Da pele à pedra
Redação DM
Publicado em 13 de fevereiro de 2018 às 22:11 | Atualizado há 1 ano
Nascido em Nápoles, na Itália, o escultor Gian Lorenzo Bernini ficou conhecido por sua destreza em manipular a pedra, expressa em suas estátuas barrocas que tiveram grande visibilidade no século XVII. Também se destacou como arquiteto, sendo a Praça de São Pedro, no Vaticano, um ideal que saiu de seus traços. Trabalhava e vivia sob um mantra: “Aqueles que nunca se atrevem a quebrar as regras nunca vão ultrapassá-las”. Sua obra, considerada tempestuosa, foi financiada principalmente pelo papado. Em contrapartida, ele interpretou os temas religiosos com incomparável habilidade, e com uma licença artística radical. A obra dele foi tema do artigo “Como Bernini capturou o poder da sexualidade humana na pedra”, escrito para o site Artsy pela autora Alexxa Gotthardt.
A autora introduz o trabalho do artista explicando qual era a diferença de suas estátuas para as demais, abundantes no período em que viveu. “Bernini esculpiu deuses poderosos e santos mártires em mármore, como muitos outros escultores clássicos fizeram antes dele”, conta Alexxa. “Mas ele tratou de seus assuntos com aspectos particularmente humanos, esculpindo em suas formas, expressões, emoções apaixonadas e impulsos carnais”. O aspecto hiperrealista que as estátuas de Bernini apresentavam deixou um legado permanente às próximas gerações no sentido de aproximá-las ao corpo. “Ele revolucionou de maneira efetiva a arte tridimensional e a representação do corpo, que continham certas restrições naquele período”, explica a autora.
De acordo com Alexxa, existe uma obra específica que traz uma explosão da combinação entre profano e divino na obra do artista. “O exemplo mais marcante e lendário do casamento entre sexo e sagrado na obra de Bernini está encarnado na escultura Êxtase de Santa Teresa (1647-52), uma peça que hoje está aninhada no centro da pequena igreja romana de Santa Maria della Vittoria”, expõe. A intenção era representar de forma material um milagre presenciado pela santa Teresa d’ávila, padroeira da igreja católica que viveu entre 1515 e 1582. “A captura do momento dramático da obra representa o momento em que Santa Teresa é visitada por um anjo, que está prestes a atravessá-la com uma flecha”.
REPRESENTAÇÃO
O grande feito de Bernini, de acordo com a autora, ao recriar uma imagem várias vezes antes recriada, foi atribuir traços humanos que causam impressão de flexibilidade às figuras representadas. “Nas representações artísticas da cena feitas anteriormente, o corpo de Teresa era frequentemente retratado de forma rígida, assim como sua expressão de pedra”, conta. A expressão atribuída por Bernini à santa traz o prazer carnal como momento de apoteose do encontro da virgem, padroeira de várias causas (como doenças; dores de cabeça; xadrez; bordadoras; perda dos pais; pessoas precisando da graça divina) com Deus. “Por outro lado, sua teresa está se contorcendo, sua boca agonizando e os olhos brilhantes remetem a um prazer orgásmico”.
E não é só a santa que teve sua força submersa às habilidades do artista. “Além disso, o anjo, que sorri quando gentilmente levanta um canto da túnica da santa, parece introduzir seu arrebatamento. Não é difícil perceber as conotações sexuais da flecha penetrante do anjo”, explica. A autora explica que ainda hoje as obras do artista sofrem represálias de figuras atuais do catolicismo. “Mesmo que a escultura tenha sido comissionada por Federico Cornaro, um Cardeal Católico, ainda é alvo de críticas dos perseguidores de Bernini por sua descrição sensual de figuras religiosas”. Ela conta ainda que na época, o auge da carreira de Bernini, ele já estava acostumado e experiente com as críticas negativas, o que fazia dele uma figura bastante popular.
O talento de Bernini, de acordo com Alexxa, tinha bastante a ver com a maneira perfeccionista que ele tinha de lidar com os estudos. “Quando jovem, Bernini passava a maioria do seu tempo livre no estúdio, aprimorando suas práticas. Seu compromisso com a disciplina era ardente–quase obsessivo–e sua forma ingênua e delicada de manipular a pedra já era notória ainda na adolescência, quando passou a receber encomendas”. A autora associa a fase de descoberta da arte de Bernini com as primeiras descobertas físicas. “Dessa forma, ainda adolescente, ele somou o processo de fazer arte com o de se apaixonar, canalizando a paixão que sentia diretamente nas suas formas”. Várias outras obras do artista, expostas nesta página, comprovam a visão de Alexxa.
