” traz a sagacidade de Pedro Fonseca, bem como o balanço de Marcos Suzano (percussionista) e os sopros de Carlos Malta (pife) e Marlon Sette (trombone). É som pra ouvir e, sobretudo, reouvir.
Estimulado por Luísa Arraes, o artista relê “Vila do Sossego”, de Zé Ramalho. Assim como nas outras duas canções citadas, ele se mostra irrepreensível. É um artista em plena ebulição, descobrindo a vida calma, as texturas do amor e se deixando arder na fogueira do lirismo.
Como canta no folk autoral “Farsa”, Chico Chico não muda. Só não é mais aquele. Sim, ele encontrou sua voz, algo que perseguia desde a banda 2×0 Vargem Alta. Desde “Pomares” (2022) e depois “Estopim” (2024), o compositor se consolida de vez na música brasileira.
Até que enfim, vamos sair de casa para assisti-lo. O artista carioca é a novidade do Um Festival, que também terá Samuel Rosa, Detonautas, CPM 22, Raimundos e Biquíni. O evento acontece amanhã, a partir das 15h, no Centro Cultural Oscar Niemeyer.